O amanhecer surgiu calmo sobre a montanha. A névoa ainda cobria parte da floresta, e o som da cachoeira ecoava suave ao fundo.
Dentro da caverna, Góvia já estava acordada.
Ela organizava alguns sacos com ervas e olhava para os grãos de trigo que haviam colhido da terra fértil dias antes.
Ela segurou alguns grãos na mão e pensou em voz alta:
— O trigo é muito útil…
Kael, que estava sentado perto da entrada da caverna afiando uma faca, levantou os olhos.
— Útil como?
Góvia começou a contar nos dedos.
— Dá para fazer pães, bolos, massas como macarrão e lasanha, biscoitos, pizzas, tortas e até salgados como coxinhas e empadas.
Kael arregalou os olhos.
— Tudo isso… de um grão?
— Sim.
Ela sorriu de leve.
— Mas ainda faltam alguns ingredientes.
Kael cruzou os braços.
— O que você quer procurar agora?
Góvia respondeu sem hesitar:
— Babosa, coco, alecrim… e também cacau.
Kael levantou uma sobrancelha.
— Para quê?
Góvia explicou enquanto pegava uma pequena bolsa de coleta.
— A babosa vai ajudar a fazer um creme para o cabelo.
— O coco dá para extrair óleo.
— O alecrim serve para temperar comida e também para fazer óleo capilar.
Ela então sorriu, animada.
— E o cacau serve para fazer chocolate.
Kael piscou.
— Chocolate?
— Sim. Quero fazer cobertura de chocolate para colocar em um bolo.
Ela suspirou.
— Ainda faltam ovos, leite e gordura para o bolo… mas quando conseguirmos, quero fazer algo especial.
Kael se levantou.
— Então vamos procurar.
Os dois caminharam pela trilha que levava até a floresta.
O ar ali era fresco, e as árvores eram antigas e altas.
Góvia observava cada planta com atenção.
De repente ela se abaixou.
— Aqui está.
Ela cortou algumas folhas grossas e verdes.
— Babosa.
Kael observou curioso.
— Isso realmente faz crescer cabelo?
— Ajuda muito.
Eles caminharam mais um pouco até encontrar algumas palmeiras.
Kael derrubou alguns cocos com facilidade.
Góvia examinou os frutos.
— Com isso vou fazer óleo de coco.
Ela já imaginava a mistura.
— Óleo de coco, babosa e alecrim… vai virar um ótimo creme para cabelo.
Mais adiante, ela encontrou um pequeno arbusto aromático.
Ela esmagou algumas folhas entre os dedos e sentiu o cheiro.
— Alecrim.
— Isso vai melhorar muito as comidas.
Mas ainda faltava algo.
— Agora precisamos achar cacau.
Eles continuaram caminhando mais fundo na floresta.
Foi então que o ambiente mudou.
As plantas ao redor começaram a se mover suavemente.
Pequenos galhos se inclinaram.
Como se a própria floresta estivesse reagindo a alguém.
Kael parou imediatamente.
— Ele está aqui.
Um homem saiu de trás das árvores.
Alto.
Muito elegante.
Seus cabelos longos verde-escuro caíam pelas costas como folhas de uma árvore antiga.
Seus olhos verdes brilhavam intensamente.
Era Sylven.
O quarto marido de Góvia.
A Raposa Espiritual da Floresta.
Sylven se movia com uma leveza sobrenatural. As plantas ao redor dele pareciam responder à sua presença.
Ele possuía uma forma de b***a impressionante:
uma raposa gigante de nove caudas feita de energia da floresta.
Kael cruzou os braços.
— Faz tempo que você não aparece.
Sylven não respondeu.
Seu olhar estava fixo em Góvia.
Durante muito tempo ele evitou se aproximar dela.
O cheiro que vinha do corpo de Góvia sempre foi insuportável.
Pesado.
Cheio de toxinas.
Mas agora…
Sylven deu alguns passos mais perto.
E franziu a testa.
— Estranho…
Góvia cruzou os braços.
— O que foi?
Sylven tinha uma habilidade muito especial: sentir venenos e toxinas.
Ele analisou o ar ao redor dela.
Depois deu mais um passo.
As folhas próximas se moveram suavemente.
— Ainda há veneno em você — disse ele calmamente.
Kael franziu a testa.
— Veneno?
Sylven continuou observando Góvia com atenção.
— Mas está diminuindo.
Góvia ficou em silêncio.
Sylven então falou algo que mudou tudo.
— Esse veneno… não é natural.
O vento passou entre as árvores.
As folhas sussurraram.
Sylven olhou diretamente para ela.
— Alguém colocou esse veneno no seu corpo.
O coração de Góvia bateu mais forte.
Era a primeira vez que alguém percebia isso.
Sylven cruzou os braços, pensativo.
Ele sempre foi o mais inteligente e perceptivo entre os maridos.
E agora algo havia despertado sua curiosidade.
Talvez…
A verdade sobre Góvia fosse muito mais profunda do que todos imaginavam.
E pela primeira vez, a Raposa Espiritual da Floresta decidiu observá-la de perto.
Algo naquela ogra estava mudando.
E Sylven queria descobrir por quê. 🦊🌿