ANANDA GURGEL
Rejeito a mão do sujeito engomadinho e levanto por conta própria, levemente mais m*l humorada por ter caído com a b***a no chão.
— Quem é você? — Pergunto, bem menos ríspida do que realmente gostaria de ser e um sorriso contido surge no canto esquerdo da boca do homem.
— Diego Saldanha, prazer em conhecê-las. — Faz uma reverência estranha com a cabeça, esticando o sorriso, o tornando mais aberto.
— O prazer é todo nosso, Dieguinho. — Darlene diz, toda dada ao falar o nome do desconhecido no diminutivo, forçando uma i********e. A louca também enfatiza a palavra prazer de uma forma nada sútil, o pobre coitado chega a ficar vermelho na região das bochechas e pescoço, também, ele é mais branco do que papel, impossível não perceber a coloração rosada no seu rosto.
Coitado.
A Darlene é osso.
Ele limpa a garganta e tenta disfarçar o constrangimento, enquanto isso, avalio seu rosto e busco algum reconhecimento. Estudo seus traços mais marcantes e tento buscar na memória alguma lembrança dele, o queixo é quadrado e tem uma barba rala, loira, perfeitamente alinhada cobrindo metade do seu rosto. Esse detalhe é algo que eu guardaria na memória, sem dúvida, amo um homem de barba e essa é perfeita demais para não rondar meus sonhos. Os olhos verdes me lembram as folhas de samambaia do jardim de Dona Augustinha, são lindos, únicos. Ele também parece bem de vida ao julgar pelo conjunto de calça e terno que está usando, as peças são visivelmente cara e destoam da simplicidade da minha lojinha.
— Você é turista? — Acabo perguntando, mesmo sendo incomum ter pessoas nos visitando nessa época do ano. Na verdade, é raro ter turistas nessa e em qualquer outra época do ano. Nossa ilha é pouco conhecida, falta marketing para exaltar nossos pontos turísticos.
Então, ele sorrir e posso jurar que já vi esse sorriso antes.
— Não exatamente, mas passei muito tempo fora. — Explica e me prendo em suas palavras. Ele era daqui, mas conseguiu sair desse lugar e ainda assim, voltou.
Por que ele voltou? Isso é loucura.
— Você é rico, não é? — A louca que chamo de sócia e melhor amiga Indaga, avaliando o homem de cima a baixo na maior cara de p*u. — Essas roupas são típicas de gente rica, nunca vi um terno assim. — Ela acrescenta, provocando uma careta engraçada no homem.
— Achei que tivesse estilo. — Ele tenta brincar, mostrando os dentes com um sorriso mais verdadeiro, enquanto gira no meio da loja e nos oferece a chance de uma checagem por mais de um ângulo.
— Bela b***a. — Darlene assovia e tampo eu boca. Eu juro que ela é louca.
— Quieta. — Digo baixo em seu ouvido, enxergando pela primeira vez o sujeito como um possível cliente.
— Um minuto. — Peço, erguendo meu dedo indicador e puxo Darlene pelo braço para um isolado da loja, antes que ele tenha a chance de falar qualquer coisa.
— Você o quer? — Me questiona, virando o rosto para espiar o sujeito.
— O quê?
— O bofe é lindo, amiga. Tem um olhar marcante e um sorriso perfeito, você viu o tamanho dos braços? — Fala tudo em tom de segredo, em um cochicho baixo que mesmo perto, tenho dificuldade para entender, porque ela costuma falar rápido quando se empolga e embola tudo. Ela se abana com as mãos e finge um desmaio. — Aquela b***a deveria ser patrimônio público.
— Pare de olhar. — Resmungo, dando um sorriso amarelo pro sujeito.
— Você o quer? — Refaz a pergunto e a olho sem paciência. Darlene é uma pessoa maravilhosa, de um coração enorme e possui a mesma vontade que eu de vencer na vida. Nos conhecemos pequenas na escolinha, ela é dois anos mais velhas e acabou me tomando como a irmã caçula que nunca teve. Nós duas temos a mesma vontade de vencer na vida, por isso, abrimos a gota de verão, a única loja de moda praia da ilha até agora. O único problema é que ela é uma romântica incurável, se apaixona rápido demais e insiste em seguir pela vida de solteira porque n**a ser alguém pra casar, ter filhos e cachorro.
— Não, eu nem sequer o conheço direito. Aliás, nenhuma de nós duas conhece. Pare de olhar! — Acabo me exaltando e ela se assusta.
— Larga a mão de ser careta, Nandinha do meu coração. Eu só gosto de me aventurar e explorar o desconhecido é minha atividade favorita.
— Desde quando?
— Desde que eu tenho conhecimento que um homem desses não aprece duas vezes, tô cansada de pegar os boys lixo dessa ilha. Eu mereço mais e minha vida merece mais adrenalina.
— Você não tem jeito, eu tô lavando minhas mãos. Você desconhece a palavra cautela.
