Capítulo 3 — O Segredo Que Nunca Dormiu

1111 Words
Na manhã seguinte, Santa Serena acordou diferente. O céu estava limpo, azul quase indecente, como se a tempestade da noite anterior tivesse sido apenas um delírio coletivo. Mas, para Isadora, nada estava claro. Por dentro, tudo era neblina. Ela não dormiu. Cada palavra de Gabriel ecoava em sua mente. Cada explicação. Cada arrependimento. Cada “eu decidi errado”. Segurar a mão dele na ponte não tinha sido um impulso. Foi consciente. Foi perigoso. E foi real. Mas a vida nunca permitia que eles respirassem por muito tempo. Às nove da manhã, enquanto organizava documentos no escritório, sua secretária anunciou: — Seu pai está aqui. O ar pareceu rarear. Augusto Monteiro não era apenas um homem influente na cidade. Era uma presença. Um daqueles que entram em um ambiente e o ar muda de densidade. Empresário respeitado, postura impecável, voz sempre controlada. Para o mundo, um exemplo. Para Isadora… uma sombra longa demais. Ele entrou sem sorrir. — Precisamos conversar. Ela fechou a porta do escritório lentamente. — Imagino que sim. Augusto caminhou até a janela, observando a cidade como se fosse propriedade sua. — Soube que você foi vista ontem à noite. A forma como ele disse “vista” tinha peso. Julgamento. Controle. — Eu não sabia que precisava de autorização para andar pela cidade — ela respondeu, firme. Ele ignorou. — Gabriel Alcântara voltou. Não era pergunta. Era acusação. — Sim. O silêncio que se instalou era antigo. Conhecido. Carregado de tudo o que nunca foi dito. — Eu achei que aquele capítulo estivesse encerrado — Augusto afirmou. — Não estava — ela respondeu, mais para si do que para ele. Ele finalmente se virou, os olhos duros. — Você não faz ideia do que está mexendo. O coração dela apertou. — Então me explica. Augusto sustentou o olhar por longos segundos. E, pela primeira vez em muitos anos, pareceu hesitar. — Algumas decisões que eu tomei no passado foram necessárias. — Necessárias para quem? — a voz dela começou a falhar, mas não perdeu força. — Para mim ou para o seu orgulho? Ele se aproximou da mesa. — Eu impedi aquele relacionamento porque sabia que ele não poderia te oferecer estabilidade. — Você o ameaçou. A palavra caiu entre eles como uma bomba. Augusto não negou. — Eu protegi você. — Me protegendo do quê? De ser feliz? O rosto dele endureceu. — De um escândalo. O mundo de Isadora pareceu inclinar. — Que escândalo? Augusto respirou fundo. — A família Alcântara não é tão limpa quanto você imagina. O nome reverberou. — Seja claro. Ele hesitou novamente. — O pai de Gabriel esteve envolvido em um processo grave anos atrás. Um desvio milionário no hospital regional. Houve investigação. Abafaram. Mas eu tinha acesso às informações. Isadora sentiu o sangue gelar. — E o que isso tem a ver com Gabriel? — Tudo. O sobrenome carrega consequências. Eu não permitiria que minha filha se vinculasse a uma família sob suspeita. — Suspeita não é condenação. — Na nossa posição, suspeita basta. Ela recuou um passo. Então era isso? Dinheiro. Reputação. Aparência. — Você destruiu minha vida por medo de comentários? Augusto elevou levemente a voz: — Eu destruí uma ilusão para preservar seu futuro! — Não era ilusão! — ela explodiu. — Era amor! O escritório parecia pequeno demais para conter a tensão. Augusto baixou o tom. — Você é forte hoje porque eu tomei decisões difíceis. Ela o encarou com lágrimas nos olhos. — Eu sou forte apesar delas. O silêncio foi cortado pelo toque do celular dela. Gabriel. Ela atendeu, ainda encarando o pai. — Precisamos conversar — a voz dele estava diferente. Tensa. — Agora. O estômago dela afundou. — O que aconteceu? — Meu pai foi internado esta madrugada. E… a polícia apareceu no hospital. O mundo pareceu parar. Augusto fechou os olhos, como se previsse aquilo. — Eu estou indo — ela respondeu, desligando. — Isadora — o pai chamou. Ela parou na porta. — Se você se envolver nisso, estará escolhendo um lado. Ela se virou lentamente. — Eu já escolhi. Vou escolher a verdade. O hospital estava cercado por murmúrios. Dois carros da polícia estacionados discretamente não eram suficientes para esconder o clima de tensão. Gabriel estava no corredor, expressão fechada. Quando a viu, algo mudou em seus olhos. Alívio. Medo. Culpa. — Meu pai sofreu um infarto — ele disse rapidamente. — E, no meio disso, reabriram a investigação do caso antigo. — Desvio de verbas? — ela perguntou. Ele congelou. — Você sabia? — Acabei de descobrir. Gabriel passou a mão pelos cabelos molhados de suor. — Eu sempre soube da investigação. Mas nunca houve prova contra ele. Nunca houve condenação. — E você acredita na inocência dele? A pergunta era mais profunda do que parecia. Gabriel hesitou. E aquela hesitação doeu. — Eu… nunca quis acreditar que ele fosse capaz. O silêncio entre eles mudou de natureza. Não era mais apenas passado. Era presente. Era risco real. — Meu pai usou isso para nos separar — ela revelou. Gabriel fechou os olhos, absorvendo. — Então ele conseguiu. — Não completamente. Passos ecoaram no corredor. Um policial se aproximou. — Senhor Gabriel Alcântara? Ele assentiu. — Precisaremos do seu depoimento formal ainda hoje. Isadora sentiu o peso da situação esmagando qualquer romantismo. Aquilo não era mais apenas sobre dois corações feridos. Era sobre honra. Justiça. Verdade. Quando o policial se afastou, Gabriel a encarou com vulnerabilidade nua. — Se você quiser ir embora agora… eu vou entender. Ela pensou na ponte. Na chuva. Na mão dele segurando a dela. Pensou no pai. Pensou na palavra escolher. — Eu sou advogada — ela disse. — E, se existe algo mal explicado nessa história, eu quero saber. — Isso pode respingar em você. — Então que respingue. Ele se aproximou, os olhos intensos. — Você não tem ideia do tamanho disso. — Talvez não — ela respondeu. — Mas eu sei o tamanho do que eu sinto. O monitor cardíaco apitou ao longe, marcando o ritmo frágil de um homem entre a vida e as consequências. Isadora percebeu que o amor deles estava prestes a ser testado de uma forma que nenhum dos dois imaginava. Se o pai de Gabriel fosse culpado, o sobrenome carregaria culpa. Se fosse inocente, alguém estava manipulando a história. E se Augusto tivesse interferido mais do que ela imaginava? Uma nova tempestade se formava, não no céu. Mas na verdade. E algumas verdades, quando finalmente acordam, não pedem licença. Elas devastam. E Isadora estava prestes a descobrir que o maior segredo daquela cidade não estava no passado. Estava apenas começando a ser revelado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD