O portão da penitenciária feminina de segurança média se abriu com um rangido metálico que mais parecia um aviso: “Você está livre, mas nunca será a mesma”.
Fernanda Guimarães atravessou os portões de cabeça erguida, mesmo que por dentro estivesse despedaçada. O blazer preto que usava, amarrotado, era o único vestígio da mulher poderosa que um dia comandara milhões na Valente Enterprises. Nos sapatos, restava poeira e vergonha. No rosto, nenhuma maquiagem, mas os olhos… ainda ardiam com orgulho.
Do lado de fora, nenhuma imprensa. Nenhuma recepção calorosa. Apenas o céu nublado e uma mulher segurando uma bolsa bege surrada — Laura, sua irmã mais nova, e a única que não a abandonara.
— Tá pronta? — Laura perguntou, estendendo a mão.
— Não tenho escolha — Fernanda respondeu, pegando a bolsa e encarando a estrada.
O apartamento de Laura era pequeno e barulhento, dividido com duas colegas de trabalho de um call center. Fernanda se encolheu no sofá da sala enquanto Laura preparava café.
— Já sabe o que vai fazer agora? — Laura perguntou, sentando-se ao lado.
— Procurar emprego, talvez abrir uma empresa menor. Começar do zero.
— Com ficha criminal?
Fernanda soltou um riso seco.
— Ainda tenho contatos. Alguns ainda me devem favores. Outros só têm medo de mim. Posso usar isso… por enquanto.
— E o Alexander?
O nome dele foi uma lâmina. Três sílabas e tudo sangrava de novo. Fernanda desviou o olhar.
— Morto pra mim. Como todo mundo.
Laura ia responder, mas o celular de Fernanda vibrou. Era uma mensagem desconhecida:
“Tenho uma proposta. Te encontro amanhã, 10h, Café Aquarela. Não se atrase. — D.M.”
— Quem é? — Laura perguntou.
— Não faço ideia… Mas amanhã eu descubro.
O Café Aquarela era discreto, com música baixa e aroma de canela. Quando Fernanda chegou, um homem de barba por fazer, olhar curioso e gravador em cima da mesa já a aguardava. Era Davi Monteiro, jornalista investigativo e autor de dois best-sellers sobre bastidores de empresas poderosas.
— Antes de você ir embora, me escute por dois minutos — ele disse, levantando as mãos.
— Tem sessenta segundos — Fernanda rebateu, sentando-se.
— Quero contar sua história. A verdadeira. Não aquela que a mídia engoliu com prazer. Quero saber quem era a Fernanda antes da Valente. Antes do escândalo.
Ela riu, amarga.
— E em troca?
— Um contrato de confidencialidade. Você revisa tudo antes de publicar. E se quiser… pode contar sua versão sobre Alexander também.
Fernanda cruzou os braços.
— Eu nunca fui vítima. Nem vilã completa. Mas eu era a melhor. E paguei por isso.
— Justamente. As pessoas adoram um monstro. Mas amam uma fênix. E você pode renascer — ele disse, entregando um cartão. — Pense com calma.
De volta ao apartamento, Fernanda encontrou um envelope sem remetente na portaria. Dentro, uma carta e um cartão de visita preto, com o nome: “Orion Investimentos Privados – Diretoria Especial”.
A carta era direta:
“Sabemos do seu talento. Sua queda foi uma jogada… necessária. Agora, queremos você ao nosso lado. R$ 1 milhão em capital inicial. Nenhuma pergunta. Apenas resultados.
PS: Rompa qualquer contato com Alexander Valente.”
Fernanda olhou para o papel, sentiu o coração acelerar.
Um milhão para começar de novo. Um preço alto: cortar qualquer laço com o único homem que um dia significou algo real.
Ela fechou os olhos.
“Liberdade com correntes… é isso que vou viver agora?”
Mas ainda assim, uma escolha era melhor do que nenhuma.
E Fernanda Guimarães — caída ou não — nunca foi de recusar um jogo.
A sala era pequena, mas as paredes estavam forradas com painéis acústicos pretos. O endereço da Orion Investimentos levava a um prédio sem placas, em um dos bairros mais discretos e caros da cidade. Nada de recepcionista. Nenhum logotipo. Apenas uma porta de vidro fumê e um homem com terno impecável à espera.
