Capítulo 2 — Verdades Que Sangram

1131 Words
A noite não terminou na calçada molhada. Ela apenas começou ali. Isadora caminhava sem direção pelas ruas de Santa Serena, sentindo cada passo como se estivesse atravessando um campo minado de memórias. O coração batia rápido demais. A mente girava. As certezas que sustentaram sua dor por anos começavam a ruir, e isso era ainda mais assustador do que a própria mágoa. Gabriel não tinha ido embora por falta de amor. Ele tinha ido embora por medo. E isso mudava tudo. Ou talvez não mudasse nada. Porque, se o amor deles era tão forte, por que foi tão fácil destruí-lo? Ela parou diante da antiga ponte de madeira. A mesma onde, anos atrás, prometeram que nenhum obstáculo seria maior que o que sentiam. O rio corria abaixo, constante, indiferente aos dramas humanos. A vida nunca tinha parado. Apenas eles ficaram presos no passado. — Você sempre vem aqui quando precisa pensar. A voz de Gabriel surgiu atrás dela. Isadora não se virou imediatamente. Parte dela queria que ele estivesse ali. Outra parte queria fugir antes que o orgulho cedesse. — Algumas coisas não mudam — ela respondeu, firme. Ele se aproximou devagar, como quem teme espantar algo frágil. — Eu voltei antes de saber que você estava noiva — ele disse. — Voltei decidido a enfrentar seu pai. A enfrentar qualquer coisa. Mas você já estava usando aquele anel. Isadora fechou os olhos. O noivado. O capítulo que ela preferia manter enterrado. — Eu aceitei porque estava cansada de esperar — confessou. — Cansada de amar sozinha. Gabriel sentiu o peso daquela frase como um golpe direto. — Eu nunca deixei de te amar. Ela finalmente se virou, os olhos marejados, mas desafiadores. — Amar não é só sentir, Gabriel. Amar é ficar. O silêncio que veio depois era denso, quase palpável. O vento soprou mais forte, trazendo o cheiro da chuva que ameaçava voltar. A cidade parecia respirar junto com eles. — Eu precisei escolher entre você e o futuro que eu lutei para conquistar — ele continuou. — Seu pai deixou claro que destruiria minha residência médica. Eu não tinha família influente, não tinha recursos. Eu tinha você… e tinha medo de que, ficando, acabasse te arrastando comigo. — Você decidiu por mim — ela retrucou. — Eu decidi errado. As palavras pairaram no ar. Errado. Simples. Direto. Tarde demais. Isadora sentiu o coração vacilar. Durante anos, alimentou a narrativa de que ele não a amava o suficiente. Era mais fácil odiá-lo do que aceitar que o mundo havia conspirado contra dois jovens inseguros. Mas havia algo que ele ainda não sabia. E que mudaria tudo novamente. — Meu noivado terminou por sua causa. Gabriel franziu o cenho. — Como assim? Ela respirou fundo. — Ele percebeu que eu nunca estava inteira. Que sempre existia alguém ocupando um espaço que não era dele. — A voz dela falhou pela primeira vez. — Ele disse que eu parecia viver à espera de um fantasma. Gabriel sentiu o chão desaparecer sob seus pés. — Eu nunca quis ser um fantasma na sua vida. — Mas foi o que você se tornou. A verdade doía. Não era dramática, não era exagerada. Era crua. Um amor interrompido não morre. Ele assombra. O céu finalmente cedeu, e a chuva começou a cair outra vez, fina, persistente, como se lavasse camadas antigas de ressentimento. Gabriel deu mais um passo. — Me deixa tentar de novo. A frase não foi grandiosa. Não houve promessas impossíveis. Apenas um pedido. Isadora o encarou com intensidade. — Você entende o que está pedindo? — Entendo que eu errei. Entendo que o tempo não volta. Mas também entendo que o que eu sinto nunca foi substituído. E, se ainda houver qualquer chance… eu não vou fugir outra vez. Ela queria acreditar. Deus, como ela queria. Mas amar novamente significava baixar as defesas. Significava confiar. Significava correr o risco de sangrar outra vez. — Eu não sou mais a garota de dezoito anos que acreditava que amor resolvia tudo — ela disse. — E eu não sou mais o garoto que fugiu. A chuva agora molhava seus cabelos, suas roupas, misturando lágrimas invisíveis à água que escorria. — Eu construí minha vida sem você — ela continuou. — Aprendi a ser forte sozinha. Aprendi a não precisar. — Amar não é precisar — ele respondeu. — É escolher. Aquela palavra atravessou as barreiras dela. Escolher. Não por carência. Não por medo. Não por nostalgia. Mas por vontade. O som de um carro freando bruscamente na rua próxima quebrou o momento. Um grito ecoou ao longe. Instintivamente, Gabriel se virou, o instinto médico mais rápido que qualquer emoção. — Fica aqui — ele disse, correndo na direção do som. Isadora hesitou apenas um segundo antes de ir atrás. Na esquina, um adolescente estava caído no chão, bicicleta destruída ao lado. O motorista, em choque, tentava explicar que o garoto atravessou sem olhar. Gabriel ajoelhou imediatamente, avaliando sinais vitais, pressionando um ferimento na cabeça. — Ele está consciente! — disse firme. — Precisamos chamar uma ambulância agora! Isadora pegou o telefone com mãos trêmulas, mas voz firme ao falar com o atendimento. Enquanto Gabriel trabalhava sob a chuva, concentrado, determinado, ela o observava. Ali estava o homem que ele se tornou. Não o jovem inseguro. Não o rapaz que partiu. Mas alguém que enfrentava o caos sem fugir. O garoto foi levado pela ambulância minutos depois. Não era grave. Sustos, cortes, nada fatal. Gabriel permaneceu parado por alguns segundos após o veículo partir, a respiração pesada. Quando se virou, encontrou Isadora olhando para ele de uma maneira diferente. Não havia apenas dor ali. Havia admiração. — Você nunca deixou de correr na direção do problema — ela disse. Ele soltou um riso breve. — Só demorei para correr na direção certa. Os dois ficaram ali, sob a chuva que agora diminuía novamente. A vida tinha acabado de lhes lembrar algo importante: o tempo é frágil. As chances são frágeis. Isadora deu um passo à frente. Não era rendição. Não era perdão completo. Era abertura. — Eu não prometo que será fácil. — Eu não quero fácil. — Eu não sei se consigo confiar totalmente. — Então me deixa provar. O coração dela batia descompassado. Talvez amar de novo não fosse sobre apagar o passado. Talvez fosse sobre encará-lo juntos. Ela estendeu a mão. Não como antes, ingênua, cheia de promessas eternas. Mas como alguém consciente do risco. Gabriel segurou. E, naquele toque, não havia apenas memória. Havia escolha. Mas o destino, que sempre observava em silêncio, ainda guardava segredos que nenhum dos dois imaginava. Porque algumas verdades libertam. Outras… sangram. E a próxima que surgiria colocaria à prova não apenas o amor deles, mas tudo o que acreditavam saber sobre a própria história.
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