É fácil para uma boa garota se tornar má, e uma vez que nos tornamos pode acreditar que nos tornamos para sempre.
Good Girl Gone Bad, Rihanna
O sol já estava se pondo em na grande São Paulo, depois de um dia quente como o próprio inferno. Era um final de tarde como outro qualquer. Bem, tinha tudo na verdade, para ser mais um final de dia, daqueles monótonos, como todos os outros de domingos. Isso é, se a minha vida fosse tão pacata como deveria ser.
Me deito no terraço do grandioso e sem graça prédio cinzento do Reformatório Religioso de Santa Virgem, uma escola para freiras, onde eu chamo carinhosamente de prisão. Estico minhas pernas e apoio a cabeça com o antebraço, olho para o céu e vejo algumas nuvens brancas espalhadas por ele, então eu penso: por que não fumar um cigarro?
Consegui achar um no meu bolso, estava velho e mesmo amassado ele iria servir para passar o tempo da minha mente barulhenta e ociosa. Esmaguei a bituca nos lábios e o ascendi com o isqueiro, fazendo uma concha com a mão para que o vento não o apagasse, logo em seguida, puxei a fumaça lentamente pros meus pulmões, me beneficiando dos efeitos colaterais da nicotina.
Sim, eu sei exatamente o que as pessoas pensam sobre mim.
"Que tipo de freira você é?"
É aqui onde encontramos o problema da raiz quadrada. Eu não sou uma freira, apenas estudo para ser uma, contra a minha vontade, que fique claro. Fui trancafiada aqui aos setes anos de idade, quando comecei a demonstrar ser a ovelinha n***a da minha família, o lado podre que a minha mãe abominava, o problema que ninguém queria ter por perto.
— A gente podia beber todas hoje. — disse o garoto sentado ao meu lado.
Olho para ele e suspendo uma das sobrancelhas.
— Sua namorada ia amar a ideia. — fui irônica depois de soltar toda a fumaça presa nos meus pulmões.
Luís era um cara legal, era de boa com a vida, não se levava tanto a sério e fazia maravilhas com a língua, seu único defeito era que ele não prestava, mas isso de longe seria um problema pra mim, já que não presto também.
— Não fode. — ele sorriu, o que me fez dá um meio sorriso também ao ver suas covinhas. — Ela não é a minha namorada.
Jessica Cavalcanti... a pequena pedra em meu sapato. Pedra essa que é o típico estereótipo de garota padrão, tinha cabelos extremamente lisos e loiros, olhos azuis, cintura fina e s***s fartos, magra, esbelta, curvas bonitas e o detalhe mais importante, rica. A própria cópia falsificada da Barbie. Sempre certinha e sempre se esforçando ao máximo para ser a perfeita em tudo. Seu pai é um dos diretores médicos do Albert Einstein e sua mãe é uma das cirurgiãs plásticas mais conhecidas em todo o país.
Em poucas palavras, ela nasceu nadando em uma piscina de dinheiro. E por seus pais viverem para o trabalho e não para ela, acabou sendo criada pelos avós, que são religiosos ao extremo e como tentativa de realizar o sonho de ter uma neta devota assídua à religião católica enfiaram a cover da Regina George aqui.
Mas isso não funcionou muito bem, pois pelo o que podemos ver, Jessica também tem uma tara por bad boys, mas não posso ser comparada a ela, pelo menos eu, não finjo ser santa.
E antes que me julguem, eu não ligo em ser tóxica ao ponto de ficar com o namorado da garota que me odeia em tempo integral da sua vida. Se olharmos por outra perspectiva, estou lhe fazendo um favor em mostrar que ele não presta. Né?
— Você precisa ir. Se te pegam aqui, vão me dá mais uma advertência e se recebo mais uma dessas, sou expulsa. — avisei — Ou, a Jessica vai querer me deixar careca.
Luís não deveria estar comigo escondido no terraço, é domingo e todas as freiras estão na capela, rezando a milésima missa do dia, eu deveria estar lá também, mas... sou considerada um caso perdido demais para ter concerto.
— Qual é Lailah? — ele me encarou, tomando o cigarro das minhas mãos. — Se não quer beber, a gente pode ficar chapado com outra coisa, e depois se pegar. O que acha?
Seu convite era muito tentador, afinal de contas não seria muita audácia da minha parte querer a vida de uma jovem normal, porém meu histórico com álcool não é um dos melhores e muito menos com as drogas.
Suspirei, me dando conta que sou totalmente ao contrária do que me educaram para ser.
É triste na mesma medida que é sedutor que tudo que se é verdadeiramente divertido fará parte de algum pecado capital. Eu escuto o tempo todo: "Uma moça de respeito não pode e não deve ceder as tentações".
