Capítulo 16 — Entre Dois Mundos

1228 Words
A capital não tinha o cheiro de Santa Serena. Não tinha o som familiar das manhãs calmas, nem os rostos conhecidos que cumprimentavam pelo nome. A capital tinha pressa. Tinha buzinas. Tinha prédios que tocavam o céu e pessoas que caminhavam como se o tempo fosse inimigo. Isadora sentiu o impacto já na primeira semana. O novo escritório era exatamente como prometido: imponente, dinâmico, exigente. Sua sala tinha vista para a cidade inteira. Uma vista que simbolizava conquista. Mas conquistas também isolam. Os primeiros dias foram intensos. Reuniões estratégicas. Processos complexos. Casos de grande repercussão. Ela estava onde sempre quis estar. E, ainda assim, todas as noites, ao entrar no apartamento temporário alugado, o silêncio era diferente. Não era paz. Era ausência. Gabriel ligava todas as noites. No começo, as conversas eram longas. Cheias de detalhes. Ele queria saber cada passo. Ela queria ouvir cada novidade da cidade. — A ponte está diferente sem você — ele disse numa das ligações. Ela sorriu. — A ponte continua lá. — Mas parece mais vazia. O coração dela apertou. — Eu volto para visitar em breve. — Eu sei. Mas saber não elimina saudade. Com o passar das semanas, a rotina começou a pesar. A capital exigia excelência constante. Não havia margem para erro. Não havia tempo para pausas longas. Isadora começou a dormir menos. A comer em horários irregulares. A viver mais no escritório do que no próprio apartamento. E, mesmo exausta, sentia-se viva profissionalmente. Um dos sócios a chamou para uma conversa particular. — Você tem potencial para se tornar sócia em dois anos. Dois anos. A palavra ecoou. Dois anos significavam permanência. Raízes. Nova vida. Ela agradeceu. Sorriu. Mas saiu da sala com o peito inquieto. Dois anos eram tempo suficiente para mudar qualquer história. Em Santa Serena, Gabriel tentava se adaptar à ausência. A empresa finalmente prosperava. A estabilidade chegava. Mas as noites eram longas demais. Ele passava pela ponte quase por hábito. Sentava-se no mesmo banco. Observava o rio. E perguntava a si mesmo se amar à distância era resistência ou ilusão. Ele confiava nela. Mas temia o desgaste invisível. Um mês depois, a primeira tensão real surgiu. Isadora esqueceu uma ligação combinada. Não por desinteresse. Mas por excesso. Gabriel esperou. Uma hora. Duas. Mandou mensagem. Sem resposta. Ela só viu o celular às duas da manhã. — Desculpa, o dia foi insano. Ele respondeu no dia seguinte. — Eu imaginei. Simples. Educado. Distante. E aquela distância doeu mais do que qualquer discussão anterior. As falhas começaram pequenas. Uma visita cancelada. Um final de semana adiado. Uma conversa interrompida por reunião. Nada grave isoladamente. Mas cumulativo. Isadora percebeu que estava se tornando alguém que sempre prometia “quando tiver tempo”. E tempo nunca aparecia. Numa noite particularmente exausta, ela recebeu uma mensagem de Gabriel: “Você ainda sente que estamos no mesmo lugar?” A pergunta era honesta. Sem acusação. Mas atravessou o peito dela. Ela ficou encarando a tela por longos minutos. Porque a verdade era complexa. Eles estavam no mesmo amor. Mas em ritmos diferentes. Decidiram que ele iria visitá-la na capital. Era necessário. Era urgente. Quando Gabriel chegou, a cidade parecia ainda maior. Ele a viu sair do prédio do escritório. Elegante. Segura. Imponente. Orgulho e estranhamento misturaram-se dentro dele. Ela parecia pertencer ali. O abraço foi intenso. Mas breve. Porque o celular dela tocou. E depois tocou de novo. E mais uma vez. Naquela noite, jantaram num restaurante sofisticado. Mas a conversa não fluía como antes. — Você parece distante — ele disse, finalmente. Ela suspirou. — Eu estou cansada. — De mim? Ela olhou para ele, magoada. — Não. De equilibrar tudo. Ele apoiou