PONTO DE VISTA: DANIEL BITTENCOURT
O vidro blindado da Mercedes Maybach isolava o mundo lá fora como se São Paulo fosse apenas um cenário de baixa resolução, um filme mudo e m*l iluminado passando diante de mim enquanto eu cruzava a Marginal Pinheiros. O motorista não falava. Nunca falava. Ele recebia o triplo do valor de mercado para entender que o silêncio ao meu redor não é ausência de som é uma ferramenta estratégica, um pré-requisito para o meu foco. Eu detesto ruído desnecessário. Detesto gente medíocre que tenta preencher o vácuo com banalidades e cortesias vazias.
Afrouxei levemente o nó da gravata de seda italiana e encarei meu próprio reflexo no vidro escurecido. A mandíbula estava rígida, os músculos da face tensos, e o olhar permanecia gélido, o olhar de quem passou a noite em claro resolvendo pendências transatlânticas que matariam um homem comum de estresse fulminante.
Eles queriam uma noiva.
Aqueles velhos decrépitos do conselho administrativo, cujas mentes cheiravam a naftalina e conservadorismo barato, não queriam discutir a otimização da malha aérea ou a fusão operacional com os alemães da Lufthansa, que injetaria bilhões no nosso caixa. Não. Eles queriam uma peça de decoração. Uma esposa para suavizar os meus ângulos retos e transformar o lobo em um Golden Retriever de jardim.
O conselho da AeroSky tinha decidido, em sua infinita hipocrisia, que minha competência não bastava. Que o lucro recorde de 28% no último ano, sob o meu comando implacável, era apenas um "detalhe" perto da minha vida pessoal "efervescente". Para eles, a presidência definitiva precisava de “estabilidade institucional”. Tradução: um anel de ouro no meu dedo para fingir que eu sou um cordeiro doméstico dócil para os acionistas.
Ridículo. Patético. Mas, infelizmente, um obstáculo real no meu tabuleiro.
O elevador privativo do edifício corporativo subiu como um foguete direto para o 45º andar. Sem paradas. Sem interrupções de funcionários insignificantes que desviam o olhar quando eu passo. As portas de aço escovado se abriram para o corredor de mármore italiano e vidro fosco que exalava o cheiro de poder e dinheiro. Eu não bati na porta da sala de reuniões. Eu entrei. O estrondo das portas duplas batendo contra o batente foi o meu "bom dia" para os dinossauros.
Seis homens estavam sentados ao redor da mesa oval de jacarandá. Café servido em porcelana, pastas abertas, expressões ensaiadas de preocupação paternalista que me davam náuseas. Almeida, o patriarca e maior acionista individual, estava na cabeceira, parecendo um b***o de museu mofado em seu terno de risca de giz.
— Senhores — falei, puxando a cadeira da ponta oposta com um rangido proposital e me sentando com uma calma cirúrgica, jogando meu tablet sobre a mesa com um estalo seco que ecoou pela sala. — Imagino que a palhaçada da exigência moral continua de pé.
Almeida não sorriu. Ele raramente o fazia, pois os músculos da face já deviam estar paralisados pela arrogância de décadas.
— Continua, Daniel. E não é palhaçada. É governança. É preservação de valor — ele disse, com aquela voz rouca de fumante inveterado.
— É atraso — retruquei, a voz saindo como uma lâmina fria de bisturi. — A fusão com a Lufthansa exige números, agressividade e visão. Eu entreguei os números. Eu trouxe os alemães para a mesa. Onde está a p***a do problema?
Henrique, um herdeiro almofadinha que m*l sabia ler um balanço patrimonial e que só estava ali por causa do sobrenome, entrou na conversa com uma petulância que me deu vontade de esmagar o pescoço dele com as minhas próprias mãos:
— Sua vida pessoal virou pauta recorrente na imprensa internacional, Daniel. Escândalos em boates de luxo, modelos saindo da sua cobertura ao amanhecer, aquele incidente vergonhoso com o iate em Mônaco... Isso impacta a negociação com investidores conservadores de Frankfurt. Eles querem previsibilidade. Querem alguém que não seja manchete de tabloide.
Eu cruzei as mãos sobre a mesa, inclinando-me para a frente. A arrogância transbordava em cada poro da minha pele. Eu os tratava como os subordinados mentais que eles eram.
— Vocês estão confundindo moralidade cristã com governança corporativa. Se os alemães querem um santo, que vão negociar no Vaticano. Se querem lucro e domínio de mercado, eles negociam comigo. O que eu faço entre quatro paredes ou no meu tempo livre não é da conta de acionistas que só se importam com o dividendo no final do trimestre.
— Estamos falando de sucessão, Daniel — Almeida rebateu, a voz pesada como chumbo. — A presidência definitiva exige confiança institucional. O mercado precisa ver um homem de família à frente da AeroSky, não um playboy que usa aviões como brinquedos.