No fundo eu sei, que o Luís queria apenas saciar o desejo da carne comigo, enquanto com a sua namorada, ele estava indo devagar nesse quesito, para respeitar a decisão dela de esperar. Por um momento chego a me sentir usada, mas... Todos nós temos intenções sujas, não adianta esconder.
Homens são muito previsíveis, dá pra saber exatamente tudo o que pensam e se você for inteligente o bastante, vai saber muito bem como usar isso contra eles, não é querendo me gabar, mas eu sempre sei o que passa na mente deles.
Espalmei minha mão no peito de Luís, ele se inclinou um pouco para trás, aproveitando para apertar meus quadris com força. Vagarosamente, rebolo em cima do seu colo, sinto que ele fica animado com isso. Fecho os olhos e me arrepio quando os seus lábios tocam meu pescoço, é o meu ponto fraco, confesso.
— Você gosta, né? — sussurro em seu ouvido, porque sei que tal ato o faz querer arrancar minha roupa ali mesmo, e é aqui onde quero chegar. Pressiono ainda mais meus quadris para baixo, dando uma certa pressão enquanto continuo me movimentando de forma circular, então ele faz o que eu esperava que fizesse, ele puxa minha blusa de alças para cima, estou de sutiã por baixo, mas mesmo assim não posso esquecer que o terraço do convento é público e além disso é um lugar proibido.
Quem eu quero enganar? Por mais que eu tente, eu sempre vou ser tão filha da p**a quanto uma calcinha enfiada no r**o. Viver em um reformatório é só um caminho, um caminho meio sem sentido, que encontrei para fugir de casa, essa era a única parte boa, ficar longe de todos os problemas da minha família. Mas no fundo eu sabia que não demoraria muito para eu sair do purgatório e ir direto ao inferno.
Lailah Santos nunca fica muito longe dos problemas.
Apoio a cabeça no seu ombro, depois de permitir que meu sutiã fique exposto, então é a minha vez de escorregar sua camisa pelos seus ombros. O encaro fixamente, tentando colocar a ideia do f**a-se na minha cabeça, já que antes parecia tão banal, mas na pratica não está parecendo.
— Tem certeza disso? — Pergunto, sentindo minha boca secar.
Luís me olha com um sorriso brincalhão nos lábios.
— Lailah Santos dando para trás?
Eu estava prestes a contra argumentar, entretanto, antes que eu fizesse isso, uma voz chega aos meus ouvidos, irritando até o último dos meus neurônios.
Tiro meu olhar dos olhos castanhos do Luís e levo até a direção em que o som vem e me deparo com um par de olhos azuis cravados em mim querendo tirar todo o meu sangue, possivelmente, enquanto uma boca extremamente rosada, destacada na pele pálida, se abre em um perfeito "o".
— Que merda, Jessica! Não é isso que você está pensando. — Luís se levanta, me jogando para longe do seu corpo, já se saindo em defesa.
Reviro os olhos, me colocando de pé. Já era de se esperar, como eu disse, ele não prestava.
Fail...
— Você não cansa, Angeline? Sempre tentando destruir a sua vida e tentando f***r a vida de todos ao seu redor. Não cansa de ser assim, tão depravada? Suja? p**a?
Engulo a seco, desfazendo o meu sorriso sarcástico, é impossível não sentir o peso de cada palavra daquela. Por mais que eu tenha ouvido isso a vida toda, ouvir sempre a mesma coisa, uma hora te faz acreditar que é verdade.
— E do que te importa a forma na qual eu decidi destruir a minha vida?— caminho até ela e enfio vagarosamente meu dedo no seu ombro, mas se eu pudesse enfiaria violentamente minha mão na sua cara. — Isso é problema meu e não seu!
— Isso se torna problema meu, quando você decidiu pagar o meu namorado! — Ela apontou para o Luís como se ele fosse um p*u de borracha e depois para ela, mostrando a posse que ela tinha por ele.
Estreito minha visão na sua direção, pedindo aos céus para que eu não saísse do eixo hoje. Eu sei que estou errada, mas ele também está, e por que eu sou a única taxada de v***a aqui?
Como uma digna patricinha supérflua e popular da droga desse lugar, desde do dia em que Jessica botou os seus olhos em mim, ela decidiu que a sua missão de vida era me perseguir e quer saber? Depois de matemática, essa história de rivalidade feminina era que eu mais detestava nesse planeta, detestava não, seria muito amoroso usar essa palavra. Para ser totalmente sincera, eu odiava, abominava, execrava de todo o universo. Mas as vezes é necessário que eu me imponha, pra não sofrer certos tipos de ataques.
— Vai ocupar a sua boca, chupando uma rola, Jessica! — estava disposta a sair dali e ir fumar na janela do meu quarto, já que não é possível ter um minuto de paz nesse lugar — Você fala merda demais, me deixa em paz!
Jessica abre um sorriso perverso nos lábios, instantaneamente tenho vontade de soca-los.
