Sonho real

729 Words
No estacionamento, avistei um garoto encostado em um carro, com fones nos ouvidos. Tinha um olhar de desdém no rosto. Como se nada ao seu redor tivesse importância real. Passei pelo novato que tirou os fones e me encarou. Girou a cabeça acompanhando o meu caminhar quando eu passei. Diferente do Alef, deste garoto eu gostei. Ele era moreno, pele clara, alto e magro. De que tipo de música será que ele gosta? Encontrei o Alef no armário. _ Bom dia, Sofia. _ Bom dia, Alef _ peguei meus livros _ Viu o novato? Me olhou surpreso _ Um novo aluno? _ Sim _ sorri e segui para a sala de aula. O novato sentou na minha frente. Ficava me olhando sempre. Me dava uma coisa estar no seu olhar. Me sentia atraída por ele. _ Bom dia _ disse o sr. Messie ao entrar _ Um aluno novo. Se apresente para a classe, por favor. _ O meu nome é Ades Iron _ falou como se discursasse, imponente, a sua voz era firme. Lançou um olhar afiado sobre o Alef antes de sentar. Os dois altões se conheciam. Fiquei curiosa. No intervalo, Ades ficou ao meu lado na fila da comida. _ E aí, Sofia? _ puxou assunto, nenhum sorriso ao me olhar. _ Que música você curte? _ Clássico. _ Hum _ fiz uma careta. _ Música é música, Sofia. _ Não é não. Deu uma risada. Sentou comigo. _ O Alef não para de olhar para cá. Vocês são amigos? _ Não olha pra ele não? _ pedi. Mas assim que eu olhei em direção ao Alef, ele caminhou em nossa direção. O Alef sentou ao meu lado e encarou o Ades, sem dizer uma palavra, mas pelo jeito que se olham pareciam conversar. Comecei a comer ignorando eles que só se encaravam. Ades era muito diferente do Alef, havia uma aura sombria ao redor dele, algo gótico e misterioso. Pareciam dois opostos. _ De onde vocês se conhecem? _ quebrei o gelo. Ades sorriu divertido para o Alef, esperou ele responder. _ Da antiga escola _ o tom do Alef foi imparcial, mas a sua expressão era de quem adoraria fazer aquele sorriso sumir com um soco bem dado na cara do Ades. _ O que há entre vocês dois? _ fiquei muito curiosa pra deixar de perguntar. _ Divergência de opiniões _ Ades cruzou os braços sobre o peito _ Nos ajude com isso Sofia? Eu acho que a natureza deve seguir o seu curso, tudo acaba um dia. O velho morre e o novo nasce, tudo acaba e recomeça. _ Não tão cedo _ o tom do Alef foi um quase rugir. Olhei para o Alef, sua hostilidade me fez querer vê-lo. Seu rosto tinha uma seriedade assustadora, como o semblante de um guerreiro contemplando o adversário antes de matá-lo. Gargalhei meio nervosa me voltando para a minha comida. Dava pra acreditar naqueles dois?! _ Olha. Eu não faço a menor idéia do que diabos há de errado com vocês dois. Me fitaram com uma cara de desagrado diante da palavra “diabos”. Ignorei, me levantando com o meu almoço. Continuei. _ Até vocês resolverem os seus problemas, fiquem longe de mim. Entenderam? Saí de perto deles, fui pra outra mesa vazia. Conversaram sobre algo, depois que eu saí. Almoçaram juntos. Deviam ter mais em comum do que a hostilidade deixava transparecer. Ades também estava em todas as minhas aulas, como o Alef. Durante a segunda aula após o almoço, precisávamos fazer um trabalho em dupla. O Ades foi mais rápido que o Alef. Deu de ombros para o olhar de raiva do Alef ao notar. Ri divertida. O Ades fez o trabalho todo sozinho e rapidinho. Encostou a folha de lado, se voltou pra mim. _ Você toca algum instrumento, Sofia? _ Bateria e baixo. Por quê? _ Preciso de um baixista para uma musica que eu compus _ me entregou a partitura. Depois de ler fiquei impressionada _ Música irada! O que você toca? _ Violino e piano. Compus essa música para um baixo e um violino. Depois da aula, na minha garagem. Pode ser? Olhei em seus olhos azuis sinceros. _ Pode. Trocamos contatos e endereços. Separamos as duplas quando a aula acabou. Estava indo pra o armário, quando o Alef segurou o meu braço, me fazendo parar. _ Que liberdade é está! _ reclamei fitando-o. _ Não pode ser amiga do Ades, Sofia. Ele não é bom. _ Isso quem decide sou eu, Alef _ fiz que não com a cabeça, estava descrente da sua atitude. _ Sofia, me escuta... _ Não _ ri descrente olhando-o de cima