— Senhorita Guimarães. Bem-vinda.
Fernanda caminhou até ele com passos firmes, embora por dentro sentisse o peso de um novo jogo. Não perguntou como sabiam tanto sobre ela. Aquilo era a elite do poder disfarçada de silêncio.
Foi conduzida a uma sala ampla, com janelas cobertas por cortinas escuras e uma mesa de vidro no centro. Ali, três pessoas a esperavam: um homem grisalho de olhos penetrantes, uma mulher elegante de expressão neutra, e um terceiro sujeito jovem, com o celular colado à mão e um sorriso vago.
— Não temos muito tempo — disse o grisalho. — Você vai abrir a nova filial da Orion com nosso capital. Controle total. Mas temos uma cláusula inegociável: você não pode fazer qualquer contato com Alexander Valente. Seu nome está… sensível demais para nossa agenda.
Fernanda se recostou na cadeira.
— Isso é mais do que investimento. É controle.
— É oportunidade. E proteção — respondeu a mulher elegante. — Você terá uma equipe própria, seu nome na mídia como símbolo de superação. Mas não podemos correr riscos emocionais.
“Riscos emocionais”, pensou Fernanda. Eles sabiam o quanto Alexander ainda mexia com ela.
Ela fingiu refletir por um instante, mas já sabia a resposta. Havia passado meses sendo humilhada, anulada, exposta. Estava cansada de perder. Era hora de vencer — mesmo que o preço fosse apagar o nome de Alexander da sua história.
— Eu aceito — disse.
Uma semana depois, Fernanda inaugurava a Guimarães Strategic, uma consultoria de investimento e gestão de risco especializada em reestruturação de empresas em crise.
A mídia foi cuidadosamente convidada. As manchetes mudaram:
“Ex-diretora envolvida em escândalo ressurge com nova empresa”
“Fernanda Guimarães aposta na reinvenção profissional”
“De vilã a CEO: a volta por cima de uma mulher temida”
Davi Monteiro, o jornalista, mandou uma mensagem:
“Inteligente. Mas ainda quero ouvir sua versão inteira. Quando estiver pronta.”
Fernanda deixou a mensagem sem resposta. Agora, ela precisava se concentrar em erguer sua empresa — e manter seus fantasmas quietos.
Mas os fantasmas não dormiam.
Na terceira semana de operação, uma nova solicitação de cliente chegou. O nome soava exótico: Lorenzo Ramires.
Ao abrir o arquivo, Fernanda ficou em silêncio por longos segundos.
Executivo espanhol, ex-CEO da multinacional Santamar, afastado após um escândalo ético envolvendo… uma delação corporativa. Imagem pública arruinada. Movendo-se agora para mercados emergentes. Precisava de uma consultoria para redesenhar sua imagem — e reestruturar um grupo de empresas que estavam à beira da falência.
“Interessante…”
Ela aceitou a reunião.
Dois dias depois, Lorenzo entrou na sala de reuniões da Guimarães Strategic com o mesmo charme que ela reconhecia em homens perigosos. Alto, cabelo castanho ondulado puxado para trás, olhos verde-acinzentados e um sotaque espanhol carregado, porém elegante.
— Señorita Guimarães — disse, estendendo a mão. — Sabe o que dizem sobre nós dois?
— Que somos tóxicos? — ela devolveu.
Ele sorriu.
— Que somos sobreviventes. A diferença é que eu não finjo mais ser santo.
Fernanda arqueou uma sobrancelha.
— Nem eu.
O jogo estava lançado.
Naquela noite, enquanto organizava contratos e respondia e-mails, Fernanda recebeu outra mensagem. Não de Davi. Nem da Orion. Era um número antigo, quase esquecido:
“Sei que voltou. Não cometi o erro de subestimar você. Cuidado com os aliados que escolhe. — A.V.”
Alexander Valente.
Ela encarou a tela por longos segundos.
Apagou a mensagem.
Mas sabia: nem todos os inimigos são novos. E os mais perigosos… são os que você amou.