Guerra de crianças

1717 Words
📖 Entre Espinhos e Veneno Capítulo 3 — Guerra de Crianças O tempo foi passando devagar, arrastando os dias, os meses e os anos como quem carrega um peso pesado. E, com ele, Mateus e Isabela cresceram — os corpos ficaram mais altos, mais fortes, os olhos ganharam mais brilho e mais dureza, aprenderam mais sobre o mundo e sobre a vida difícil que tinham à sua volta. Mas havia coisas que nunca mudavam, por mais que o tempo passasse ou que tudo o resto se transformasse. Como as discussões intermináveis. As provocações constantes, feitas de propósito só para ver o outro reagir. E aquela necessidade estranha, forte e inexplicável que ambos tinham de vencer o outro em absolutamente tudo — fosse uma corrida, uma disputa por um lugar, uma palavra ou um olhar. No bairro inteiro, toda a gente já conhecia a história de cor e salteado. Tornara‑se quase uma lenda pequena e engraçada: se Isabela aparecesse num sítio, era quase certo que Mateus não tardaria a chegar também. E se Mateus aparecesse primeiro, problemas e confusões apareceriam logo a seguir — e quase sempre com ela no meio. — Outra vez vocês os dois a fazer confusão?! — resmungava Dona Maria, a senhora idosa que morava na casa da esquina, abanando a cabeça com um sorriso meio zangado mas muito carinhoso, ao vê‑los discutir pela terceira vez naquela única semana. — Não se cansam de andar sempre às voltas um com o outro? — Foi ele que começou tudo, como sempre! — respondia Isabela imediatamente, com a voz alta e convicta, apontando o dedo na direção dele. — Ela está a mentir como uma mentirosa — dizia Mateus calmamente, encostado a um muro qualquer, mãos nos bolsos, com aquela expressão tranquila e desinteressada que só ele sabia fazer — e que a deixava furiosa de propósito. — Eu só estava ali parado, ela que veio provocar‑me. — Estou a mentir?! — gritou ela, quase a saltar de raiva. — Tu escondeste a minha bicicleta! A que eu demorei tanto tempo a arranjar! — Só a mudei de lugar para não ficar ali a estorvar — respondeu ele, encolhendo os ombros como se tivesse feito a coisa mais normal e útil do mundo. — Mudaste‑a de lugar… e puseste‑a em cima do telhado mais alto da rua! — berrou ela, os olhos a brilharem de indignação. — Tecnicamente falando, continua a ser outro lugar qualquer — argumentou ele, com aquele sorriso torto e convencido que a fazia perder a cabeça. — Não disse que era um lugar fácil de chegar. Isabela avançou dois passos na direção dele, punhos cerrados, pronta a tudo. — Eu vou m***r‑te, Mateus! Juro que um dia destes faço isso mesmo! Ele apenas cruzou os braços sobre o peito, olhando‑a de cima a baixo com calma e desafio. — Boa sorte com isso, Isabela. Vais ter que correr muito e ser muito esperta primeiro. Cinco segundos depois, já estavam outra vez a discutir alto no meio da rua, a dizer coisas sem sentido e a trocar empurrões leves, enquanto os vizinhos olhavam e riam ou abanavam a cabeça — ninguém se espantava mais com nada. Era sempre assim. Sempre. E parecia que nunca iria mudar. Aos doze anos de idade, os dois já eram famosos em todo o bairro por serem as crianças mais teimosas, mais determinadas e mais difíceis de lidar que alguma vez tinham existido por ali. Nenhum recuava um milímetro perante ninguém, e muito menos um perante o outro. Nenhum aceitava perder, nem admitir que o outro poderia ser melhor em alguma coisa. Num verão particularmente quente e seco, onde o sol queimava tudo e as ruas pareciam deitar fogo, um g***o de rapazes mais velhos organizou uma corrida perigosa: atravessar os telhados baixos e irregulares de vários prédios abandonados, saltar de um para outro, correr por cima de telhas partidas e vigas podres até chegar ao fim. O prémio não era dinheiro nem comida. Era algo que valia muito mais naquele lugar: respeito. Ser conhecido como o mais rápido, o mais corajoso, o melhor de todos. Isabela foi a primeira a chegar ao ponto de partida, já com o ar de quem vai ganhar sem esforço. E, claro, quando lá chegou, encontrou‑o ali parado, à espera. — Não vais participar? — perguntou ela, estreitando os olhos, desapontada se ele não fosse — porque ganhar sozinha não tinha graça nenhuma. Mateus deu de ombros devagar, olhando para os telhados lá em cima. — Vou participar, claro. — Então porque estás parado aí como uma estátua? — Porque estava à tua espera. Se eu ganhar e tu não estiveres lá para ver, não vale a pena. Ela fez uma careta de desdém. — Que convencido tu és… — E tu és só competitiva demais — devolveu ele logo. — E tu és extremamente irritante! — E tu és mandona como ninguém. Ficaram ali uns segundos apenas a olhar um para o outro, desafiadores, cada um a tentar ver quem baixava o olhar primeiro — e nenhum o fazia. Até que um dos rapazes mais velhos gritou