Primeira reunião

606 Words
Capítulo 9 — Primeira Reunião Naquela noite, Clara ficou vários minutos olhando para o número recém-salvo no celular. Lúcio Moretti. Era estranho. Eles estudavam na mesma turma havia semanas, mas aquela tinha sido a primeira vez que trocaram mais de duas palavras. Mariana, deitada na cama ao lado, sorriu de lado. — Vai mandar mensagem? Clara fez uma careta. — O trabalho não vai se fazer sozinho. — Então manda. Clara respirou fundo e começou a digitar. > Clara: Oi. Aqui é a Clara. Podemos combinar um dia para fazermos o trabalho? Ela releu a mensagem três vezes antes de enviá-la. --- Na mansão Moretti... Lúcio estava no escritório analisando alguns documentos da família quando seu celular vibrou. Ele olhou para a tela. Clara Mendes. Por alguns segundos, apenas observou o nome. Depois abriu a conversa. Leu a mensagem uma única vez. Sem demonstrar qualquer emoção, respondeu. > Lúcio: Amanhã, depois da aula. Poucos segundos depois, outra mensagem apareceu. > Clara: Tudo bem. Na biblioteca? > Lúcio: Sim. A conversa terminou ali. Curta. Objetiva. Exatamente como ele preferia. Mesmo assim, antes de bloquear a tela do celular, seus olhos permaneceram alguns segundos sobre o nome dela. --- No dia seguinte... As aulas passaram mais lentamente do que Clara imaginava. Sempre que se lembrava de que passaria a tarde sozinha com Lúcio, um leve nervosismo surgia. Não porque tivesse medo dele. Mas porque ele era impossível de entender. Nunca sorria. Nunca conversava. Parecia estar sempre distante de tudo. Quando o último professor encerrou a aula, Mariana aproximou-se. — Boa sorte. Clara riu. — Parece que vou enfrentar um julgamento. — Talvez seja mais fácil. As duas riram baixinho. Lúcio levantou-se da última carteira. Sem dizer uma palavra, passou por elas. Ao chegar à porta, apenas falou: — A biblioteca está cheia neste horário. Clara virou-se para ele. — Então... onde? — Há uma sala de estudos vazia no terceiro andar. Ela concordou. — Está bem. --- Alguns minutos depois... Os dois estavam sentados frente a frente em uma pequena sala silenciosa. A mesa era grande. Havia livros espalhados. Mas nenhum dos dois dizia uma palavra. O silêncio tornou-se constrangedor. Foi Clara quem resolveu quebrá-lo. — Então... Lúcio ergueu os olhos. — Como dividimos o trabalho? Ele respondeu com calma. — Você pesquisa a parte teórica. — E você? — A jurisprudência e os casos práticos. Clara sorriu. — Parece um bom plano. Ela abriu o notebook. Enquanto organizava os arquivos, um movimento brusco fez sua mochila escorregar da cadeira. Ela tentou segurá-la. Mas foi tarde. Os objetos caíram no chão. Canetas. Caderno. Chaves. E... O anel de prata escura rolou pelo piso. Parando exatamente ao lado do sapato de Lúcio. O tempo pareceu congelar. Os olhos dele fixaram-se imediatamente no anel. Naquele símbolo. O mesmo símbolo que conhecia melhor do que ninguém. Lentamente, ele abaixou-se e pegou o anel entre os dedos. Seu rosto continuava impassível. Mas, por dentro, tudo havia mudado. Clara levantou-se rapidamente. — Desculpa! Minha mochila abriu... Ela estendeu a mão. — Obrigada. Lúcio permaneceu alguns segundos olhando para o anel antes de colocá-lo na palma da mão dela. — Você usa esse anel há muito tempo? A pergunta fez Clara prender a respiração. Ela fechou os dedos em volta do anel. — Não... Baixou os olhos. — Eu... encontrei há algumas semanas. Lúcio apenas assentiu. — Entendo. Não perguntou mais nada. Mas naquele instante, uma certeza começou a nascer dentro dele. A mulher sentada à sua frente... Era, sem qualquer dúvida, a mesma mulher daquela noite. E, pela primeira vez, Lúcio começou a questionar se conseguiria continuar fingindo que eram apenas dois desconhecidos.
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