Fernando:
As costelas latejam a cada respiração, um lembrete físico do coturno do Borges. Parar no "buraco" — a solitária — é o fundo do poço, mas o pior não é o escuro ou o frio. O pior é a incerteza. Eu não sei se a Dada está viva. Eu não sei quem vai segurar a barra da minha coroa agora que o mundo desabou.
— Ela não pode ter morrido... não, não! — rosnei, socando o chão de concreto com a última força que me restava. O impacto doeu nos meus nós dos dedos, mas a dor interna era mil vezes maior.
Os minutos ali dentro se tornam horas de uma agonia que arrasta o tempo como se fosse chumbo. Eu estava perdendo a cabeça quando escutei passos firmes no corredor. Não eram os passos arrastados dos guardas fazendo ronda; era algo diferente.
Me aproximei da porta de metal, encostando o ouvido na fresta fria, prendendo o fôlego.
— O chefe vai proteger ela — a voz veio grossa, baixa, vinda de algum lugar do outro lado do ferro. Não era voz de polícia. Era voz de quem manda nas galerias.
Meu coração deu um salto.
— Ela está viva? — perguntei, sem nem processar o perigo de responder para uma voz no escuro.
— Está.
O ar pareceu ficar mais leve nos meus pulmões por um segundo, mas logo o peso da realidade me esmagou de novo. Minha cabeça começou a girar, ligando os pontos. Eu tinha visto o "Limpador" saindo do banheiro minutos antes do alerta. Só podia ter sido ele. Ele matou os caras e a Dada estava lá. Lugar errado, hora errada.
Droga... a conta só aumentava. Se o "chefe" ia proteger ela, significava que ela tinha visto o que não devia e, de algum jeito, eles entraram num acordo. Minha irmã, que eu sempre tentei manter longe da sujeira do morro, agora estava devendo a vida para o topo da hierarquia do presídio.
— O que ele quer em troca? — sussurrei contra a porta, mas não houve resposta. Apenas o som dos passos se afastando no corredor vazio.
Eu estava ali, trancado, quebrado e algemado, sabendo que agora a "fatura" da nossa família não era mais apenas com o destino ou com a polícia corrupta. Agora, a Dada tinha um pacto com o próprio d***o para sair daquele banheiro viva.