Dos irmãos

931 Words
O dia inteiro passou arrastado. Piper m*l conseguiu prestar atenção nas coisas ao redor. Enquanto limpava mesas, anotava pedidos e ajudava na cozinha da pensão, sua cabeça permanecia presa na mesma pergunta. “O que eu tô fazendo?” Porque aquilo ainda parecia surreal. Ela não pertencia ao mundo daquelas pessoas. E quanto mais pensava nisso, mais vontade tinha de cancelar tudo. Mas então olhava para o pai. E perdia a coragem. Naquela tarde ele passou horas tentando conversar com fornecedores pelo telefone, implorando por mais prazo, tentando negociar dívidas que claramente já tinham saído do controle. Piper escutou parte da conversa escondida atrás da porta da cozinha. — Só mais algumas semanas… Silêncio. — Eu entendo… eu sei… Mais silêncio. Então o pai desligou lentamente. Ela viu quando ele abaixou a cabeça tentando esconder o desespero. Aquilo acabou com ela. Completamente. Às seis da tarde, uma mulher elegante apareceu na pensão carregando várias bolsas. Piper quase derrubou a bandeja que segurava. — Senhorita Piper? — Sim… — Senhora Hartwell pediu que eu viesse ajudá-la a se preparar para o jantar. O pai dela arregalou os olhos atrás do balcão. — Jantar? Piper travou. Por um segundo inteiro. Ela ainda não sabia como explicar aquilo. — É… uma entrevista de emprego. A mentira saiu rápida. Ela odiou mentir. Mas como explicaria a verdade? “Oi pai, uma milionária quer me casar com um dos filhos dela.” Parecia insanidade. O homem assentiu devagar, ainda confuso. — Ah… certo. A mulher elegante sorriu educadamente. — Podemos? Minutos depois Piper estava no pequeno quarto olhando, em choque, os vestidos espalhados sobre sua cama. Tudo parecia caro demais. Delicado demais. Bonito demais. — Meu Deus… — A senhora Hartwell tem ótimo gosto — comentou a mulher. Piper passou os dedos devagar por um vestido preto simples e sofisticado. Ela nunca tinha vestido algo daquele jeito. Nunca. Uma hora depois, quando se olhou no espelho, quase não se reconheceu. O vestido marcava delicadamente seu corpo magro sem exagero. Os cabelos loiros estavam soltos em ondas suaves e uma maquiagem leve destacava ainda mais seus olhos verdes. Ela parecia… Rica. Ou pelo menos tentava parecer. E aquilo dava medo. Muito medo. O som de um carro parando na frente da pensão fez seu coração acelerar. Era hora. Piper pegou a bolsa com mãos nervosas e desceu as escadas. O pai levantou os olhos imediatamente quando viu ela. E ficou em silêncio por alguns segundos. — Uau… Piper sorriu sem graça. — Tá muito estranho? — Não. Ele sorriu orgulhoso. — Você tá linda, filha. Aquilo aqueceu o coração dela. Mesmo no meio do caos. Ela abraçou ele forte antes de sair. — Vai dar tudo certo, pai. Ele beijou a testa dela. — Toma cuidado. Quando entrou no carro luxuoso, Piper sentiu o nervosismo aumentar ainda mais. Durante o caminho inteiro observou as luzes da cidade pela janela tentando controlar a ansiedade. Mas tudo piorou quando os portões enormes da mansão Hartwell apareceram diante dela. Meu Deus. O lugar parecia um palácio. Fontes iluminadas. Jardins gigantescos. Carros luxuosos estacionados na entrada. Piper sentiu vergonha instantânea da própria vida. O motorista abriu a porta para ela. As pernas dela quase falharam ao descer. Ela subiu os degraus enormes tentando não parecer assustada. A porta abriu antes mesmo que ela tocasse a campainha. Eleanor surgiu impecável como sempre. O sorriso dela aumentou imediatamente ao ver Piper. — Eu sabia. Piper piscou. — Sabia o quê? — Você é ainda mais linda arrumada. Ela ficou sem graça na mesma hora. — Obrigada… Eleanor segurou delicadamente o braço dela. — Venha. Meus filhos estão esperando. Aquilo fez o estômago dela despencar. Filhos. Certo. Os filhos. Enquanto caminhavam pelos corredores luxuosos da mansão, Piper sentia o próprio coração bater tão forte que parecia ecoar no ambiente inteiro. Ela nunca esteve num lugar assim. Tudo brilhava. Tudo parecia caro. Tudo parecia perfeito demais. Quando chegaram na sala principal, Eleanor sorriu discretamente antes de anunciar: — Meninos. Dois homens levantaram os olhos ao mesmo tempo. E Piper parou de respirar por um segundo. Porque os dois eram absurdamente bonitos. O primeiro que ela viu estava largado no sofá escuro, expressão fechada, camisa preta marcando o corpo musculoso, cabelos castanhos levemente bagunçados e um olhar intenso demais. Dean. Ela soube imediatamente. Ele tinha cara de problema. Cara de homem que destruía vidas sem esforço. E naquele instante os olhos dele percorreram Piper lentamente. Sem disfarçar. Sem vergonha. Aquilo fez o corpo dela inteiro arrepiar. Dean ficou em silêncio alguns segundos. Então soltou: — c*****o… Eleanor lançou um olhar mortal para o filho. — Linguagem. Mas Dean nem ouviu. Continuava olhando pra Piper daquele jeito intenso, quase provocador. Aquilo deixou ela nervosa instantaneamente. Então o outro irmão levantou. Sam. E diferente de Dean, o sorriso dele foi suave. Calmo. Bonito. Ele usava roupas sociais mesmo dentro de casa, os cabelos pretos perfeitamente alinhados e os olhos gentis contrastavam completamente com a energia agressiva do irmão. — Prazer, Piper. A voz dele era tranquila. Confortável. Ele segurou a mão dela delicadamente. — Eu sou Sam. Piper tentou sorrir. — Prazer… Mas naquele instante… Dean levantou do sofá. E a presença dele dominou completamente a sala. Alto. Muito alto. Perigoso. Os olhos castanhos continuavam presos nela sem o menor cuidado. — Então você é a garota que minha mãe quer enfiar na família. A forma direta dele deixou Piper completamente sem reação. Eleanor suspirou irritada. — Dean. Mas ele ignorou. Continuou encarando Piper intensamente. Então deu um sorriso torto. Lindo. Arrogante. — Você realmente é um problema.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD