capitulo 15 Mariana

2494 Words
Atravessei o portão daquela faculdade me sentindo um cadáver ambulante, uma carcaça vazia que só se movia por puro reflexo muscular. O sol de São Paulo não estava apenas brilhando; o asfalto parecia estar derretendo sob os meus pés, liberando um vapor quente e tóxico que subia pelas minhas pernas, ou talvez fosse só a minha cabeça fritando com a imagem nítida do Francisco recebendo aquela notificação de suspensão de bolsa. Peguei o ônibus lotado, espremida entre pessoas que não faziam ideia de que o meu mundo tinha acabado de implodir, e cada sacolejada daquele latão velho era um soco direto no meu estômago. Eu olhava para os meus pulsos, escondidos obsessivamente pelas mangas longas do casaco no calor de trinta graus, e sentia o fantasma do metal frio do Ricardo me apertando, latejando contra o osso, me lembrando a cada segundo que, se eu perdesse a proteção institucional da faculdade, eu não era mais "a doutora". Eu era só uma presa fácil, uma carcaça aberta para qualquer urubu de farda ou de terno que decidisse me despedaçar. Desci no meu ponto com as pernas trêmulas e o caminho de três quarteirões até em casa pareceu um corredor da morte interminável. Eu não queria entrar. Eu queria correr na direção oposta, correr até sumir do mapa, mas a Arlete estava lá dentro. E eu conhecia o roteiro daquela peça maldita: o Francisco ia descarregar o ódio, a frustração e o fracasso dele no primeiro alvo que visse pela frente. E se eu não estivesse lá para ser o escudo, ela seria o saco de pancadas. Abri o portão de ferro enferrujado e o barulho do metal rangendo pareceu um trovão anunciando a tempestade. Antes mesmo de eu encostar a mão trêmula na maçaneta da porta da frente, ela se escancarou com uma violência que fez a madeira bater contra a parede. Francisco estava parado no meio da sala, os pés afastados, a postura de um senhor feudal de subúrbio. O rosto dele estava de um vermelho violento, quase roxo, uma veia grossa saltada na testa pulsando no ritmo da sua fúria. O celular estava jogado em cima da mesa de centro, a tela trincada brilhando como se fosse uma granada que tivesse acabado de explodir a nossa parca estabilidade. O cheiro de cachaça barata misturado com cigarro já estava impregnando o ar, um bafo quente que preenchia a sala, junto com aquele odor metálico de adrenalina e ódio que eu aprendi a identificar antes mesmo de aprender a ler. — Olha só quem chegou! — ele gritou, a voz saindo num deboche agudo que me deu náuseas instantâneas. — Abram alas para a grande esperança da família Lacerda! A salvadora da pátria! A Doutora! A gênia dos livros! Minha mãe estava encolhida no canto da cozinha, quase fundida com a parede, as mãos agarrando o pano de prato com tanta força que os dedos pareciam garras. Os olhos dela estavam vermelhos, inchados de quem já tinha levado a primeira leva de gritos e humilhações. — Francisco, por favor, deixa a menina explicar... deve ter algum erro, ela é estudiosa... — ela sussurrou, a voz morrendo na garganta antes mermo de terminar a frase. — EXPLICAR O QUÊ, ARLETE?! — ele virou para ela como um animal raivoso, rugindo. — Explicar que eu acabei de receber uma ligação daquela diretoria de merda dizendo que a bolsa dela foi pro vinagre? Que eu sou o fiador dessa p***a e que agora tem um boleto do tamanho de um bonde com o meu nome em cima, pronto para sujar o pouco que me resta de crédito? Ele voltou a atenção para mim, dando dois passos pesados que fizeram os copos na estante vibrarem. Eu não recuei. Eu não tinha mais espaço físico ou mental para recuar. Senti o ódio subindo pela minha garganta, amargo como o sangue que eu engoli ontem. — E aí, Doutora? — ele cuspiu a palavra, o rosto a centímetros do meu, o hálito quente de álcool atingindo meus olhos. — Cadê a inteligência superior agora? Cadê os dez em Direito Penal? Cadê a garota prodígio que ia tirar a gente do buraco? Você é uma fraude, Mariana! Uma farsa completa! Gastou quatro anos da minha vida e do meu dinheiro fingindo que era melhor que eu pra terminar expulsa por incompetência antes de pegar o diploma? — EU NÃO FUI EXPULSA, FRANCISCO! — retruquei, minha voz saindo firme, cortante, apesar de sentir que meu peito estava estilhaçado por dentro. — Foi um erro administrativo deliberado! Foi uma armação! Eu vou recorrer, eu vou entrar com um mandado de segurança, eu vou... — RECORRER?! — ele soltou uma gargalhada histérica, um som seco que não tinha nada de alegria. — Você não vai recorrer de p***a nenhuma! Você jogou o meu nome na lama daquela faculdade de rico! Eu já estou com os caras do centro me jurando de morte por causa daquela dívida de sete milhões, e agora você me arruma mais essa cobrança? Você quer me ver morto, não quer? É isso? Quer que o agiota me mate pra ficar com esse teto caindo aos pedaços? Ele me segurou pelo braço com uma força bruta, os dedos se cravando exatamente em cima dos hematomas onde o Ricardo tinha me machucado ontem. Eu soltei um gemido de dor agudo e tentei puxar o braço, mas ele apertou ainda mais, os olhos injetados de maldade. — Você se acha muito esperta, né? Olhando pra mim com esse nojo, com esse queixo erguido como se eu fosse um lixo debaixo do seu sapato caro. Mas olha só a ironia... no fim das contas, você é igualzinha a mim, Mariana. Perdeu tudo por causa de um erro i****a. Só que agora, quem vai pagar a conta não sou eu. Eu não tenho mais nada pra dar! — ME SOLTA! — gritei, empurrando o peito dele com a mão livre, sentindo o suor nojento da camisa dele nos meus dedos. — Eu não sou responsável pelas suas dívidas de jogo e não vou carregar a culpa por um sistema que foi manipulado por um desgraçado pra me ferrar e me deixar sem saída! — MANIPULADO?! — ele me sacudiu com tanta força que minha visão embaçou por um segundo. — Deixa de ser paranoica, garota! Você fracassou! Foi incompetente! E agora o boleto está lá, vencendo. Sabe o que o cara que me ligou disse? Que se o pagamento integral não cair em 48 horas, meu nome vai pro SPC, pra casa do c*****o, e a garantia da casa cai na hora. Você entende a gravidade disso? Você desabrigou a sua mãe, sua infeliz! Você jogou a gente na sarjeta por causa de dezessete minutos de atraso! Ele me jogou contra a parede do corredor com um empurrão violento. Minha cabeça bateu na madeira do batente com um baque seco, uma dor aguda que fez faíscas cruzarem meus olhos. — Cadê a Doutora agora, hein? — ele gritava, vindo pra cima de mim de novo, o punho fechado. — Cadê a arrogante que sabia tudo sobre leis? Lei aqui dentro sou eu! E eu estou dizendo que você vai dar um jeito de pagar esse boleto nem que você tenha que ir pra esquina vender esse seu orgulho e esse seu corpinho de universitária! A Arlete, num ímpeto de coragem que ela raramente tinha, correu e se jogou na frente dele, chorando alto, as mãos postas. — Não, Francisco! Por favor! Não fala assim com ela, é sua filha! A gente dá um jeito, eu vendo as minhas joias de família, eu faço faxina dobrado... — QUE JOIAS, ARLETE?! — ele empurrou ela pro lado sem o menor pingo de dó, fazendo-a bater no balcão da cozinha. — Você não tem mais nada! Eu já empenhei tudo! A gente não tem nada além dessa dignidade de fachada que essa aí acabou de jogar no lixo! Eu levantei do chão devagar, limpando com as costas da mão o sangue que começou a escorrer do meu lábio cortado. O ódio estava me cegando, uma névoa preta que tomava conta da minha visão. Eu olhei para aquele homem, para aquele agressor covarde que me chamava de "doutora" como se fosse o pior dos insultos, e percebi com uma clareza aterrorizante que a minha casa não era mais um abrigo. Era um cativeiro. Era uma extensão do escritório do Daniel Bittencourt. — Eu não te devo nada, Francisco — falei, a voz saindo tão gélida e mortal que o fez estacar no lugar. — Nem respeito, nem dinheiro, nem o meu futuro. Você já vendeu a minha paz faz tempo. — Você quer ver quem é a lei aqui dentro, Mariana?! — Francisco rugiu, os olhos saltando das órbitas, completamente possuído pela mistura explosiva de cachaça e ódio. — Eu vou te ensinar a não latir para quem te sustenta! Vou te ensinar a respeitar o homem desta casa! Ele levantou o braço, a mãozona pesada e calejada vindo com tudo, um arco de violência pura na direção do meu rosto. Eu travei. Fechei os olhos com força, encolhendo os ombros, esperando o impacto que ia estraçalhar o resto da minha dignidade e me deixar no chão. Mas o golpe não veio em mim. Ouvi um som oco, um estalo horrível de carne contra carne, seguido de um suspiro sufocado que parecia um balão murchando. Abri os olhos e o meu mundo desabou em câmera lenta. A Arlete tinha se jogado na frente. De novo. Sempre ela. O golpe que era pra mim pegou direto na têmpora dela, fazendo a cabeça dela girar com violência e bater com o rosto na quina afiada da mesa de madeira da cozinha. Ela não gritou. Não teve drama. Só um silêncio absoluto enquanto ela desabava como um saco de pano velho no chão frio de taco. — MÃE! — o grito rasgou a minha garganta, um som visceral de puro desespero. Mas o Francisco