— A vida é curta, bebê. Ter cautela pra quê? Desconheço tal palavra mesmo, quero me perder naquele corpo musculoso ali. — Seu tom é de travessura com um toque de malícia.
— Seu irmão tem razão, você é louca. — Digo e ela estala a língua, enrolando um de seus cachos no dedo.
— É intriga da concorrência, ele sabe que peguei todo o carisma pra mim. — Diz debochada e começamos a rir.
Não temos maturidade pra isso.
— Certo, agora o papo é sério.
— Eu tô falando sério. — Rebate e inspiro e solto o ar três vezes.
— Esse tal Diego pode ser um cliente. — Revelo meus pensamentos e ela solta um som de compreensão.
— Nós dormimos com clientes? — Pergunta com a testa franzida, inclinando a cabeça para mais próxima da minha. Falando tudo em tom de segredo.
— Não.
— d***a! — Nós duas viramos para dar mais uma olhada no homem e o pegamos avaliando a parte inferior do nosso mais novo modelo de biquíni.
— Isso cobre alguma coisa? — Questiona, centrado na peça em suas mãos.
— Depende do que você quer cobrir, benzinho. — Darlene diz, pegando a calcinha do biquíni para si. Fazendo sua própria avaliação. — É sexy sem ser apelativa. Isso aqui é clássico. — Explica e homem parece perdido.
— Desculpa toda a demora e confusão. Meu nome é Ananda e essa aqui é a Darlene, minha sócia. — Ofereço a mão para um aperto e ele aceita.
— Lene para os íntimos. — A doida diz.
Mentirosa. Ela odeia apelidos.
— Gosto de Darlene. — Ele fala, aceitando o aperto de mão dela. — É um nome forte e exótico, combina com você.
— Certeza que não quer ficar íntimo? — Ela fala e piso no seu pé. Ela grita e finjo uma tosse para disfarçar.
— O que aconteceu?
— Você é cliente e minhas chances de provar do seu pirulito foram para o espaço junto do meu dedo mindinho, mas o me traz sofrimento é saber que nunca saberei com quantos pais se faz uma canoa.
— Como? Eu acho que não entendi.
— Você é cliente? — Pergunto e ele me encara.
— Na verdade, não. Estou aqui para falar com você. — Diz, me pegando de surpresa.
— Comigo?
— Sim, me chamo Diego Saldanha de Campos Belos, conheci seu irmão e estou aqui à pedido de alguém que nutria muito apreço por ele e quer te conhecer pessoalmente.
— Eita! — Darlene exclama, apoiando sua mão em meu ombro.
— Quem?
— Pedro Cavallari, também conhecido como meu melhor amigo. Ele quer conversar com você, Ananda, mas não pode vir devido alguns problemas pessoais. Se importa de me ceder um pouco do seu tempo?
Falar do meu irmão é um assunto que tenho evitado desde o seu enterro, mas sempre engulo o nó na garganta quando minha mãe ou pessoas próximas a nós falam sobre ele. Faço por respeito as memórias que todas essas possuem dele, mas não vou conversar com um estranho que eu nunca vi na vida sobre meu irmão.
— Importo-me, tenho muita coisa pra fazer. Também não quero contato algum com seu amigo, se Nataniel fosse assim, tão importante para ele, Pedro teria vindo até nossa casa e falado diretamente com minha mãe.
— Ananda, Pedro quer ajudar. Ele prometeu ao seu irmão que faria de tudo para fazê-las felizes. — Meu estômago embrulha, aperto minhas mãos em punhos e me esforço para não mandar ele e seu amigo ir tomar naquele lugar. Não preciso dele ou de sua família, não acredito em nada que qualquer um deles fale.
— Diga ao seu amigo que o estou liberando da promessa, a partir de hoje está livre desse martírio e qualquer coisa que ele tenha combinado com meu irmão não faz mais sentido Nataniel está morto e eu posso cuidar de mim e da minha mãe.
— Ele não volta atrás quando faz uma promessa. — Fala com confiança.
— Não me importa. Não preciso dele.
Ele gargalha.
O i****a gargalha alto como se eu tivesse lhe contado uma piada.
— Você com certeza não o conhece, mas respeito sua posição. Passarei seu recado, até breve, meninas. — Faz um acena com a cabeça e desvia o olhar para Darlene, que ao contrário de minutos atrás, se mantém indiferente a presença e olhar do homem. Ele sai pelo mesmo lugar que entrou sem olhar pra trás, quando tenho certeza que estou sozinha com minha melhor amiga, consigo relaxar. Deixo meus ombros cair e descanso minha cabeça em seu ombro.
— Não entendo como Nataniel pode fazer amizade com aquele sujeito, Darlene. Todo mundo sabe que a família dele foi responsável pela morte de papai.
— Tudo bem, bebêzinha. Você não precisa se encontrar com ele, nós vamos ficar ricas.
— Ele estava no cemitério. — Falo, com seu rosto gravado em minha mente.
— Eu sei. Eu sei.
— O que ele quer ? — Pergunto mais pra mim mesma do que pra ela.