Capítulo 23 — O Caminho para o Rio

857 Words
O amanhecer nas montanhas era frio e silencioso. Uma névoa leve cobria o chão da floresta, e o ar estava carregado com o cheiro de terra úmida e folhas caídas. O sol ainda lutava para atravessar as nuvens, criando feixes de luz dourada entre as árvores altas. Góvia já estava acordada. Ela havia dormido pouco naquela noite. A mensagem que aparecera diante de seus olhos não saía de sua mente. Aquela planta… Ela precisava encontrá-la. Se realmente ajudasse a reduzir as toxinas em seu corpo, cada pequena melhoria poderia significar sobrevivência. Ou algo ainda melhor. Ela se levantou devagar dentro da caverna. Dargan ainda estava dormindo perto da entrada, encostado na parede de pedra. Mesmo dormindo, seu corpo parecia alerta, como o de um predador descansando entre caçadas. Góvia pegou silenciosamente algumas coisas que havia preparado. Um pequeno saco de couro. Sua faca simples de coleta. Um cesto improvisado feito com galhos. E um pedaço de carne seca. Antes de sair, ela olhou brevemente para Dargan. Ele não abriu os olhos, mas falou em voz baixa: — Vai para a floresta. Góvia cruzou os braços. — Você está dormindo ou espionando? Dargan abriu um dos olhos. — O cheiro da sua carne seca me acordou. Ela bufou. — Vou voltar antes do sol se pôr. Dargan fechou o olho novamente. — Tente não morrer. Góvia saiu da caverna sem responder. O ar da manhã era frio contra sua pele áspera, mas ela já estava acostumada com isso. A trilha que descia em direção à floresta era estreita e cheia de pedras. Cada passo precisava ser cuidadoso. Enquanto caminhava, seus olhos analisavam tudo ao redor. Plantas. Cipós. Flores. Ela reconhecia muitas delas. Algumas eram medicinais. Outras eram venenosas. Seu conhecimento antigo continuava sendo uma de suas maiores armas naquele novo mundo. O caminho ficou mais denso à medida que ela entrava na floresta. As árvores eram mais altas ali. Suas copas bloqueavam parte da luz do sol, deixando o ambiente fresco e sombreado. Góvia caminhou por quase uma hora. Até que finalmente ouviu o som que estava procurando. Água. Um rio. Ela acelerou um pouco o passo. Quando afastou alguns arbustos mais grossos… O rio apareceu diante dela. A água era cristalina, correndo entre grandes pedras lisas. Pequenas flores cresciam nas margens, e alguns pássaros coloridos voavam entre os galhos próximos. Era um lugar bonito. Muito mais tranquilo do que o resto das montanhas. Góvia começou imediatamente a observar o chão ao redor do rio. Ela procurava por algo específico. Folhas pequenas. Levemente prateadas. Com bordas serrilhadas. Alguns minutos se passaram. Então seus olhos finalmente encontraram. Ali. Entre duas pedras úmidas perto da margem. Uma pequena planta brilhava sob a luz do sol. Suas folhas prateadas refletiam a luz de forma quase mágica. Góvia se ajoelhou lentamente. — Finalmente… Ela estendeu a mão com cuidado. Mas antes que pudesse tocar na planta… Um rosnado profundo ecoou atrás dela. O som era baixo. Mas cheio de ameaça. Góvia congelou. Lentamente virou a cabeça. E seu coração bateu mais forte. Entre as sombras da floresta, um enorme lobo estava observando. Mas aquele não era um lobo comum. Seu corpo era grande demais. Seus olhos brilhavam com uma luz estranha. E seus dentes pareciam capazes de rasgar carne com facilidade. Góvia soltou um pequeno suspiro. — Claro… — Nada nesse mundo é simples. O lobo avançou um passo. Ela não se mexeu. Se corresse, ele a alcançaria. Se lutasse… provavelmente morreria. Então ficou parada. Pensando. Procurando qualquer saída. A brisa da floresta passou entre as árvores. E por um momento… Um uivo distante ecoou pela mata. O grande lobo levantou a cabeça imediatamente. Seus ouvidos se moveram. Algo estava se aproximando. Muito rápido. Entre as árvores… Uma sombra prateada apareceu. E Góvia já sabia quem era. Kael. O lobo prateado saiu da floresta com passos firmes. Seus olhos azuis brilhavam. E o guardião do rio imediatamente ficou alerta. Por alguns segundos… Os dois lobos apenas se encararam. O ar parecia tenso. Mas então Kael soltou um rosnado baixo e dominante. O grande lobo hesitou. Recuou um passo. Depois outro. E lentamente desapareceu entre as árvores. O silêncio voltou à floresta. Kael caminhou até a margem do rio. Seu corpo se transformou novamente em humano. Ele olhou para Góvia. E então para a planta prateada. Um sorriso apareceu em seu rosto. — Você realmente tem talento para encontrar problemas. Góvia suspirou. — Eu estava quase resolvendo. Kael riu. — Claro que estava. Ele apontou para a planta. — Vai pegar ou vai continuar discutindo? Góvia arrancou rapidamente várias folhas da planta prateada. No momento em que as colocou dentro do cesto… Ela sentiu algo estranho. Um calor suave percorreu seu corpo. Como se algo dentro dela estivesse lentamente começando a se curar. Ela respirou fundo. Kael observava tudo com curiosidade. — Interessante… Góvia fechou o cesto. Depois olhou para ele. — Obrigada. Kael piscou surpreso. — Isso foi um agradecimento? Góvia começou a caminhar de volta para a trilha. — Hoje você foi útil. Kael começou a rir. E caminhou atrás dela. — Definitivamente… — Eu gosto muito mais da nova Góvia.
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