PONTO DE VISTA: DANIEL BITTENCOURT O vidro blindado da Mercedes Maybach isolava o mundo lá fora como se São Paulo fosse apenas um cenário de baixa resolução, um filme mudo e m*l iluminado passando diante de mim enquanto eu cruzava a Marginal Pinheiros. O motorista não falava. Nunca falava. Ele recebia o triplo do valor de mercado para entender que o silêncio ao meu redor não é ausência de som é uma ferramenta estratégica, um pré-requisito para o meu foco. Eu detesto ruído desnecessário. Detesto gente medíocre que tenta preencher o vácuo com banalidades e cortesias vazias. Afrouxei levemente o nó da gravata de seda italiana e encarei meu próprio reflexo no vidro escurecido. A mandíbula estava rígida, os músculos da face tensos, e o olhar permanecia gélido, o olhar de quem passou a noite e