bem alto: — PREPARADOS… PARTIR! Todos correram de uma vez só, subindo paredes, saltando obstáculos, subindo aos telhados. Mas muito depressa todos os outros ficaram para trás. Apenas eles dois mantinham‑se lado a lado, iguais em tudo, sempre separados por poucos centímetros. Saltavam muros altos sem hesitar. Corriam por cima de telhas soltas como se pisassem chão firme. De vez em quando davam pequenos empurrões ou tropeções discretos, só para tentar atrasar o outro. — Pára de tentar fazer‑me cair e partir o pescoço! — reclamou Isabela, ofegante mas ainda rápida e forte. — Tu começaste primeiro, há dois telhados atrás — respondeu ele sem parar de correr. — Mentiroso descarado! — E tu és péssima perdedora, já toda a gente sabe isso. — Pois ainda não perdi nada, nem perco agora! No salto final, o mais longo e arriscado de todos, ambos saltaram com toda a força e aterraram quase ao mesmo tempo no telhado final, caindo de lado e rindo um pouco de cansaço. Seguiu‑se uma discussão que durou quase meia hora inteira sobre quem tinha chegado primeiro, quem tinha posto o pé primeiro, quem tinha tido vantagem ou não. Ninguém que estivesse lá conseguiu decidir nem dar razão a nenhum — porque, na verdade, ninguém tinha prestado atenção à corrida. Toda a gente estava demasiado ocupada a olhar para eles dois e a ouvir a sua briga. Os anos continuaram a passar um a um, rápidos e duros. As brincadeiras de criança foram desaparecendo pouco a pouco, transformando‑se primeiro em desafios, depois em rivalidade forte e séria. E essa rivalidade foi crescendo, aprofundando‑se, tornando‑se em algo mais complexo, mais forte, algo que nenhum dos dois sabia explicar mas sentia profundamente. Quando completaram catorze anos, tudo à volta deles começou a mudar depressa demais. O bairro já não era o mesmo: pessoas estranhas e perigosas começaram a aparecer nas esquinas, a dar ordens, a controlar coisas. Brigas de rua deixaram de ser só por diversão ou por espaço — passaram a ter armas, dinheiro, consequências graves. Alguns rapazes mais velhos meteram‑se em negócios proibidos e perigosos; outros desapareceram de vez, sem ninguém nunca mais saber o que lhes tinha acontecido. O mundo tornou‑se mais duro, mais frio, mais c***l. Mas mesmo com tudo a mudar, havia uma coisa que permanecia exatamente igual: eles dois. Continuavam a encontrar‑se, a provocar‑se, a lutar, a falar, a conhecer‑se melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. Numa tarde abafada e cinzenta, Isabela encontrou Mateus sentado sozinho na beira do telhado mais alto de um prédio abandonado, com os joelhos dobrados e o olhar perdido ao longe, muito calado e pensativo. Ela aproximou‑se devagar, sem fazer barulho, e sentou‑se ao lado dele, deixando um espaço pequeno entre os dois. — Sabia que te ia encontrar aqui — disse ela baixo, olhando também para a cidade lá em baixo. — Tu vens sempre para aqui quando queres fugir de tudo e de todos. Ele virou um pouco a cabeça para ela, surpreendido mas não assustado nem zangado. — Como é que sabes tanto sobre mim? — Porque tu estás sempre a esconder o que sentes e o que pensas — respondeu ela com calma, sincera. — E eu reparo em tudo o que tu fazes. Melhor que ninguém. Ele soltou um suspiro pequeno e voltou a olhar para o horizonte. — E tu falas sempre como se soubesses tudo o que se passa comigo. Mas tu escondes‑te ainda mais do que eu. Ficaram em silêncio depois disso. Um silêncio estranho, pesado mas bom — confortável, talvez demasiado confortável para duas pessoas que juravam odiar‑se e querer sempre vencer‑se. Sentiam‑se seguros um ao lado do outro, ali, longe de todos os problemas. Até que Isabela, como sempre, foi a primeira a quebrar aquele momento doce e sério, voltando à sua forma de ser. — Mesmo assim… continuo a ser mais rápida, mais esperta e mais forte do que tu. Sempre fui e sempre serei. Mateus soltou uma risada baixa e seca, sem muita alegria mas cheia de cumplicidade. — Continua a sonhar acordada, Isabela. Um dia vais acordar e ver que estavas enganada em tudo. Ela deu‑lhe um empurrão forte no ombro. Ele devolveu o empurrão com um pouco mais de força, fazendo‑la rir e ameaçar bater‑lhe. Poucos segundos depois, já estavam outra vez a provocar‑se, a discutir por tudo e por nada, como se nada de mau existisse no mundo. Era isso que sabiam fazer melhor: desafiar‑se, lutar, provar um ao outro quem valia mais. Nenhum dos dois imaginava ainda que, dentro de poucos anos, aquela guerra inocente de crianças iria crescer também, transformar‑se em algo muito maior, muito mais perigoso, cheio de poder e sangue. E que quando isso acontecesse… nenhum dos dois sairia ileso. Porque já estavam ligados demasiado forte, demasiado cedo. Continua…
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