NARRAÇÃO: MARIANA LACERDA Empurrei as portas duplas do meu quarto com a força bruta de quem desejava arrombar uma fortaleza medieval e colocar o rei para correr. O estalo da madeira batendo contra o batedor de ouro ressoou pelo corredor como um grito de guerra abafado. O silêncio daquela ala da mansão era quase ofensivo, uma quietude estéril, pressurizada, que gritava a plenos pulmões o quanto eu estava isolada do mundo real, do barulho da chuva no zinco e das buzinas estressadas do meu bairro. Caminhei direto para o closet, o coração ainda martelando frenético contra as costelas pelo embate no jardim, sentindo o rastro do hálito de Daniel na pele da minha mão como se fosse uma queimadura de terceiro grau. Aquele beijo na mão não foi um gesto de cavalheirismo; foi a marcação de um ferro