não parou. A visão do sangue começando a sujar o chão e o rosto dela pareceu dar a ele o combustível final que faltava para a loucura completa. Ele não era mais um pai, nem um homem; era um animal acuado, um fracassado descontando o medo de morrer nas mãos dos agiotas na única pessoa que ainda tinha a coragem de amá-lo. — SAI DA FRENTE, ARLETE! — ele berrou, desferindo um chute na costela dela enquanto ela tentava, inutilmente, se levantar. — Essa vagabunda vai aprender hoje o preço da insolência! Ele descarregou tudo. Soco, chute, o barulho da pele batendo e o gemido abafado da minha mãe ecoavam nas paredes descascadas daquela cozinha maldita. Eu via o braço dela, aquele que já estava roxo de marcas antigas, ser castigado de novo. Vi o avental encardido manchar de um vermelho vivo e quente. Um estalo deu na minha mente. A Mariana que estudava leis, que acreditava em processo, em ordem e em "devido processo legal", morreu ali mesmo, no chão daquela cozinha, assistindo o sangue da mãe escorrer pelo piso. — PARA COM ISSO, SEU COVARDE IMUNDO! — eu berrei, avançando com tudo o que eu tinha. Eu não pensei. Eu não medi a força ou as consequências. Joguei todo o peso do meu corpo, toda a minha revolta acumulada e o ódio de vinte e um anos de opressão num empurrão só. Minhas mãos espalmaram no peito suado e fedorento dele com uma violência que o pegou totalmente de surpresa. Francisco, cambaleando pela bebida e pelo choque da minha reação, voou para trás, atravessando a pequena distância da cozinha até a sala, batendo com as costas na estante velha. O vidro da porta de cima trincou com o impacto, e os livros que eu tanto amava caíram sobre ele como escombros de um império caído. Ele me olhou chocado, a boca aberta, um fio de saliva misturado com álcool pendurado no canto dos lábios. O pavor começou a nublar o olhar dele. — Você... você me empurrou, sua infeliz? — ele gaguejou, tentando recuperar o fôlego, a mão tateando a estante para se levantar. — EU TE ODEIO! — gritei, a voz rouca, trêmula, carregada de um veneno que eu não sabia que cabia dentro de mim. — Eu odeio cada célula desse seu corpo apodrecido! Eu odeio o cheiro de cachaça que você exala! Eu odeio o fato de carregar esse seu sangue de covarde! Você é um lixo, Francisco! Um verme que só se sente homem batendo em mulher porque lá fora, pros caras do centro, você não passa de uma c****a assustada que rasteja por prazo! Apontei o dedo trêmulo para ele, sentindo o lábio cortado latejar, o gosto de ferro na boca me dando uma coragem suicida. — Sai daqui. SAI AGORA! Antes que eu esqueça de vez que sou estudante de Direito e faça justiça com as minhas próprias mãos! Eu não tenho mais nada a perder, Francisco! Você já tirou a nossa casa, já tirou meu futuro e já tirou o resto de respeito que eu tinha por você! Se você encostar um dedo nela de novo, eu juro por tudo o que há de mais sagrado: eu acabo com você enquanto você dorme! Ele bufou, tentando inflar o peito para vir pra cima de novo, mas a fúria psicótica nos meus olhos o mesmo brilho de quem não tem mais volta o fez hesitar. Ele viu que eu estava pronta para matar ou morrer naquele metro quadrado de cozinha. Ele viu que a "Doutora" tinha virado uma carrasca. — Ingrata... filha maldita... — ele murmurou, limpando o canto da boca com as costas da mão e pegando a jaqueta gasta jogada no sofá com movimentos bruscos. — Fica aí com essa coitada. Vamos ver quanto tempo vocês duram sem o meu nome e sem a minha proteção. Vou resolver as minhas contas com quem realmente manda. Quando eu voltar, Mariana, eu quero esse boleto pago, ou vocês duas vão dormir na calçada com os ratos, que é o lugar de onde vocês nunca deviam ter saído! Ele bateu a porta da frente com tanta força que um quadro da parede uma foto antiga de quando éramos uma família de verdade caiu e se estilhaçou no chão. O silêncio que ficou era pior que os gritos. Era um silêncio de necrotério. Corri e me joguei no chão, sujando meus joelhos no sangue dela. Puxei a cabeça da minha mãe para o meu colo, ignorando o tremor nas minhas mãos. — Mãe... fala comigo. Por favor, mãe! Olha pra mim! Ela abriu um olho devagar, o outro já estava inchando rápido, ficando de um roxo doentio. Ela tentou sorrir, um movimento patético e doloroso de quem ainda queria me consolar mesmo estando estraçalhada. — Tá tudo bem, Mari... não chora... ele só tá nervoso com as dívidas.... — a voz dela saiu falha, gorgolejando com o sangue que vinha do nariz quebrado.
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