Capítulo 14 — O Observador Entre as Árvores

544 Words
O sol da tarde iluminava as encostas das montanhas quando o cheiro da comida começou a se espalhar pelo ar. Diante da caverna, o novo fogão de pedra ainda estava quente. A lenha queimava lentamente, produzindo uma chama forte e estável. Clara — agora no corpo da ogra Góvia — estava concentrada em seu trabalho. Ela esmagava algumas folhas aromáticas sobre uma pedra lisa, transformando-as em uma pasta verde escura. Ao lado dela, pedaços do grande bisão estavam organizados em diferentes partes. Alguns para assar. Outros para cozinhar lentamente. Dargan estava sentado em uma rocha próxima, limpando sua faca de caça. De vez em quando, seus olhos dourados observavam os movimentos dela. Ainda era estranho ver Góvia trabalhando daquele jeito. A antiga ogra nunca fazia nada. Ela apenas gritava, reclamava ou exigia coisas. Mas aquela… Era diferente. Clara esfregou a pasta de ervas sobre um pedaço de carne. Dargan franziu o nariz. — Esse cheiro é diferente. Ela respondeu sem olhar para ele. — São ervas. — Para quê? — Para melhorar o sabor da comida. Ele cruzou os braços. — As ogres desta tribo sempre comeram carne crua. Clara colocou a carne sobre o fogo. — Talvez esteja na hora de parar de comer como animais. Dargan soltou uma pequena risada baixa. Mas naquele momento… Eles não estavam sozinhos. A alguns metros dali, escondido entre as copas altas das árvores da floresta, alguém observava tudo em silêncio. Sentado sobre um galho grosso estava um homem de aparência relaxada. Seus cabelos prateados se moviam levemente com o vento. Os olhos azul-elétrico brilhavam com curiosidade. Kael. O Lobo da Tempestade. Ele havia sentido o cheiro da comida ainda do outro lado da floresta. No começo pensou que fosse algum viajante humano. Mas quando percebeu de onde vinha… Ficou intrigado. Agora ele observava atentamente a cena. Seus olhos se moveram lentamente entre os dois. Primeiro Dargan. Depois Góvia. Ele apoiou o queixo na mão. — Isso é… inesperado. Kael conhecia muito bem a ogra. Todos na tribo conheciam. Ela era barulhenta. Malcheirosa. E completamente impossível de conviver. Mas aquela que ele via agora… Estava calma. Organizada. Trabalhando. Ele inclinou levemente a cabeça. — Ela nem tentou agarrar Dargan… Isso por si só já era estranho. Muito estranho. Kael continuou observando enquanto o cheiro da carne assando se espalhava ainda mais. Seu nariz se contraiu levemente. — Hm… Ele respirou fundo outra vez. — Isso realmente cheira bem. Lá embaixo, Clara virou um pedaço da carne sobre o fogo. O suco escorreu sobre as brasas, fazendo pequenas faíscas subirem no ar. O aroma ficou ainda mais forte. Dargan observava tudo com atenção. Era impossível negar. Aquilo parecia delicioso. No alto da árvore, Kael sorriu. — Talvez eu devesse descer… Mas então ele decidiu esperar. Provocar de surpresa seria muito mais divertido. Com um movimento ágil e silencioso, ele saltou para outro galho. Nenhum som. Nenhum movimento nas folhas. Seu corpo era rápido como o vento. Antes de desaparecer entre as árvores, ele lançou um último olhar para a caverna. — Vamos ver até onde essa nova Góvia consegue ir… E com isso, o Lobo da Tempestade desapareceu na floresta. Mas uma coisa era certa. Ele voltaria. E quando Kael decidia brincar com alguém… Sempre acabava em confusão.
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