Capítulo 2 — O Despertar
A claridade do sol atravessava as cortinas de seda, iluminando um quarto luxuoso e silencioso.
Clara abriu os olhos lentamente.
Uma forte dor de cabeça fez com que levasse a mão às têmporas.
— Ah...
Demorou alguns segundos para perceber que aquele não era o seu quarto.
O teto era alto, decorado com detalhes dourados. Os móveis eram de madeira escura e de aparência antiga. Um enorme lustre de cristal pendia no centro do teto.
Ela sentou-se na cama de repente.
— Onde... onde eu estou?
Seu coração acelerou.
Olhou em volta.
Não havia ninguém.
O quarto estava completamente vazio.
As lembranças da noite anterior eram fragmentadas.
A festa.
Mariana.
O refrigerante.
Depois...
Um enorme vazio.
Ela apertou os olhos, tentando recordar alguma coisa.
Uma gravata preta.
Um perfume amadeirado.
Braços fortes a segurando antes de tudo escurecer.
Nada além disso.
Foi então que percebeu suas roupas cuidadosamente dobradas sobre uma poltrona ao lado da cama.
Seu rosto perdeu a cor.
As mãos começaram a tremer.
Vestiu-se rapidamente, tentando controlar a respiração.
— Não... não... tenta lembrar...
Mas sua memória continuava completamente apagada.
Assim que terminou de se vestir, avistou uma pequena mesa próxima à porta.
Sobre ela havia apenas dois objetos.
Um cartão preto, completamente liso, sem nome, sem número e sem qualquer inscrição.
Ao lado dele, um anel de prata escura com um símbolo estranho gravado.
Clara pegou o anel.
Passou os dedos sobre o desenho.
Nunca tinha visto aquele símbolo.
— O que significa isso...?
Sem saber por quê, colocou o anel no bolso da calça e guardou também o cartão.
Talvez fossem as únicas pistas do que havia acontecido.
Ela abriu a porta com cuidado.
O corredor estava vazio.
Desceu as escadas da enorme mansão sem encontrar uma única pessoa.
Nem empregados.
Nem seguranças.
Nem o dono daquele lugar.
A porta principal já estava destrancada.
Do lado de fora, um carro de aplicativo aguardava.
O motorista apenas abriu a janela.
— Senhorita Clara Mendes?
Ela ficou surpresa.
— Sim...
— Fui contratado para levá-la para casa.
— Quem... quem me chamou?
O motorista apenas respondeu:
— Não me disseram. Só pediram que a deixasse em segurança.
Clara hesitou por alguns segundos, mas entrou no carro.
Durante todo o caminho, tentou recordar o rosto do homem daquela noite.
Uma voz.
Um nome.
Qualquer detalhe.
Mas sua mente permanecia vazia.
Enquanto isso...
Em outro ponto da cidade...
No último andar de um edifício luxuoso, um jovem observava o horizonte através da enorme janela de vidro.
Vestia um terno preto impecável.
Seu rosto permanecia calmo, quase frio.
Sobre a mesa à sua frente havia uma pequena caixa de veludo vazia.
O lugar onde antes estivera um anel.
Atrás dele, um homem de cabelos grisalhos falou:
— Ela já foi embora.
O jovem permaneceu em silêncio.
— Tem certeza de que não quer saber quem ela é?
Depois de alguns segundos, ele respondeu com a voz firme:
— Não.
O homem pareceu confuso.
— Por quê?
O jovem fechou lentamente os olhos.
— Porque, se eu descobrir... não haverá volta.
Sem dizer mais nada, voltou a olhar pela janela.
Mal sabia que aquela decisão duraria apenas até o início das aulas da universidade.
E que, quando a visse novamente, reconheceria imediatamente a mulher daquela noite.
Enquanto ela... não reconheceria absolutamente nada.