O sol já estava alto quando o trabalho começou.
A montanha, que antes parecia silenciosa e vazia, agora estava cheia de movimento.
Kael estava cavando o pequeno canal que levaria a água da cachoeira até o lugar onde Góvia queria construir a pia.
— Eu ainda não acredito nisso… — resmungou ele enquanto enfiava a lâmina na terra.
— Um comandante respeitado da tribo… cavando um buraco.
Dargan passou carregando duas pedras enormes nos ombros.
— Pare de reclamar.
— Você não é o único que está trabalhando.
Kael bufou.
— Você gosta de carregar peso.
Dargan deu de ombros.
— Faz parte do treino.
Perto dali, Rhogar empurrava uma pedra gigantesca para o lugar onde seria a base da pia.
O som da rocha raspando na terra ecoava pela montanha.
Góvia observava tudo com os braços cruzados.
Ela analisava cada detalhe.
— Não.
— Essa pedra precisa ficar mais para a esquerda.
Rhogar empurrou a rocha mais alguns centímetros sem reclamar.
Kael olhou para aquilo com incredulidade.
— Eu não acredito.
— O grande Rhogar, General das Legiões de Pedra, obedecendo ordens de cozinha.
Rhogar respondeu calmamente:
— A ideia é eficiente.
Dargan largou as pedras perto da cachoeira.
Ele limpou as mãos.
— Além disso…
— Eu prefiro isso do que ouvir ela reclamar o dia inteiro.
Góvia levantou uma sobrancelha.
— Quer comer cru então?
Dargan imediatamente ficou quieto.
Kael começou a rir.
Depois de alguns minutos de trabalho, Góvia se aproximou da fogueira e colocou água para aquecer.
— Já que estamos falando de trabalho…
Ela olhou para os três.
— Eu quero saber uma coisa.
Rhogar respondeu primeiro.
— O quê?
— Como vocês ganham dinheiro.
Kael se endireitou um pouco.
— Isso é fácil.
Ele apontou para si mesmo.
— Eu sou Major da Guarda das Fronteiras da Tribo.
— Eu patrulho as montanhas e protejo as rotas comerciais.
Dargan falou em seguida.
— Eu sou Capitão dos Caçadores da Tribo.
— Minha função é liderar as expedições de caça e trazer alimento para os guerreiros.
Rhogar terminou:
— Eu comando o exército principal.
— Sou General das Legiões de Pedra.
O silêncio caiu por um momento.
Góvia piscou.
— Então vocês são ricos.
Kael riu.
— Bastante.
Dargan cruzou os braços.
— Ou éramos…
Kael apontou para Góvia.
— Até alguém gastar tudo em jogos.
Góvia suspirou.
— Aquilo foi a antiga dona deste corpo.
Rhogar observava ela em silêncio.
Depois falou:
— E agora?
Góvia abriu um pequeno sorriso.
— Agora vamos investir.
Kael levantou uma sobrancelha.
— Investir?
Ela apontou para o horizonte.
— Terra fértil.
— Trigo.
— Pão.
Depois apontou para a panela.
— E comida melhor que carne crua.
Dargan parecia pensativo.
— Isso pode ser útil para os guerreiros.
Rhogar concordou.
— Exércitos marcham melhor quando comem bem.
Kael cruzou os braços.
— Então agora nossa ogra virou estrategista econômica.
Góvia respondeu calmamente:
— Eu só estou cansada de viver m*l.
Nesse momento…
A água da cachoeira finalmente começou a correr pelo pequeno canal que Kael havia cavado.
Ela escorreu pela pedra grande que Rhogar posicionou…
E caiu diretamente na pedra plana.
Formando uma pequena pia natural de pedra.
Góvia olhou para aquilo.
E pela primeira vez…
Ela sorriu de verdade.
— Muito melhor.
Kael apoiou a pá no ombro.
— Ótimo.
— Agora qual é o próximo projeto da chefe?
Góvia respondeu sem hesitar:
— Amanhã vocês vão para a cidade.
Dargan suspirou.
— Eu odeio cidade.
Góvia cruzou os braços.
— Então aprenda a gostar.
— Porque vamos comprar sementes de trigo.
Rhogar olhou para o horizonte distante.
Pensativo.
Porque ele sabia…
Que aquela simples viagem à cidade
poderia trazer muito mais problemas
do que qualquer um deles imaginava.