A máscara cai

1190 Words
📖 Entre Espinhos e Veneno Capítulo 11 — A Máscara Cai Os olhos de Isabela estavam presos ao homem que permanecia no centro daquela grande sala vazia e fria, rodeado de gente armada. O coração batia‑lhe descompassado, quase a doer‑lhe no peito. Não. Aquilo não podia ser verdade. Não fazia sentido. Durante anos e anos, acreditara firmemente que ele tinha desaparecido para sempre, que se perdera no mundo ou que a morte o tinha levado muito cedo — como todos diziam e como todos aceitaram. Ao seu lado, escondido também nas sombras da entrada, Mateus mantinha‑se imóvel, rígido, os seus olhos claros estreitados e atentos, cheios de uma confusão e dor que raramente deixava aparecer. — Isabela… — sussurrou ele muito baixo, quase só para si mesmo, com voz pesada e abalada. — É realmente ele? Mas já era tarde demais para perguntas ou para esperar. Ela já tinha tomado a sua decisão, sem pensar duas vezes, guiada por uma mistura de raiva, saudade e necessidade de respostas. — Eu vou acabar com isto aqui e agora — disse ela, firme e decidida, antes de ele poder sequer estender a mão para a segurar ou impedir. Deu um passo em frente, saindo da escuridão onde estavam escondidos. Caminhou devagar, cambaleando de propósito, com a cabeça baixa e o ar de quem não faz ideia de onde está. — Desculpem… será que alguém me pode ajudar? — perguntou com voz suave, doce e aparentemente perdida, olhando para todos como se estivesse assustada e inocente. Vários homens dos Corvos Vermelhos viraram‑se de repente na sua direção, surpreendidos e desconfiados. — Olha lá… quem é ela? Como entrou aqui? — perguntou um deles, pondo a mão na a**a que trazia à cintura. Ela continuou a aproximar‑se devagar, mantendo a aparência de quem m*l consegue andar direito, olhando sempre para o homem que estava no meio de todos — o líder misterioso que procuravam há tanto tempo. — Acho que me perdi completamente… não faço ideia onde estou — murmurou ela, cada vez mais perto dele. Por um breve instante, todos baixaram a guarda, confusos e sem saber o que fazer ou pensar. E esse foi o maior erro que alguma vez cometeram. Num abrir e fechar de olhos, a expressão de Isabela mudou por completo. O ar de inocência desapareceu de vez, dando lugar a algo frio, duro, calculista e extremamente perigoso. Com um movimento rápido e certeiro, tirou uma a**a pequena e leve escondida na roupa e disparou diretamente para as lâmpadas fortes penduradas no teto alto. Vidros partiram‑se. A luz desapareceu de golpe. O enorme armazém mergulhou na escuridão e no caos absoluto. — É uma armadilha! Emboscada! — gritou alguém no meio da confusão geral. No mesmo instante, Mateus saiu das sombras onde estava, abanando a cabeça com um meio‑sorriso misto de irritação e admiração. — Claro que ela tinha de mudar tudo e estragar o plano que tínhamos pensado com calma… — resmungou baixinho para si mesmo, antes de avançar rápido e entrar na luta. O espaço transformou‑se de imediato numa confusão cheia de gritos, passos rápidos, armas a baterem umas nas outras e ordens que ninguém ouvia. Mas mesmo ali, no meio de tudo aquilo, os dois moviam‑se como se houvesse uma ligação invisível a guiá‑los. Isabela desviava‑se de golpes, derrubava homens com movimentos curtos e treinados, rápida como o vento. Mateus avançava com calma e força, afastando quem se punha no seu caminho, protegendo‑a sem que ela precisasse de pedir. Trabalhavam em perfeita sintonia, como se os seus corpos ainda se lembrassem de cada passo, cada gesto, cada movimento um do outro — tal como faziam quando eram crianças e lutavam lado a lado, antes de tudo mudar. Sem precisar de falar, sem dar ordens, apenas sabiam onde o outro precisava de ajuda. Um homem grande e forte aproximou‑se de Isabela pelas costas, pronto a agarrá‑la enquanto ela estava ocupada com outro. Antes que ela sequer percebesse o perigo, Mateus apareceu ali de repente, afastou o atacante com um empurrão forte e rápido e deixou‑o caído no chão. — Continuas a distrair‑te com os teus pensamentos, não aprendes nunca — comentou ele, com voz calma, como se estivessem apenas a conversar numa rua vazia. — E tu continuas a ser extremamente irritante e intrometido — respondeu ela de imediato, sem parar de se mover ou lutar. — Nada de novo. — Fico muito feliz por ver que afinal nada mudou verdadeiramente entre nós — disse ele, com um sorriso leve nos lábios. — Cala‑te e continua a lutar, antes que algum deles nos acerte — mandou ela, mas quase sem zanga na voz. Alguns dos inimigos começaram a fugir pela porta das traseiras, assustados e derrotados. Outros tentavam reunir‑se de novo para contra‑atacar. Mas o homem importante, o que estava no centro de tudo, o líder deles… já não estava lá onde tinha estado. Desaparecera sem deixar rasto no meio da confusão. — Ele está a fugir! Vai pela saída de cima! — gritou Isabela assim que percebeu a falta dele. Os dois correram logo atrás dele, lado a lado, atravessando corredores estreitos e sujos, subindo escadas de ferro enferrujado, passando por lugares abandonados e esquecidos. Até que chegaram finalmente à cobertura plana e alta do edifício, sob o céu escuro e agitado. Ele estava ali, parado perto da beirada, de costas para eles, de pé firme apesar do vento forte que começava a soprar. A chuva grossa e fria caiu de repente, molhando tudo e todos. Devagar, muito devagar, ele virou‑se para os dois. E nesse instante, um relâmpago brilhante cortou o céu n***o, iluminando o seu rosto inteiro. Isabela e Mateus pararam de golpe, sem conseguir dar mais um passo, sem conseguir respirar direito. O choque foi tão forte que quase os derrubou. Conheciam aquele rosto melhor do que o de quase qualquer outra pessoa. Era alguém que fizeram parte da sua vida há muito, muito tempo — alguém que todos julgavam morto, perdido para sempre, enterrado numa história antiga. — Vocês cresceram mesmo muito… tornaram‑se pessoas importantes, poderosas, temidas por toda a cidade — disse o homem com voz calma, serena e cheia de coisas por dizer. Isabela apertou os punhos com tanta força que as unhas se cravavam na própria pele, os olhos cheios de lágrimas e raiva e confusão. — Tu… como é possível? Pensámos que tinhas morrido há anos… Mateus permanecia completamente imóvel, calado, abalado de uma forma que ninguém jamais vira nele. Porque ali, à sua frente, de pé, vivo e cheio de poder, estava Gabriel Duarte. O rapaz que, há mais de dez anos, tinha sido o melhor amigo de ambos — o terceiro elemento daquela amizade forte e inseparável que eles tinham, antes de as guerras, as escolhas e o destino os separarem a todos. O rapaz que choraram e recordaram como um irmão desaparecido. Continua…
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