Capítulo 46 — A Raposa da Floresta e os Sabores do Futuro

750 Words
O amanhecer surgiu calmo sobre a montanha. A névoa ainda cobria parte da floresta, e o som da cachoeira ecoava suave ao fundo. Dentro da caverna, Góvia já estava acordada. Ela organizava alguns sacos com ervas e olhava para os grãos de trigo que haviam colhido da terra fértil dias antes. Ela segurou alguns grãos na mão e pensou em voz alta: — O trigo é muito útil… Kael, que estava sentado perto da entrada da caverna afiando uma faca, levantou os olhos. — Útil como? Góvia começou a contar nos dedos. — Dá para fazer pães, bolos, massas como macarrão e lasanha, biscoitos, pizzas, tortas e até salgados como coxinhas e empadas. Kael arregalou os olhos. — Tudo isso… de um grão? — Sim. Ela sorriu de leve. — Mas ainda faltam alguns ingredientes. Kael cruzou os braços. — O que você quer procurar agora? Góvia respondeu sem hesitar: — Babosa, coco, alecrim… e também cacau. Kael levantou uma sobrancelha. — Para quê? Góvia explicou enquanto pegava uma pequena bolsa de coleta. — A babosa vai ajudar a fazer um creme para o cabelo. — O coco dá para extrair óleo. — O alecrim serve para temperar comida e também para fazer óleo capilar. Ela então sorriu, animada. — E o cacau serve para fazer chocolate. Kael piscou. — Chocolate? — Sim. Quero fazer cobertura de chocolate para colocar em um bolo. Ela suspirou. — Ainda faltam ovos, leite e gordura para o bolo… mas quando conseguirmos, quero fazer algo especial. Kael se levantou. — Então vamos procurar. Os dois caminharam pela trilha que levava até a floresta. O ar ali era fresco, e as árvores eram antigas e altas. Góvia observava cada planta com atenção. De repente ela se abaixou. — Aqui está. Ela cortou algumas folhas grossas e verdes. — Babosa. Kael observou curioso. — Isso realmente faz crescer cabelo? — Ajuda muito. Eles caminharam mais um pouco até encontrar algumas palmeiras. Kael derrubou alguns cocos com facilidade. Góvia examinou os frutos. — Com isso vou fazer óleo de coco. Ela já imaginava a mistura. — Óleo de coco, babosa e alecrim… vai virar um ótimo creme para cabelo. Mais adiante, ela encontrou um pequeno arbusto aromático. Ela esmagou algumas folhas entre os dedos e sentiu o cheiro. — Alecrim. — Isso vai melhorar muito as comidas. Mas ainda faltava algo. — Agora precisamos achar cacau. Eles continuaram caminhando mais fundo na floresta. Foi então que o ambiente mudou. As plantas ao redor começaram a se mover suavemente. Pequenos galhos se inclinaram. Como se a própria floresta estivesse reagindo a alguém. Kael parou imediatamente. — Ele está aqui. Um homem saiu de trás das árvores. Alto. Muito elegante. Seus cabelos longos verde-escuro caíam pelas costas como folhas de uma árvore antiga. Seus olhos verdes brilhavam intensamente. Era Sylven. O quarto marido de Góvia. A Raposa Espiritual da Floresta. Sylven se movia com uma leveza sobrenatural. As plantas ao redor dele pareciam responder à sua presença. Ele possuía uma forma de b***a impressionante: uma raposa gigante de nove caudas feita de energia da floresta. Kael cruzou os braços. — Faz tempo que você não aparece. Sylven não respondeu. Seu olhar estava fixo em Góvia. Durante muito tempo ele evitou se aproximar dela. O cheiro que vinha do corpo de Góvia sempre foi insuportável. Pesado. Cheio de toxinas. Mas agora… Sylven deu alguns passos mais perto. E franziu a testa. — Estranho… Góvia cruzou os braços. — O que foi? Sylven tinha uma habilidade muito especial: sentir venenos e toxinas. Ele analisou o ar ao redor dela. Depois deu mais um passo. As folhas próximas se moveram suavemente. — Ainda há veneno em você — disse ele calmamente. Kael franziu a testa. — Veneno? Sylven continuou observando Góvia com atenção. — Mas está diminuindo. Góvia ficou em silêncio. Sylven então falou algo que mudou tudo. — Esse veneno… não é natural. O vento passou entre as árvores. As folhas sussurraram. Sylven olhou diretamente para ela. — Alguém colocou esse veneno no seu corpo. O coração de Góvia bateu mais forte. Era a primeira vez que alguém percebia isso. Sylven cruzou os braços, pensativo. Ele sempre foi o mais inteligente e perceptivo entre os maridos. E agora algo havia despertado sua curiosidade. Talvez… A verdade sobre Góvia fosse muito mais profunda do que todos imaginavam. E pela primeira vez, a Raposa Espiritual da Floresta decidiu observá-la de perto. Algo naquela ogra estava mudando. E Sylven queria descobrir por quê. 🦊🌿
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