NARRAÇÃO: MARIANA LACERDA Eu estava deitada na minha cama, ainda com a roupa pesada e úmida daquela chuva torrencial, sentindo o frio do tecido grudar na minha pele como uma segunda camada de culpa, um abraço gelado que me lembrava a cada segundo o preço da minha sobrevivência. O quarto estava mergulhado numa penumbra densa, quebrado apenas pelo brilho intermitente e doentio de um poste da rua que teimava em piscar, lançando sombras longas e distorcidas pelas paredes que eu conhecia desde que aprendi a falar, mas que agora pareciam as paredes de uma cela de transição, um purgatório antes do inferno definitivo. Eu encarava o teto descascado, contando obsessivamente as rachaduras no reboco, tentando desesperadamente não pensar no peso da mão do Daniel Bittencourt no meu pescoço, na forma pr

