📖 Entre Espinhos e Veneno
CapÃtulo 8 — Sob o Mesmo Teto
A trégua tinha começado naquela mesma noite, selada por necessidade e por nada mais. E nenhum dos dois parecia satisfeito com isso — ou, pelo menos, era o que repetiam a si próprios vezes sem conta, tentando convencer‑se de que continuavam a ser inimigos, que nada mais existia entre eles além de uma aliança temporária e fria.
Mas por mais que dissessem isso, por mais que tentassem manter as distâncias e as barreiras erguidas… o coração e a memória tinham as suas próprias regras.
O quartel‑general dos Espinhos de Aço estava muito mais movimentado e cheio de gente do que o habitual. Homens e mulheres cruzavam os corredores com passos rápidos e atentos, carregando papéis, mapas, computadores, armas e relatórios. No centro da sala maior e mais importante, uma mesa comprida de metal frio estava quase inteiramente coberta de documentos, desenhos e fotografias — tudo o que até agora tinham conseguido descobrir sobre os novos inimigos.
Isabela estava debruçada sobre uma dessas imagens, a analisar cada detalhe com uma atenção intensa, quando a porta pesada se abriu devagar.
De imediato, todo o ambiente ficou tenso e pesado. Muitos olhares viraram‑se para a entrada; dedos pousaram sobre coronhas de armas escondidas.
Entrou Mateus, acompanhado apenas por Rafael, o seu braço direito. Vestia, como quase sempre, roupas inteiramente pretas, de tecido fino e corte perfeito; caminhava devagar, calmo, com aquele ar de quem pertence a todo o lado, como se estivesse a entrar na sua própria casa e não no território da sua maior rival. Ignorou por completo todos os olhares desconfiados e todas as mãos prontas a atacar. Os seus olhos claros percorreram a sala e fixaram‑se logo numa única pessoa: ela.
— Estás atrasado — disse Isabela, sem levantar muito a voz mas com um tom cortante e frio, continuando a olhar para os papéis à sua frente.
— Apenas cinco minutos — respondeu ele calmamente.
— Oito, contados um a um — corrigiu ela, levantando finalmente o rosto para o encarar.
— Continuas a ser obcecada por regras, horários e controlo em tudo — observou ele, aproximando‑se devagar da mesa.
Ela cruzou os braços sobre o peito, mantendo‑se firme e desafiadora.
— E tu continuas a achar que o mundo inteiro gira à tua volta, que tudo e todos devem esperar por ti.
— Não o mundo inteiro, não — murmurou ele, baixando um pouco a voz de modo que só ela ouvisse. O seu olhar demorou‑se nela um segundo a mais do que seria seguro ou conveniente. — Apenas certas pessoas.
Isabela desviou o olhar de repente, sentindo o coração dar um salto contra a sua v*****e.
— Deixemo‑nos de conversas inúteis e vamos trabalhar no que realmente importa — ordenou ela, virando‑se de novo para os mapas.
Nas duas horas que se seguiram, estudaram tudo ao pormenor: linhas de transporte, rotas de mercadorias, locais de ataques, pontos fortes e fracos de cada lado da cidade. Trocaram informação que guardavam há anos só para si mesmos, e a cada descoberta nova, a preocupação crescia.
Os Corvos Vermelhos estavam a expandir‑se a uma velocidade impossÃvel para um g***o que aparecera do nada.
— Eles não conseguem fazer tudo isto só com o que roubam — disse Rafael, apontando para números numa folha. — Têm financiamento forte, vindo de fora da cidade, de alguém com muito dinheiro e poder.
Sofia acenou com a cabeça, muito séria.
— E mais do que isso… tenho quase a certeza absoluta que há alguém dentro das nossas próprias organizações a ajudá‑los, a dar‑lhe dicas, rotas, horários. Um traidor.
O silêncio caiu sobre a sala, pesado e desconfortável. A existência de um inimigo desconhecido já era má; a ideia de uma faca escondida bem perto de si era ainda pior.
Mateus aproximou‑se do grande mapa estendido no meio da mesa, apoiando‑se com uma mão na borda fria.
