Passei pela última contenção, a fronteira do morro com a cidade. O Jorge não tava lá, já devia tá fazendo a ronda na parte alta que eu mandei, mas os vapor novinho que tavam de plantão, tudo de peça na mão, baixaram os fuzis e bateram continência na mesma hora quando viram a minha nave preta apontar. Dei um aceno rápido de cabeça, mostrando quem manda, e pisei fundo no acelerador. Pisei no asfalto. A transição é sempre um bagulho muito louco, uma mudança de dimensão. Num minuto tu tá na favela, na tua fortaleza de concreto sem reboco, onde a tua palavra é a única lei que importa e a morte senta do teu lado. No outro, o pneu toca no asfalto, e tu tá na pista. No mundo dos playboy. Na Zona Sul, onde a pista é lisa, os prédios são de vidro e as luzes da cidade tentam fingir que tá tudo certo

