O presente

1619 Words
📖 Entre Espinhos e Veneno Capítulo 5 — O Presente Dez anos tinham passado desde aquela manhã em que seguiram caminhos diferentes. Dez anos cheios de lutas, de sangue derramado, de promessas feitas e quebradas, de territórios conquistados ou perdidos, de inimigos que desapareciam para sempre e de aliados que se mostravam piores do que os adversários. A cidade crescera, mudara de feição, tornara‑se maior, mais fria, mais perigosa — mas uma coisa permanecia exatamente igual, gravada no medo e na história de todos: a guerra eterna e silenciosa entre as Serpentes Negras e os Espinhos de Aço. Ninguém, absolutamente ninguém, se atrevia a atravessar a linha invisível que separava os dois lados da cidade sem autorização expressa. Todos sabiam muito bem o que acontecia a quem cometesse esse erro — desapareciam sem deixar rasto, e ninguém fazia perguntas. As ruas tinham donos claros, poderosos e temidos. E esses donos tinham nomes que todos sussurravam com respeito e receio: Mateus Correia e Isabela Mendes. No último andar do edifício mais alto e imponente da zona norte, o quartel‑general das Serpentes Negras, Mateus estava de pé diante de janelas imensas que davam para todo o seu império. Vestia um fato preto de tecido fino e caro, perfeito, sem uma única ruga; as mangas estavam arregaçadas até ao cotovelo, deixando ver dezenas de marcas antigas — cicatrizes de lutas, de quedas, de sobrevivência — que cobriam os seus braços fortes. Sobre a mesa de madeira escura à sua frente estavam espalhados mapas detalhados, relatórios cheios de números, fotografias de locais e pessoas. Mas os seus olhos claros e penetrantes estavam fixos apenas numa imagem pequena e desfocada: uma fotografia de segurança, onde se via Isabela a caminhar com passos firmes por uma rua do seu território, rodeada pelos seus homens, de cabeça erguida, ar de rainha guerreira. Ele olhava‑a há minutos, como se conseguisse ver mais do que o papel mostrava. — Chefe? — a voz calada e cuidadosa de Rafael, o seu braço direito e homem de confiança, cortou o silêncio pesado da sala. Mateus virou‑se devagar, sem pressa nenhuma, os olhos ainda distantes. — O quê? — Descobrimos quem foi que atacou e levou o nosso carregamento de armas e mercadorias ontem à noite na zona sul. Não foi um acidente, foi planeado. Ele largou a fotografia lentamente sobre a mesa, como se fosse algo frágil ou valioso demais para deixar cair. — E então? Quem foi? — Não foram os Espinhos de Aço, nem ninguém que conhecêssemos antes. É um g***o novo, que apareceu do nada. Chamam‑se Corvos Vermelhos. Pela primeira vez em toda a manhã, algo mudou no brilho dos olhos de Mateus — uma centelha de interesse, de perigo. Endireitou‑se todo, ficando ainda mais alto e imponente. — Um g***o novo, desconhecido, a operar e a roubar coisas… na minha cidade? Sem a minha permissão? — Sim, senhor. Parecem muito organizados e arriscados. — Interessante mesmo — murmurou ele, enquanto um sorriso frio e calculista lhe aparecia nos lábios. — O que fazemos primeiro? — Descubram absolutamente tudo o que puderem sobre eles: quem os lidera, de onde vieram, quantos são, o que querem. Quero saber cada passo deles antes de amanhecer. — Fez uma pausa curta, olhando de novo para a fotografia. — E descubram uma coisa mais importante: se ela já sabe que eles existem, e o que pensa fazer sobre isso. Rafael não precisou de perguntar quem era “ela”. Ninguém perguntava. Todos ali sabiam que, por mais que houvesse outras pessoas, outros perigos, outras guerras… só uma realmente importava para ele. Do outro lado da cidade, numa sala de reuniões apertada, segura e cheia de mapas e armas escondidas, Isabela estava sentada à cabeceira de uma mesa comprida de metal, ouvindo atentamente cada palavra das suas pessoas de confiança. Tinha a postura direita, serena, atenta — nada escapava ao seu olhar. — Temos tido movimentos muito estranhos na zona industrial abandonada — contou Sofia, a sua conselheira mais próxima e amiga desde os tempos de criança. — Veem‑se homens desconhecidos, com símbolos que nunca vimos por aqui. Isabela cruzou os braços sobre o peito, pensativa. — Serão das Serpentes Negras? Ele anda a alargar o controlo para o meu lado? — Não, senhora. Não têm o seu jeito, nem as suas marcas — respondeu Sofia, pondo várias fotografias em cima da mesa. — Vê aqui. Isabela inclinou‑se devagar para ver melhor. Em todas as imagens, pintado com tinta vermelha forte e escura, havia o desenho de um corvo de asas abertas. — Corvos Vermelhos — leu em voz baixa, juntando as sobrancelhas. — Nunca ouvi falar. Desconhecidos. E se ousam marcar território assim, devem ser muito