a baixo e saí. Deixei a mochila em casa, e peguei o meu baixo, indo direto para a casa do Ades. Fui recebida pelo Ades com um sorriso de satisfação. A sua casa era impecavelmente limpa. _ Os seus pais? _ Trabalhando. Parou na cozinha e me entregou uma garrafa de água mineral e pegou outra pra ele. Seguimos para a garagem. Afinamos os instrumentos. _ Trouxe o meu teclado _ a voz do Alef veio da porta de acesso interna, da casa pra a garagem. Olhamos ao mesmo tempo. _ Você chamou ele? _ perguntei ao Ades. _ Eu não _ o tom da voz do Ades era divertida. Alef me olhou ao passar. Deixou bem claro que estava aqui por minha causa. Revirei os olhos. Começamos a ensaiar e a musica ficou ótima com nós três. _ Para quê é isso? _ o Alef quis saber. _ Show de talentos da escola _ disse Ades _ Se a Sofia topar. _ O Show de Talentos só vai acontecer daqui há três meses _ o Alef apontou. _ É tempo suficiente para brincar de gato-e-rato, não é mesmo? _ ao dizer, Ades tinha um sorriso de lado para o Alef. Guardei o meu baixo. Estava pronta para ir para casa. Os outros fizeram o mesmo. _ Podíamos pedir uma pizza e ver um filme _ o Ades ofereceu _ O que me dizem? _ Fica pra próxima _ dei um beijo no rosto de cada um, e segui para fora da casa e de lá para o meu carro. _ Sofia! _ disse o Alef que vinha até mim _ Me dá uma carona? Fiz que sim com a cabeça antes de entrar no carro e o Alef sentar no banco do carona. Me entregou uma rosa vermelha. Olhei para ele confusa, vendo-o sorrir. _ Obrigada _ coloquei a rosa no banco de trás. Me feri no espinho _ Ai! Alef pegou a minha mão, antes que eu a levasse à boca, e beijou o meu dedo tomando o meu sangue. Olhava em meus olhos ao fazê-lo. Beijou os meus lábios em seguidas. Deve ter notado o quanto achei excitante a sua atitude. Mas o beijo... o beijo me fez lembrar do anjo nos meus sonhos. Retribui ao beijo. _ O filtro se quebrou _ sorriu me olhando bem perto. _ Você é mesmo humano! _ Eu te disse que fui banido, Sofia. Olhou pela janela vendo o Ades na porta da casa _ Vamos sair daqui. Liguei o carro e fui para a minha casa. _ Por quê você foi banido? _ perguntei assim que entramos na minha casa. Fechei a porta atrás de mim. _ Porquê me apaixonei por você... Criei livre-arbítrio, como um ser humano. Era incrível como me sentia diferente quanto ao Alef agora. Como pude odiá-lo por semanas, e sem motivo algum, quando, na verdade eu o amava? Me abraçou e me beijou enquanto eu retribuía. _ Vou pedir uma pizza _ falei me afastando para o telefone, na cozinha. _ Mas o Shane deixou o jantar pronto pra você _ retrucou apontando pra a geladeira que abriu. Desliguei o telefone vendo ele tirar tudo da geladeira e por para aquecer, como se tivesse morado conosco a minha vida toda. Fez uma salada tão rápido que me deixou tonta. _ Comida saudável, quentinha e na mesa _ disse pondo a mesa. Sorriu para mim puxando a cadeira para que eu sentasse. Me sentei surpresa. Pôs o seu celular para tocar Bon Jovi sobre a mesa enquanto comíamos. Estávamos lavando a louça juntos. _ O que há de errado como o Ades? _ toquei no assunto. _ Ele é um anjo também _ falou fechando a cara. Terminamos de lavar a louça e fomos para o meu quarto. O Alef se sentou na minha cama, com os pés em cima, e me apoiou sobre o seu peito. _ Você lembra que quase morreu duas vezes? Segurava a minha mão na sua enquanto falava. Ambos observávamos como elas se encaixavam. _ Sim. _ Existe um tempo, perto da morte de cada ser, em que ele é acompanhado por um anjo da morte. O seu anjo da guarda se afasta. Entende? _ O Ades é o meu anjo da morte? _ Sim. Ele está aqui há algum tempo. Se materializou quando eu o impedi de te levar. Não sei quais são os planos dele, mas sei qual é o seu propósito. E vou impedi-lo. Olhei nos seus olhos. _ Por quê quer impedi-lo, Alef? Eu já morri e renasci muitas vezes. Então, por quê você se sente assim agora? _ Por que você me tornou especial nesta sua vida, como Sofia. E... eu não quero perder isto. Eu não quero perder você. _ Onde está a sua fé, meu anjo? Nunca te disseram que nada acontece por acaso?
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