ANANDA GURGEL
O canto dos passarinhos invade o quarto pela pequena brecha da janela velha e me faz resmungar pelo barulho indesejado tão cedo. d***a. Eu me sentiria a própria Cinderela se a cantoria não indicasse que já é de manhã e nenhum príncipe veio me resgatar. São seis meses desde que enterrei meu irmão e sinto como se fosse ontem, mamãe vive em um constante estado de luto, acordando toda madrugada aos gritos.
Não tenho dormido.
Minha vontade é ficar deitada nessa cama o dia inteiro, ignorar o mundo lá fora e me afogar na tristeza que não deixa meu peito, mas não posso, tenho que cuidar da Dona Virgínia, porque sou a única que restou que pode fazer isso. Sou tudo o que ela tem, assim como ela é tudo o que tenho.
Nossa relação nunca chegou aos pés da que tinha com Nataniel, mas eu fiquei aqui quando ele partiu e agora, mais do que nunca, preciso ser tudo o que ela precisa. Por esse motivo, reúno minha energia e saio da cama com cuidado, caminho em passos leves até seu quarto, que fica ao lado do meu e abro sua porta com uma lentidão dolorosa até que caiba metade do meu corpo, a espio deitada na cama, sua aparência mais debilitada devido à falta de alimentação.
— Não precisa ficar me espiando, entre.— Ela resmunga, abrindo um só olho e sorrio sem graça por ter sido pega em flagrante, faço o que manda e adentro o quarto, me deito ao seu lado e puxo a coberta sobre nossos corpos.
— O que vai querer para o café da manhã? — Enrolo meus braços ao seu redor e ela solta um grunhido baixo, mas não me afasta.
— Você não vai trabalhar hoje?
— Darlene vai abrir hoje, posso chegar um pouco mais tarde. — Explico e ela se mexe, virando o rosto de frente para o meu.
— Como vai a loja?— Sua curiosidade repentina me enche de felicidade e uma centelha de esperança se ilumina em meu interior, os olhos verdes contendo um pouco mais de ânimo do que nos demais dias também me servem como combustível para acreditar que em breve a terei de volta.
— Ainda não temos tanta clientela, mas as coisas estão se ajeitando lentamente. Em breve, terminarei os novos modelos de biquíni e pegaremos pesado com a divulgação. — Ela sorrir, um sorriso fraco, mas um sorriso que há muitos dias não via. Já é um começo.
Obrigado, Senhor.
— Tenho tanto orgulho de você, querida.— Acaricia meu rosto, levando meus cachos para a parte de trás da minha orelha e liberando meu rosto.— Sinto muito ter se tornado um peso.
— Não... Não, fale isso.— Enxugo suas lágrimas e beijo sua mão. — Você é minha rainha, minha inspiração e não um peso. Eu só preciso que você lute comigo, mamãe.
— Não consigo, não posso. A ordem natural seria eu ir primeiro e não o contrário, a minha vontade de viver se foi junto com o seu irmão.
— Eu ainda estou aqui, mãe. A senhora ainda me tem, por favor, lute por mim, lute comigo. — Imploro, sentindo meus olhos queimarem com tantas lágrimas presas. Ela n**a com a cabeça, parecendo tão perdida e sem vida que tenho medo de perdê-la também.
— Você sempre foi independente, Alana. Nunca precisou de mim pra nada, sou um estorvo pra você. O melhor é que eu me junte ao seu irmão. — O nó se forma em minha garganta e não seguro mais o choro, tenho sido forte por nós duas todo esse tempo, mas sinto que não consigo mais fazer isso.
Sinto medo todas as noites, fecho os olhos tentando convencer-me de que ela não tentará nada contra sua própria vida e falho miseravelmente. A grande verdade é que não reconheço mais a mulher na minha frente, Virgínia Gurgel, minha mãe, sempre foi uma figura de força e coragem, mas essa que fala de morte não passa de um espectro.
— Chega! Não serei mais conivente com essa situação. A senhora vai se levantar, tomar um banho e descer para tomar café comigo. Depois nós duas iremos até a praia.— Enxugo minhas lágrimas e pulo pra fora da cama.
Um sorriso fraco se forma em seus lábios e seu semblante muda para algo mais suave, embora a tristeza ainda seja destaque em seu olhar.
— Seu irmão adorava ir a praia, você lembra? Ele amava o barulho do mar. — Ela solta uma risada frouxa e se ajeita no colchão, procurando por algo embaixo da coberta. — Tão lindo. — Acaricia uma foto antiga do meu irmão, uma de quando ele tinha apenas cinco anos e brincava na areia. Meu estômago embrulha.
— Mamãe... — Meu tom sai embargado.
— Vamos levar flores para ele amanhã, Alana. Seu irmão amava me ajudar no jardim.
— Mãe...
— Eu vi aquela garota ontem olhando pra cá de novo, ela não foi ao enterro do seu irmão.
Fecho os olhos, conto até dez.
— Qual era mesmo o nome dela?— Volta a falar.
1,2,3...
— Glória Maria. — Consigo falar, mesmo com a minha voz saindo falhada.
— Seu irmão foi embora por causa dela.— Fala e reinicio minha contagem do zero.
Não. Ele não foi. Nataniel tinha suas próprias merdas e seu principal objetivo era deixar a d***a dessa ilha. Mas eu me vinguei dela mesmo assim.
— Se a pegar olhando pra cá novamente, me diga e eu resolverei. — Abro meus olhos e a pego olhando pra mim.
—Talvez vocês devessem ser amigas, seu irmão iria gostar disso. — Seus olhos brilham com a perspectiva e meu coração dói por não ser capaz de lhe dar isso.
— Espero a senhora para o café da manhã. — Deixo o quarto dela e vou direto para o banheiro no corredor, tiro toda minha roupa e fico pelo menos dez minutos debaixo do chuveiro.