os braços na mesa. — Eu sinto que estou tentando acompanhar você… e você está sempre um passo à frente. A frase não era crítica. Era vulnerabilidade. Ela sentiu o peso daquilo. — Eu nunca quis que fosse uma corrida. — Mas virou. O silêncio foi inevitável. No dia seguinte, caminharam pela cidade. Ela mostrou os prédios. Os cafés. O escritório. Mas Gabriel percebia algo que não existia em Santa Serena: Competição constante. Isadora estava crescendo. Mas sob pressão contínua. — Você está feliz? — ele perguntou. Ela hesitou. — Profissionalmente? Muito. — E pessoalmente? A pergunta ficou suspensa. Ela respirou fundo. — Eu ainda estou aprendendo. Honestidade. Mas não conforto. Na última noite da visita, discutiram. Não com gritos. Mas com franqueza dolorosa. — Eu tenho medo de virar um detalhe na sua nova vida — Gabriel confessou. Ela sentiu o impacto. — Você nunca será detalhe. — Mas eu já não sou prioridade. Ela abriu a boca para responder. Mas percebeu que não podia negar completamente. A agenda cheia. As reuniões inesperadas. O cansaço constante. — Eu estou tentando construir algo maior — ela disse. — E eu estou tentando não ficar pequeno dentro disso. A frase ecoou. Pequeno. Ela nunca quis diminuí-lo. Mas talvez estivesse acontecendo sem intenção. Quando ele voltou para Santa Serena, algo mudou. Não ruptura. Mas tensão permanente. As ligações ficaram mais curtas. As mensagens mais espaçadas. Não por falta de amor. Mas por excesso de realidade. Isadora começou a perceber que a distância revelava diferenças profundas. Ela gostava da intensidade da capital. Da expansão. Do desafio. Gabriel gostava da estabilidade. Da raiz. Do ritmo conhecido. Não eram opostos. Mas estavam em fases distintas. Certa noite, após uma reunião exaustiva, Isadora ficou sozinha na sala com vista para a cidade iluminada. Pensou na ponte. No rio. Na chuva. Pensou no quanto lutaram para ficar juntos. E se perguntou: Será que lutar sempre significa permanecer? Ou às vezes significa aceitar que crescer muda as direções? O telefone vibrou. Mensagem de Gabriel: “Eu te amo. Mas eu preciso saber se você ainda me escolhe todos os dias.” Ela sentiu lágrimas se formarem. Porque a pergunta não era sobre amor. Era sobre alinhamento. Ela respondeu: “Eu escolho você. Mas estou aprendendo a escolher a mim também.” A resposta era verdadeira. Mas incompleta. E ele percebeu. Duas semanas depois, recebeu a notícia oficial: Promoção antecipada. Responsabilidade ampliada. Viagens internacionais frequentes. A carreira estava decolando. Mas o coração estava suspenso. Ela ligou para Gabriel imediatamente. — Eu fui promovida. Silêncio breve. Depois: — Eu sabia que isso aconteceria. Orgulho. Mas também distância. — Isso significa mais viagens — ela completou. — Eu imaginei. Pausa. — Você está feliz? — ele perguntou. Ela olhou para a cidade à sua frente. Luzes infinitas. Possibilidades infinitas. — Eu estou crescendo. Ele respirou fundo. — E nós? A pergunta final. Ela não respondeu de imediato. Porque, pela primeira vez desde que se reencontraram, não tinha certeza. O amor ainda existia. Forte. Real. Mas agora competia com sonhos individuais. E às vezes, duas pessoas podem se amar profundamente… Mas estar caminhando para horizontes diferentes. Naquele momento, entre a cidade que a expandia e o homem que a ancorava, Isadora percebeu: O maior conflito não é entre duas pessoas. É entre quem fomos… E quem estamos nos tornando. E a próxima decisão não seria sobre lutar contra o mundo. Seria sobre aceitar que amor também precisa evoluir — ou pode se transformar em saudade antes mesmo de acabar. A noite na capital brilhava intensamente. Mas, pela primeira vez, Isadora sentiu que estava dividida entre dois mundos. E nenhum deles estava disposto a esperar para sempre.
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