Capítulo 55 — A Porta de Casa
A campainha tocou.
Clara respirou fundo antes de caminhar até a porta.
Sua mãe e Mariana permaneceram na sala, em silêncio.
Quando abriu a porta, encontrou Lúcio do outro lado.
Ele usava roupas simples, sem os ternos que costumava vestir nas reuniões da família Moretti.
Pela primeira vez, não parecia o herdeiro de uma das famílias mais poderosas da cidade.
Parecia apenas um jovem de vinte e poucos anos.
— Posso entrar? — perguntou ele.
Clara fez um pequeno gesto com a cabeça.
— Pode.
Lúcio entrou devagar, observando discretamente a casa.
Era um lugar simples, mas acolhedor.
Havia fotografias de Clara desde criança espalhadas pelas estantes.
Ele parou por um instante diante de uma delas.
Uma menina de cabelos bagunçados sorria segurando um troféu escolar.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Você já ganhou muitos prêmios.
Clara olhou a fotografia.
— Minha mãe sempre guardou tudo.
Nesse momento, a mãe de Clara aproximou-se.
Os dois se encararam pela primeira vez.
— Senhora Mendes.
Lúcio fez um leve aceno de respeito.
— Obrigado por me receber.
Ela respondeu com educação.
— Sente-se.
Os quatro ficaram na sala.
O ambiente era silencioso.
Mariana percebeu que aquela conversa era importante.
— Eu vou fazer um café.
A mãe de Clara sorriu discretamente.
— Eu ajudo você.
As duas caminharam para a cozinha, deixando Clara e Lúcio sozinhos por alguns minutos.
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Lúcio olhou para Clara.
— Como você está?
Ela deu um pequeno sorriso cansado.
— Ainda tentando entender tudo.
Ele assentiu.
— Eu também.
Clara observou o rosto dele.
— E o meu pai?
Lúcio respirou fundo.
— Nós conversamos bastante.
Ela ficou tensa.
— Ele brigou com você?
Lúcio soltou um pequeno sorriso.
— Não.
— Então...
— Ele estava preocupado.
Clara abaixou os olhos.
— Eu imaginei.
Lúcio continuou:
— Ele deixou uma coisa muito clara.
Ela esperou.
— Que todas as decisões sobre você e sobre o bebê devem ser tomadas por você.
Os olhos de Clara se arregalaram.
— Ele disse isso?
— Sim.
Ela ficou em silêncio.
Depois de tantos anos imaginando que o pai queria controlar sua vida...
Descobriu que ele queria justamente o contrário.
Que ela tivesse escolhas.
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Na cozinha...
Mariana olhou para a mãe de Clara.
— Ele parece diferente do que eu imaginava.
A mãe assentiu.
— Também achei.
Ela olhou discretamente para a sala.
Lúcio falava com calma, sem levantar a voz.
Sem impor nada.
Naquele momento, ela viu apenas um rapaz preocupado com a filha dela.
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De volta à sala...
Lúcio tirou do bolso uma pequena caixa.
Clara olhou curiosa.
— O que é isso?
— É seu.
Ela abriu cuidadosamente.
Dentro estava o anel de prata escura que encontrara depois da festa.
Lúcio explicou:
— Eu pedi para que fosse restaurado. Estava um pouco danificado.
Clara segurou o anel entre os dedos.
As lembranças daquela noite ainda eram confusas.
Mas aquele objeto fazia parte da verdade que agora conhecia.
Ela fechou a caixa lentamente.
— Obrigada.
Lúcio apenas sorriu.
Pela primeira vez desde que tudo começou, os dois conseguiram conversar sem medo, sem mentiras e sem segredos.
E, pela primeira vez, Clara sentiu que talvez não precisasse enfrentar o futuro sozinha.