Silêncio. Eu os observei um por um. O que eu via ali não era preocupação com a empresa. Era medo. Medo de que eu fosse grande demais para ser controlado. Eles queriam me amarrar a uma mulher para terem uma rédea, um ponto de pressão.
— Vamos parar com o teatro — eu disse, baixo, num tom que fez Henrique desviar o olhar instantaneamente. — A condição para minha efetivação como presidente definitivo é um casamento formal dentro de noventa dias. Aparições públicas coordenadas pela assessoria. Construção de uma narrativa familiar impecável. É isso?
Almeida sustentou meu olhar gélido, as pupilas dilatadas.
— É isso. Ou nomeamos um presidente interino até que o "perfil do cargo" seja devidamente preenchido por alguém menos... volátil.
Ali estava. A ameaça de golpe de estado. Eu me inclinei para trás na cadeira, soltando uma risada seca, curta e totalmente desprovida de humor. Era um som que projetava desprezo puro.
— Vocês realmente acreditam que conseguem substituir o único homem que mantém essa empresa três passos à frente da concorrência? Tentem. Nomeiem o Henrique aqui. Vejam as ações derreterem 40% antes do fechamento do pregão. Vejam os alemães rasgarem o contrato de fusão no mesmo instante.
Henrique ficou vermelho como um pimentão, mas Almeida permaneceu impassível, com a cara de p*u de quem já tinha tudo planejado.
— Nenhuma liderança é insubstituível, Daniel. O risco sistêmico da sua conduta pessoal hoje é maior do que o risco de uma transição de comando turbulenta. O board já deu o aval. Ou você estabiliza sua vida, ou está fora.
Aquilo era um blefe de alto risco. Mas era um blefe que eu não tinha tempo de pagar agora. Eu precisava daquela fusão assinada para consolidar meu domínio absoluto na América Latina. Levantei-me e caminhei até a tela de projeção de 100 polegadas, acionando o controle com um movimento brusco.
— A aquisição da SkyAndes depende da minha condução direta. A negociação com o fundo soberano do Catar exige que eu esteja na mesa, porque eles não apertam a mão de "substitutos" ou "interinos". Vocês querem apostar bilhões porque estão desconfortáveis com fotos em colunas de fofoca?
— Queremos mitigar risco — Almeida repetiu, como um mantra irritante.
— Casamento não mitiga risco, Almeida. Casamento cria um passivo emocional e jurídico que eu não tenho o menor interesse em gerir. Mas, se vocês querem uma foto bonita para o relatório anual de sustentabilidade... — caminhei devagar ao redor da mesa, parando exatamente atrás da cadeira do patriarca. — Digamos que eu aceite. Uma noiva escolhida a dedo por mim, apresentação pública impecável, uma santa para os jornais. Vocês garantem a presidência integral? Sem novas "exigências morais"? Sem interferências no meu modo de gestão agressivo?
Eles trocaram olhares rápidos. O cheiro de vitória deles — ou o que eles achavam que era vitória — começou a preencher a sala saturada de ar condicionado.
— Garantimos estabilidade contratual por quatro anos — Almeida respondeu, selando o pacto fáustico.
Quatro anos. Tempo mais do que suficiente para eu comprar as ações de cada um desses velhos decrépitos e chutá-los para o asilo mais próximo. Voltei para minha cadeira e cruzei as pernas, a arrogância voltando ao seu estado natural de repouso.
— Vocês têm alguma "candidata adequada" na manga ou vão me deixar escolher o meu próprio veneno?
Henrique hesitou, mas Almeida foi direto:
— Esperamos que você apresente alguém. Alguém sem histórico. Sem passado sujo. Uma folha em branco que possamos preencher com a imagem corporativa da AeroSky. Nada de atrizes, modelos ou herdeiras problemáticas.
Eu pensei no Lacerda. Pensei nos sete milhões de dólares que o verme tinha perdido na minha mesa de pôquer clandestina. Pensei na filha. Mariana. Jovem. Universitária de Direito. Fora do radar de qualquer escândalo. Bonita o suficiente para as câmeras, mas — teoricamente — insignificante o suficiente para não interferir na minha liberdade. Ela era a candidata perfeita para ser a minha noiva de contrato.
— Tenho uma opção — falei, finalmente, a voz destilando frieza.
Os olhares se afiaram como facas prontas para o abate.
— Nome? — Henrique perguntou, ansioso por uma fofoca.
— Ainda não importa. Eu não entrego minhas cartas antes do flop, Henrique. Aprenda isso se quiser um dia sentar onde eu sento sem depender da herança do seu vovô.
Eu não entregaria Mariana Lacerda para eles antes de tê-la sob meu controle absoluto. Ela seria o meu segredo de estado até que o contrato de posse estivesse assinado.
— Ela atende aos critérios? — Almeida insistiu, estreitando os olhos.
