dante

1210 Words
Helena m*l conseguiu dormir. As palavras do pai ecoavam em sua mente. "Faço aquele garoto apodrecer na cadeia." Ela conhecia Joaquim melhor do que qualquer pessoa. Sabia que aquilo não era uma simples ameaça. Se fosse preciso, ele realmente destruiria a vida de Dante. Sentada diante do espelho, levou a mão até o colar de conchas. As lágrimas voltaram a cair. — Me perdoa... — sussurrou. Pouco depois, saiu de casa sem que ninguém percebesse. Seguiu pelo caminho de terra até a beira do rio, onde costumavam se encontrar desde crianças. Dante já estava lá. Assim que a viu, sorriu. — Eu sabia que você viria, anjo. Helena sentiu o coração apertar. Queria correr para os braços dele. Queria dizer que o amava. Queria pedir que nunca a deixasse. Mas lembrou-se da ameaça do pai. Respirou fundo. — Vim me despedir. O sorriso de Dante desapareceu. — Do que está falando? Ela evitava encará-lo. — Pensei muito esta noite... e meu pai tem razão. Dante franziu a testa. — Helena... — Nós nunca vamos dar certo. Ele deu um passo à frente. — Olha para mim. Ela permaneceu imóvel. — Olha para mim, Helena. Quando seus olhos finalmente se encontraram, Dante percebeu que ela estava chorando. — Você não acredita no que está dizendo. Helena engoliu o choro. Precisava feri-lo. Era a única maneira de salvá-lo. — Acredito, sim. Ela respirou fundo. — Cansei de brincar de fazendinha. Eu sou a filha de um homem rico. Você... é apenas o filho de uma lavadeira. As palavras saíram como facas. Dante permaneceu em silêncio. Ela continuou. — Meu pai estava certo. Eu mereço alguém do meu nível. Alguém que possa me dar uma vida boa. Dante sorriu, mas havia dor naquele sorriso. — Nem você acredita nisso. Helena apertou os punhos. — Vá embora, Dante. O vento balançava seus cabelos enquanto ela lutava para não desabar. — Esqueça que eu existo. Ele permaneceu olhando para ela por longos segundos. Depois perguntou, com a voz baixa: — É isso mesmo que você quer? O mundo de Helena parecia desmoronar. Seu coração gritava para dizer "não". Para correr e abraçá-lo. Para contar toda a verdade. Mas ela apenas fechou os olhos por um instante. Então mentiu pela primeira vez para o homem que amava. — Sim. Dante permaneceu imóvel. Assentiu lentamente com a cabeça. — Entendi. Ele deu mais um olhar para Helena. Não havia raiva. Apenas uma tristeza profunda. — Espero que nunca se arrependa dessa escolha. Sem dizer mais nada, virou as costas e começou a caminhar. Helena esperou até que ele desaparecesse entre as árvores. Só então caiu de joelhos na margem do rio. Abraçada ao próprio corpo, chorou como nunca havia chorado na vida. Naquele dia, Helena destruiu o próprio coração para salvar o homem que amava. Dante não olhou para trás. Durante anos, acreditou que bastava trabalhar, crescer e provar o seu valor para um dia pedir Helena em casamento. Sonhava em construir uma casa simples, formar uma família e envelhecer ao lado da única mulher que já havia amado. Naquele instante, todos aqueles sonhos morreram Ele voltou para a pequena casa onde morava com a mãe. Entrou em silêncio. A mulher percebeu imediatamente que algo havia acontecido. — O que foi, meu filho? Dante começou a colocar poucas roupas numa velha mala. — Vou embora. Ela arregalou os olhos. — Embora? Para onde? — Ainda não sei. — Foi por causa da Helena? Ele parou por um instante. Apertou a mandíbula antes de responder. — Ela deixou bem claro que nunca fui bom o bastante para ela. A mãe aproximou-se devagar. — Eu conheço aquela menina desde pequena. Ela jamais diria isso sem um motivo. — Disse, mãe. Sua voz saiu amarga. — Disse olhando nos meus olhos. A mulher segurou o seu braço. — Não vá embora com ódio no coração. Dante sorriu sem alegria. — Não é ódio. Fechou a mala. — É a última coisa que ainda me resta. Na casa grande, Helena observava pela janela do quarto. O seu coração disparou ao ver Dante atravessar a estrada com uma mala nas mãos. Ela levou a mão ao vidro. Quis correr. Quis gritar o seu nome. Quis contar toda a verdade. Mas permaneceu imóvel. As lágrimas escorriam silenciosamente pelo seu rosto. Dante não olhou para trás nem uma única vez. Quando passou pelo antigo portão da fazenda, fez uma promessa apenas para si. Voltaria para aquela fazenda um dia, compraria a fazenda de Joaquim, e tomaria Helena como esposa. Na varanda da casa grande, Joaquim assistia à cena de braços cruzados. Um discreto sorriso surgiu em seu rosto. Ele acreditava que havia vencido. Mal sabia que, naquele dia, não estava expulsando apenas um rapaz apaixonado. Estava dando ao destino um motivo para transformá-lo no homem que, dez anos depois, voltaria para tomar tudo aquilo que um dia lhe foi negado. A velha camionete seguia pela estrada de terra enquanto a fazenda desaparecia no horizonte. Dante mantinha o olhar perdido pela janela. A cada quilómetro percorrido, sentia que deixava para trás não apenas um lugar, mas toda a vida que conhecia A viagem durou o dia inteiro. Quando a noite caiu, o motorista parou em um pequeno hotel de beira de estrada para descansar. Dante alugou um quarto simples. O lugar era modesto, mas era suficiente para passar a noite. Depois de um banho demorado, ele se aproximou da cama e abriu a velha mala para pegar uma roupa limpa. Enquanto retirava as poucas peças que havia levado, percebeu um envelope preso entre o forro da mala e uma das camisas. Franziu a testa. Tinha certeza de que aquele envelope não estava ali quando fez a mala. Na frente, reconheceu imediatamente a caligrafia da mãe. Seu coração acelerou. Com cuidado, abriu o envelope. A primeira coisa que encontrou foi uma fotografia antiga. Nela, um menino de aproximadamente três anos estava sentado no colo de um homem elegante, usando um terno caro e um relógio de ouro. Dante nunca tinha visto aquele homem. Virou a fotografia. No verso havia apenas duas palavras. "Seu pai." Confuso, abriu o bilhete. "Meu filho..." "Se você está lendo esta carta, é porque chegou a hora de conhecer a verdade." "O homem da fotografia é seu pai." "Quando você era apenas uma criança, eu fugi levando você comigo. Não suportava mais as agressões, as humilhações e o medo de que um dia ele tirasse a nossa vida." "Saí sem deixar qualquer rastro. Preferi que ele acreditasse que jamais nos encontraria novamente." "Durante todos esses anos, escondi essa verdade porque queria que você tivesse uma infância longe da violência." "Agora você já é um homem, e essa decisão não me pertence mais." "Dentro deste envelope há um endereço. Se desejar conhecer suas origens, siga seu coração." "Não importa qual seja sua escolha, nunca deixe que o ódio defina quem você é." Dante permaneceu imóvel por vários minutos. Embaixo da carta havia um pequeno papel dobrado. Nele estava escrito um endereço. Ele olhou novamente para a fotografia. Depois para o endereço. Naquela noite, ainda sem saber o que encontraria, tomou uma decisão. Na manhã seguinte, seguiria para conhecer o homem que, durante toda a sua vida, existiu apenas como uma pergunta sem resposta.
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