— Olhem bem para aqui. Todos os ataques seguem um padrão muito claro, desenhado com cuidado.
Isabela levantou‑se e foi até ao seu lado, sem dar conta do quanto se aproximou. Ficaram de pé, ombro a ombro, tão perto que sentiam o calor um do outro.
Ele apontou com o dedo longo e firme para três pontos diferentes marcados a vermelho.
— Aqui. Aqui. E aqui. Sempre em forma de meia‑lua.
Ela seguiu a linha com o olhar, compreendendo pouco a pouco. Franziu a testa.
— Estão a cercar o centro da cidade, o coração de tudo o que existe aqui. Querem fechar‑nos como animais numa armadilha.
— Exatamente — confirmou ele, virando‑se um pouco para ela. — E quando a armadilha fechar‑se, obrigam‑nos a recuar, a sair dos nossos territórios, a desistir de tudo o que construÃmos.
Ela ficou calada por instantes, olhando para o desenho no papel. Sabia que ele tinha toda a razão — como quase sempre tinha razão quando se tratava de estratégia, de ver o que os outros não viam. E isso, por mais que odiasse admitir, irritava‑a profundamente.
— Odeio quando tens razão em tudo — confessou ela baixinho, quase num sussurro de desgosto.
Mateus sorriu um pouco, um sorriso pequeno e triste.
— Eu sei. Sempre soube.
— Isso não foi um elogio, nem uma forma de te bajular — avisou ela, lançando‑lhe um olhar que poderia ter cortado aço.
— Também sei isso muito bem — respondeu ele, sem se incomodar minimamente.
Rafael e Sofia, afastados um pouco para o fundo da sala, trocaram um olhar discreto e um sorriso pequeno e compreensivo. Dez anos inteiros tinham passado desde que os seus caminhos se separaram… mas nada no fundo tinha mudado realmente. A mesma ligação, a mesma forma de falar, o mesmo modo de ver o mundo um através do outro.
Passaram‑se mais algumas horas até que a reunião finalmente chegou ao fim. A maior parte dos homens e mulheres já tinham saÃdo para dar ordens, vigiar caminhos, procurar pistas. Restavam apenas os quatro: Isabela, Mateus, Sofia e Rafael.
Sofia fechou uma pasta grossa de papéis, levantou‑se devagar e olhou para Rafael.
— Acho que vou verificar mais uns relatórios lá fora, ainda há muita coisa a organizar.
Ele acenou imediatamente, percebendo o que ela fazia.
— Sim, eu vou acompanhar‑te, podemos ir já.
SaÃram ambos depressa, quase a correr, fechando a porta com cuidado atrás de si — deixando‑os completamente sós. Era evidente que tinham combinado fazer aquilo.
Assim que o som da porta fechada ecoou, o silêncio tomou conta de novo, mas agora era um silêncio carregado de memórias e coisas não ditas.
Isabela soltou um suspiro longo, olhando para a madeira fechada.
— Fizeram isto de propósito, afastaram‑se para nos deixar sozinhos. Cobardes os dois.
Mateus apoiou‑se de costas na mesa, de braços cruzados, olhando para ela com calma.
— Sim. Concordo plenamente contigo.
Ela ergueu uma sobrancelha, olhando‑o com desconfiança e uma ponta de curiosidade.
— Estranho… hoje concordas comigo demasiadas vezes. Algo não está certo.
— Não é por concordar, é por estar preocupado — disse ele, mudando de tom de repente, ficando muito mais sério e baixo.
Ela virou‑se totalmente para ele, franzindo o sobrolho.
— Preocupado com o quê? Com os Corvos? Com a cidade? Com o que vamos fazer?
Os olhos claros dele encontraram os dela diretos e profundos, como se quisessem ver‑lhe a alma.
— Contigo.
Isabela soltou uma pequena risada seca, sem alegria, tentando disfarçar o quanto aquelas palavras a afetaram.
— Eu sei muito bem cuidar de mim própria, Mateus. Sempre soube, desde que éramos pequenos. Não preciso de ninguém para me proteger.
— Nunca disse que não sabias, nem que eras fraca — respondeu ele devagar, com toda a sinceridade. — Sei melhor do que ninguém o quanto és forte e capaz.
— Então não tenhas motivos para te preocupares comigo — insistiu ela, desviando o olhar para o chão.
Ele ficou calado uns instantes, antes de falar outra vez, muito baixo:
— As coisas não funcionam assim com quem se ama, Isabela. Mesmo que esteja escondido, mesmo que tentemos negar.
Ela não respondeu. Porque, durante um segundo, não encontrou palavras para dizer. O coração apertou‑lhe forte no peito.
Lá fora, o céu abriu‑se de vez. Uma trovoada forte e barulhenta começou, trovões a ecoar por toda a cidade, chuva a bater com força nas paredes e janelas. Segundos depois, de repente, todas as luzes da sala se apagaram ao mesmo tempo. Mergulharam numa escuridão quase total.
— Ótimo… era só o que faltava — queixou‑se ela baixinho.
— Têm gerador de emergência? — perguntou ele, sem se alterar.
— Sim, deve ligar‑se automaticamente daqui a uns segundos.
Mas não ligou. Ficaram às escuras, apenas iluminados por clarões rápidos e brancos dos relâmpagos que cortavam o céu lá fora.
Isabela deu um passo em frente, caminhando devagar na direção da porta para chamar alguém ou verificar o que se passava. Num daqueles clarões súbitos, não viu uma caixa de ferramentas ou papéis que alguém deixara no chão, tropeçou e perdeu o equilÃbrio.
Antes de cair, uma mão forte e quente segurou‑a pelo braço e puxou‑a devagar para si, impedindo a queda.
Era ele. Mais uma vez.
Ela apoiou‑se instintivamente no peito dele, sentindo a sua força e o seu calor. Ficaram imóveis por longos segundos, parados ali no meio da sala escura, muito próximos — próximos demais para quem devia ser apenas aliado ou inimigo.
Um relâmpago mais forte iluminou‑os brevemente, deixando‑os ver os rostos um do outro a poucos centÃmetros de distância.
— Já podes largar‑me, estou bem, não vou cair mais — disse ela, com voz mais suave e fraca do que queria.
— Podia sim — murmurou ele, sem se mexer ou a soltar de imediato.
Ela ergueu os olhos para os dele, sentindo‑se perdida.
— Mateus…
O nome dele saiu‑lhe dos lábios quase como um sussurro, doce e antigo.
Ele observou‑a em silêncio, como se estivesse a gravar cada detalhe para sempre.
— Sabes qual é o verdadeiro problema entre nós, Isabela? O que ninguém mais percebeu?
Ela abanou devagar a cabeça, sem conseguir falar.
— Passámos tantos anos a lutar um contra o outro, a correr em direções opostas, a construir muros altos entre nós… — fez uma pausa, engolindo em seco antes de continuar — …que agora já não sei viver num mundo, numa cidade ou numa vida onde tu não estejas presente. Fazes parte de mim, quer queiramos quer não.
O coração dela bateu tão forte que temeu que ele o ouvisse. Apertou‑se‑lhe a garganta, os olhos encheram‑se de lágrimas que não deixou cair.
Mas nesse instante, as luzes voltaram a acender‑se de repente, brilhantes e fortes.
Ambos afastaram‑se imediatamente um do outro, como se tivessem tocado em fogo ou feito algo p******o e perigoso. Endireitaram a roupa, desviaram o olhar, voltaram a colocar as máscaras de lÃderes frios e rivais. Como se aqueles segundos de verdade e de proximidade nunca tivessem existido.
Mas ambos sabiam a verdade mais profunda de todas: existiam laços, sentimentos e memórias entre eles que nem dez anos de guerra, de distância ou de ódio declarado tinham conseguido destruir ou apagar. E essa certeza assustava‑os muito mais do que qualquer exército, qualquer a**a ou qualquer inimigo que alguma vez tivessem enfrentado.
Continua…