O restante do jantar continuou estranho para Piper.
Estranho porque, apesar de toda a elegância da mesa, da comida sofisticada e das conversas educadas de Eleanor e Sam… existia uma tensão constante vindo de Dean.
Ela sentia.
Mesmo quando não olhava pra ele.
Era como se os olhos dele permanecessem nela o tempo inteiro.
Aquilo deixava Piper nervosa demais.
Toda vez que tentava prestar atenção em alguma conversa, acabava percebendo Dean observando ela por cima da taça de whisky.
Como se estivesse analisando cada reação dela.
Cada movimento.
Cada respiração.
E pior…
Ela estava começando a reparar nele também.
No jeito relaxado e arrogante dele sentado na cadeira.
Nos braços fortes marcados pela camisa preta.
Na voz rouca.
No sorriso perigoso.
Dean parecia exatamente o tipo de homem que uma garota sensata deveria evitar.
O problema era que Piper não conseguia parar de olhar.
— Então, Piper — Sam chamou calmamente — você pretende trabalhar com administração da própria pensão depois da faculdade?
Ela desviou rapidamente os pensamentos.
— Ah… eu queria.
A voz dela ficou mais baixa no final.
Sam percebeu.
— Queria?
Piper hesitou por um instante.
Mas então respirou fundo.
— Acho que não vai existir mais pensão.
O silêncio caiu na mesa.
Até Dean parou de brincar com a taça.
Eleanor observou Piper atentamente.
— As dívidas estão tão ruins assim?
Piper assentiu devagar.
— Meu pai tá tentando salvar o restaurante faz meses… mas agora acho que acabou.
Falar aquilo em voz alta doeu.
Muito.
Ela apertou os dedos no colo tentando manter a compostura.
— Ele trabalhou a vida inteira naquele lugar.
Sam ficou visivelmente mais sério.
— Sinto muito.
Dean continuava quieto.
Mas os olhos dele mudaram.
A provocação diminuiu um pouco.
Como se estivesse realmente ouvindo ela agora.
Piper tentou sorrir fraco.
— Desculpa… eu não queria trazer clima pesado.
— Não peça desculpas por isso — Eleanor respondeu imediatamente.
A mulher apoiou os braços na mesa.
— Você está fazendo isso pela sua família. Isso já me mostra muito sobre você.
Dean soltou um pequeno suspiro nasal.
— Então é por isso que você aceitou vir aqui.
Piper olhou pra ele imediatamente.
O tom dele não parecia julgamento.
Parecia curiosidade.
Ela ficou alguns segundos em silêncio antes de responder:
— Eu nem sei se aceitei ainda.
Dean inclinou levemente a cabeça.
— Mas pensou.
Aquilo atingiu ela direto.
Porque sim.
Ela pensou.
Mais do que queria admitir.
Piper desviou os olhos sem responder.
Dean sorriu discretamente.
Como se tivesse entendido tudo.
Sam percebeu a troca de olhares entre os dois e imediatamente mudou de assunto.
— Você gosta da faculdade?
Piper agradeceu mentalmente pela mudança.
— Gosto. Sempre gostei de estudar.
— Qual matéria prefere?
— Gestão financeira.
Sam sorriu.
— Sério?
— Sim.
— Finalmente alguém interessante nessa casa.
Dean riu fraco.
— Ah claro. Agora vocês dois vão começar papo de nerd.
Sam ignorou.
— Você tem planos depois da faculdade?
Piper ficou quieta por um instante.
Ela tinha.
Ou pelo menos tinha antes das dívidas destruírem tudo.
— Eu queria crescer junto com meu pai… ajudar ele a transformar a pensão em algo maior.
A voz dela saiu cheia de carinho.
Dean observou aquilo em silêncio.
E pela primeira vez desde o começo da noite, alguma coisa dentro dele pareceu mexer.
Porque Piper falava daquele lugar humilde com amor verdadeiro.
Não parecia interesseira.
Não parecia falsa.
E Dean conhecia mulheres falsas muito bem.
Boa parte delas passava pela cama dele.
Mas Piper…
Piper parecia real.
E isso deixava ela ainda mais perigosa.
Eleanor levantou delicadamente a taça.
— Acho que fiz a escolha certa trazendo você aqui.
Piper sorriu sem jeito.
— Ainda parece loucura pra mim.
— Vai parecer menos com o tempo.
Dean soltou uma pequena risada baixa.
— Ou mais.
Eleanor lançou um olhar irritado.
— Você não ajuda em nada.
— Só tô sendo sincero.
Então ele olhou diretamente pra Piper outra vez.
E o sorriso dele diminuiu devagar.
Ficando mais intenso.
Mais sério.
— Você realmente tá pensando em entrar nessa família?
O coração dela acelerou imediatamente.
A pergunta parecia simples.
Mas o jeito que Dean olhava pra ela…
Não era simples.
Piper engoliu seco.
— Eu tô pensando em salvar meu pai.
Os olhos dele permaneceram presos nos dela por alguns segundos.
Longos segundos.
Então Dean apoiou os braços na mesa e sorriu de lado novamente.
— Isso explica porque você ainda tá aqui.
Sam franziu levemente a testa.
— Dean…
Mas ele levantou calmamente da cadeira.
— Relaxa. Eu gostei dela.
Piper observou ele pegar a taça de whisky e caminhar lentamente até a varanda enorme da sala de jantar.
E mesmo de costas…
A presença dele continuava dominando tudo.
Ela odiava admitir.
Mas Dean deixava ela nervosa de um jeito que Sam não deixava.
Sam era confortável.
Seguro.
Fácil de conversar.
Dean era o contrário.
Intenso.
Imprevisível.
O tipo de homem que parecia trazer problema junto com ele.
E talvez por isso…
Ela não conseguia parar de pensar nele.