— Ela atende ao que vocês precisam ver. Terão o anúncio oficial em trinta dias. Se preparem para a coletiva de imprensa. Agora, saiam da minha frente, tenho uma empresa para salvar da incompetência de vocês.
Levantei-me. A reunião estava encerrada nos meus termos. Mas, antes que eu pudesse cruzar a porta de vidro, Almeida soltou:
— Daniel. Isso não é pessoal. É governança. É o mercado.
Eu parei, a mão na maçaneta de aço gelado. Virei o rosto apenas o suficiente para que ele visse o desprezo oceânico nos meus olhos.
— Tudo é pessoal, Almeida. Só muda o preço da fatura. E eu sempre cobro com juros.
Saí da sala sem esperar resposta. O corredor parecia menor agora, como se o prédio não comportasse o tamanho da minha ambição. Eu não me sentia derrotado; eu me sentia em fase de adaptação. Se o jogo exigia uma rainha no tabuleiro para que eu pudesse manter o rei protegido, eu arranjaria uma. Mas ela seria uma peça de mármore, não uma jogadora.
Dentro do elevador, peguei o celular de criptografia avançada. Digitei o número de Lacerda. O verme atendeu no segundo toque, a voz carregada de uma ansiedade patética, quase dando para sentir o cheiro do suor dele através da linha.
— Senhor Bittencourt… eu estou levantando os fundos, eu juro por tudo que é sagrado, só me dê mais uma semana e eu...
— Cale a boca, Lacerda — interrompi, a voz baixa, letal e monocórdica. — Sua dívida de sete milhões acaba de ganhar uma nova cláusula de quitação. Uma saída de emergência para a sua mediocridade.
Houve um silêncio trêmulo, quase dava para ouvir o coração dele falhando do outro lado.
— O que... o que o senhor quer? — ele gaguejou.
— Quero conhecer sua filha. Mariana. Pessoalmente. Nos próximos dias. Na verdade, quero ela diante de mim o quanto antes.
— Mas… Mariana está na faculdade, ela tem uma vida, ela é uma menina de bem, ela não se envolve nessas coisas...
— Eu não perguntei a agenda dela, nem pedi o seu currículo moral sobre ela. Estou ditando a minha vontade.
Desliguei antes que ele pudesse gaguejar qualquer outro protesto inútil. Encostei a cabeça no espelho do elevador, observando as luzes dos andares descendo em uma velocidade vertiginosa.
Noventa dias para o casamento. Trinta para o anúncio.
Eles queriam uma esposa para me "estabilizar". Eu daria a eles uma imagem de porcelana. Mas Mariana Lacerda precisava entender uma coisa desde o primeiro segundo em que seus olhos encontrassem os meus: Eu não sou marido. Eu não sou parceiro. Eu sou o proprietário do contrato que vai salvar a vida miserável do pai dela. E contratos, quando quebrados sob a minha tutela, cobram multa com juros de sangue e alma.
Eu saí do elevador e caminhei pelo saguão com passos pesados que ecoavam no mármore. O plano estava se formando com uma nitidez ignorante e perfeita na minha mente. Se eu ia ter que carregar uma aliança, ela não seria um símbolo de união, seria o símbolo do meu domínio absoluto, o selo da minha posse.
Entrei no carro e liguei imediatamente para o meu chefe de segurança, Rocha, um homem que sabia enterrar corpos e segredos com a mesma eficiência.
— Rocha, quero o dossiê completo da Mariana Lacerda na minha mesa em uma hora. Quero saber o histórico acadêmico, o círculo social, as dívidas, as fraquezas. Quero saber até o que ela comeu no café da manhã e qual é o perfume que ela usa. Quero os medos dela catalogados.
— Sim, senhor Bittencourt. Mais alguma coisa?
— Sim. Prepare um contrato de confidencialidade com penalidades leoninas e um acordo pré-nupcial com as cláusulas mais agressivas que o nosso jurídico puder redigir. Quero que ela fique sem nada, absolutamente nada, se ousar abrir a boca sobre a nossa "dinâmica privada" ou se tentar sair do roteiro que eu escrever. Quero ela juridicamente algemada antes mesmo de dizer "sim".
Desliguei. O vidro blindado voltou a me isolar do caos ensurdecedor de São Paulo.
Eu não compro pessoas no sentido literal da palavra; eu construo parcerias de conveniência onde eu sempre detenho a maioria das ações. Mas com Mariana seria diferente. Ela seria a minha aquisição mais estratégica, um ativo de longo prazo que me garantiria o trono da AeroSky. E eu não aceito devoluções, nem aceito que o meu patrimônio seja danificado.
Mariana Lacerda seria a esposa perfeita: jovem, limpa, bonita e totalmente dependente da minha misericórdia financeira para manter o pai vivo e a mãe protegida. Eu não precisava de amor, eu precisava de conformidade. E o medo é um motivador muito mais eficiente que a paixão.