perigosos ou muito tolos. Qualquer das duas coisas é má notícia. — Levantou‑se de repente, decidida. — Quero toda a informação possível, relatórios completos, nomes, pontos fracos, até ao final do dia. Não podemos deixar crescer uma ameaça destas sem saber o que é. Sofia acenou com a cabeça e já se preparava para sair e dar as ordens, quando Isabela falou outra vez, mais baixo, quase como se falasse para si mesma: — E descobre também… se o Mateus já sabe da existência deles. E o que ele está a pensar fazer. Sofia soltou um suspiro muito pequeno e quase invisível, sorrindo para si mesma. Mesmo depois de dez anos, de tantas lutas, de tantas promessas de ódio e vingança… eles continuavam exatamente iguais. Sempre a pensar um no outro, sempre a medir‑se, sempre a saber que o outro era o verdadeiro centro de tudo. Ao fim da tarde, quando o sol já começava a esconder‑se e a cidade ficava coberta de sombras, o destino decidiu pregar‑lhes uma partida. Ou talvez fosse apenas c***l como sempre. Uma reunião importante tinha sido marcada há muito tempo: todos os líderes dos grupos e organizações da região deviam encontrar‑se num velho hotel abandonado, grande, escuro e em terra de ninguém — território neutro, onde ninguém podia atacar ninguém sob pena de todos os outros se voltarem contra ele. Era para tratar de acordos, de limites, de novos perigos. E ambos tinham recebido convite. E ambos tinham vindo. Quando Isabela entrou na sala enorme e vazia, com paredes rachadas e janelas partidas, todas as conversas pararam de repente. Todos os olhos se viraram para ela — temiam‑na, admiravam‑na, respeitavam‑na. Ela ignorou‑os a todos com uma calma absoluta, caminhou devagar até ao lugar que lhe estava reservado… e foi então que o viu. Sentado no extremo oposto da mesa comprida, afastado de todos, estava ele. Vestido todo de preto, imóvel, calmo, com um ar de perigo que se podia sentir de longe. Os seus olhos claros encontraram os dela imediatamente, como se só eles dois existissem ali. E o resto da gente, do barulho, do mundo… desapareceu completamente. Durante segundos que pareceram durar uma eternidade, ninguém falou, ninguém se mexeu. O ar ficou pesado, difícil de respirar, carregado de tudo o que tinham vivido e sentido ao longo de toda a vida. Mateus foi o primeiro a quebrar o silêncio, com voz baixa, suave e controlada — mas cheia de significado: — Rosa n***a. Ela manteve o rosto frio, sem mostrar nada do que sentia por dentro, respondeu com a mesma firmeza: — Veneno. Os outros líderes trocaram olhares assustados e confusos. Ninguém nunca sabia se um encontro destes acabava em conversa ou em guerra aberta. Isabela sentou‑se devagar, sem desviar o olhar nem um instante. — Confesso que fiquei surpreendida por te ver apareceres aqui. Pensei que mandarias outro em teu lugar. Ele apoiou‑se confortavelmente na cadeira, mantendo‑a sempre sob observação. — E eu pensei exatamente o mesmo quando te vi entrar. Achei que nunca te atreverias a estar no mesmo sítio que eu. Ela arqueou uma sobrancelha, desafiadora como sempre. — Continuas exatamente igual: convencido de que és o centro de tudo. — E tu continuas exatamente igual: mandona, teimosa… e impossível de esquecer — devolveu ele sem hesitar. — E tu continuas extremamente irritante e perigoso — disse ela, já com um brilho de desafio nos olhos. — E tu continuas linda, ainda mais quando estás zangada e pronta para lutar — falou ele, calmo, direto, sem qualquer vergonha. Silêncio absoluto na sala inteira. Metade das pessoas quase parou de respirar de espanto. Ninguém falava assim com ninguém, e muito menos com eles dois. Isabela estreitou os olhos, sentindo o coração bater mais forte contra a sua v*****e. — Continua a falar‑me assim, com essas palavras, e garanto‑te que perdes a capacidade de falar para sempre. Mateus sorriu então — um sorriso pequeno, perigoso, mas que parecia muito mais verdadeiro e quente do que qualquer outro que ele mostrasse ao mundo. — E eu garanto‑te que já tinha imensa saudade de discutir e de falar contigo, Isabela. De verdade. Ela desviou o olhar depressa, virando‑o para a mesa, para as paredes, para qualquer coisa menos ele. — Infelizmente… esse sentimento não é o mesmo da minha parte — mentiu ela, com voz firme mas um pouco mais baixa. Ele sabia que era mentira. Ela também sabia que ele sabia. E essa verdade escondida era o pior de tudo para ambos. Porque apesar de tantos anos de luta, de ódio declarado, de caminhos separados e barreiras erguidas… nenhum dos dois tinha conseguido apagar o outro do coração ou da memória. E ambos odiavam‑se por isso. Continua…
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