— Só acho que você deveria tentar algo mais eficaz quando o assunto é acabar com vidas, Angeline. — ela deu de ombros, insistindo em me chamar pelo meu segundo nome. — Cigarros são lentos, bebidas não são tão eficazes, mas as lâminas... As lâminas não decepcionam. Você sabe disso. Da próxima vez usa elas, novamente.
Ela sempre me detestou. SEMPRE. Ela sempre praticou bullying com a minha magreza extrema, me fez odiar cada parte do meu corpo e o meu cabelo sem formato, até descobrir o lado mais intimo da minha dor e usar isso contra mim, foi então quando as coisas começaram a ficar bem sérias. Mas agora, tocar na minha ferida, literalmente, com as palavras mais afiadas que uma própria navalha, era demais.
Fiquei estática, sentindo todas as palavras jogadas em mim como se cada uma delas fossem pedras, e a verdade que habitavam nelas fossem como farpas entrando na parte mais obscura do meu coração. Com o meu silêncio digerindo o quão inútil eu posso ser, Jessica concluiu, erguendo suas as mãos pra cima, como se o que dissesse não tivesse peso algum, com a maldita cartada final:
— Não ia fazer falta.
E essa maldita cartada final, foi a gota d'água para que eu perdesse todas as minhas estribeiras de uma única vez.
Não contei de um até dez, na verdade nem fiz essa questão, tudo o que eu queria era pular em cima dela e arrancar com as próprias mãos cada fio loiro da sua cabeça. Jessica era como uma abelha rainha, sempre com as abelhas operárias ao seu redor, afinal, toda garota popular é dessa forma, aquele tipo que comandava as regras, ameaçava e botava medo, mas para a minha felicidade e a infelicidade dela, Jessica não era o tipo que ia pra batalha.
Que pena. Porque eu era.
Ela tentou se defender enfiando as mãos nos meus cabelos, só que essa modalidade específica de briga não era meu forte.
Eu gosto muito de socos e chutes e foi exatamente isso que eu fiz. E fiz bem.
Eu estava sentada em cima dela, meus joelhos estavam dobrados no cimento do terraço, um em cada lado do seu corpo, suas mãos agora tentavam proteger seu rosto da força da minha mão fechada, Luís tentava me tirar de cima dela, só que isso não era o suficiente. Perdi as contas de quantos murros deferi no seu lindo nariz plastificado, foram tantos que provavelmente ela terá que fazer um novo do zero.
A sensação de adrenalina nas minhas veias me faziam ficar cega e nem mesmo a cor vermelha do sangue respingando no meu rosto, consegui notar.
Eu só queria acabar com a raça dela e com toda a raiva presa no meu coração. Destruir o rosto e arrancar uma parte considerável dos seus cabelos até que foi, mas com o acúmulo de angústia que existia dentro de mim não deu certo e eu só me dei conta da merda que eu fiz, quando escutei a voz da coordenadora gritar:
— Lailah, agora você foi longe demais.
A senhora de meio metro estava horrorizada olhando a cena, foi quando me dei conta que possivelmente, ela já estivesse ali há alguns minutos e o meu ódio talvez tivesse me deixado surda.
Merda, mil vezes merda!
Parei imediatamente de socar a cara dela, fui retornando ao meu estado normal mental, sentindo ainda as mãos tremerem após tanta raiva, quando notei o estrago.
Jessica estava desacordada e com o rosto completamente desfigurado.
O pânico me atingiu, eu não poderia ter enviado a segunda pessoa em menos de quinze dias para visitar o céu, o inferno, ou qualquer lugar para onde os espíritos vão quando morremos.
Alguém me tirou de cima dela, e ainda analisando toda aquela cena de horror, tentei contestar.
— Mas... Mas ela... Ela disse...
— Não importa! — a madre Francisca, a dona do lugar e uma das freiras mais antigas daqui gritou em minha direção — Você é a pessoa mais anormal e conturbada que eu conheço. Vá para a minha sala agora!
— Isso é injusto! Você não sabe o que ela fez comigo. — gritei com os olhos ardendo devido as lágrimas relutantes em sair.
— Injusto? Estou cansada de criar penitências para que você pague todos os seus pecados. — ela gritou de volta. Fico com medo dela enfartar de raiva.
— Estar presa aqui é injusto, tudo gira em torno da falsidade de se esconder atrás de uma religião. Vocês usam os preceitos bíblicos para julgar, e esquecem do principal mandamento, amar o próximo.
— Já chega, agora sim, você extrapolou. Você está expulsa Angeline, expulsa!
E então? O que acharam da nossa bad girl problemática? Cheia de defeitos, não é? hahah
Mas vamos ver com a Lailah vai se comportar nos próximos capítulos, tenham paciência com a minha bebê, por favor.
Ah e mais uma coisa, perdoem os erros ortográficos.