O Trabalho Sujo

1127 Words
Estávamos na rua roubando pros infelizes da Júlia e do Bernardo, que nos olhavam de longe, com imensos sorrisos, e eles eram tão sem vergonhas, que em vez deles mesmo fazerem o serviço sujo, mandavam a gente, e se fôssemos pegos, estávamos fritos, e eu aposto que eles não iriam mover um dedo pra nos tirar da cadeia, com certeza só diriam ‘’ah, tadinho, se deu m*l. Bom, pelo menos um a menos’’. Eu estava em uma fruteira, ‘’olhando’’ algumas maçãs, e tinha uma moça do meu lado, que parecia bem distraída. Notei a sua carteira à mostra dentro da sua bolsa, que estava um pouco aberta. Olhei para os lados para me certificar de que não havia ninguém para testemunhar. Fingi que estava analisando algumas frutas e me aproximei da mulher, que nem percebeu nada. Peguei a sua carteira, sem que ela visse, e disfarcei, olhando outras frutas. Fui até onde estavam Bernardo e Júlia, e entreguei a m***a da carteira para o homem, que a abriu rapidamente, tinha 300 reais, talvez fosse pra mulher fazer as compras do mês, fiquei m*l por imaginá-la procurando o objeto e não o encontrando. Nisso, Tato e Gastón apareceram, e entregaram para os dois, as coisas que eles haviam roubado. E então, avistamos Bernardo e Júlia com largos sorrisos. Olhamos na direção que eles estavam olhando, e não, eles não podiam estar pensando nisso. Do outro lado da calçada, havia um senhor, que devia ter uns 70 anos, e ele era cego, estava com uma guia. - Vai lá Mar, nos encha de orgulho. - Disse Júlia. - Quê? Tá de onda, né? Eu não vou fazer isso, não vou roubar um senhor, que ainda é cego. - Vai, sim. - Bernardo me puxou pelo cabelo. - Não entendeu que aqui você não faz o que quer? - Solta ela, eu vou. - Disse Gastón. - Olha, temos um cavalheiro aqui. - Júlia ironizou. - Então vá, estamos esperando. O garoto suspirou, e saiu em direção ao pobre homem. De onde eu estava, pude ver quando Gastón se aproximou dele, e lhe disse algo, bom, eu não sou profissional em leitura labial, mas deu pra ver que ele havia pedido desculpa, e então, roubou a carteira do homem e levou até Bernardo. Ele e Júlia gargalharam ao verem que havia 1000,00 na carteira. Pobre senhor! Sabe se lá quantas contas ele não iria pagar com esse dinheiro. (...) Assim que entramos no abrigo, eu chamei por Gastón, que se virou para mim. - Qual é a tua, meu? - Perguntei. - Primeiro, aquele lance com o Juan e agora isso… Por que tá se metendo nas minhas coisas? Vai querer que eu fique te devendo, é? Porque se for isso… - Mar… - Me interrompeu. - Eu não quero nada em troca. O lance com o Juan foi porque eu não vou com a cara dele, e porque eu vi que você já tinha dito ‘’não’’ pra ele. E isso… Bom, isso foi porque eu estou mais acostumado com essa vida. Mas… Você não me deve nada, fica fria. O garoto piscou o olho para mim, e saiu, me deixando sem entender direito o porquê disso. Eu não era amiga dele para o garoto ser gentil sem nada em troca, isso, estava tão estranho. Eu fui subir as escadas quando escutei Emilia chamar por mim, me virei e vi a loira. - Mar, né? - Acenei positivamente com a cabeça. - Eu preciso ir ao mercado fazer umas compras, quer vir comigo? - Ah, não estou fazendo nada mesmo. - Dei de ombros. - Emilia, posso ir com vocês? - Flor perguntou ao escutar que iríamos ao mercado. - Claro, pequena, mas antes peça permissão pra sua mãe. Pode ir, que vamos te esperar aqui. - Tá bem. A criança saiu correndo, enquanto Emilia e eu ficamos aguardando pela menina, e juro que eu pensei que Júlia não fosse permitir que a garota saísse conosco, porém, para nossa surpresa, a menina retornou dizendo que a sua mãe havia deixado. Fomos ao mercado que havia perto do abrigo. Emilia pegou a lista de compras, que não era nada pequena, e foi dizendo para mim e para Flor, o que devíamos pegar, e então, fomos enchendo o carrinho, e quando já havíamos terminado de pegar tudo que estava na lista, Emilia falou: - Eu senti falta de umas coisas aqui. Me digam, do que vocês gostam? Bolacha? Refrigerante? Chocolate? - Gostar, a gente gosta, mas não podemos comer nada disso. - Falei. - Por quê? - A mais velha perguntou. - A minha mãe diz que essas coisas só engordam e fazem m*l porque possuem muito açúcar. Mas… Eu queria um bombonzinho, mesmo que só um pedacinho. - Mas de vez em quando não tem problema, o que não pode é comer essas coisas sempre. Vamos fazer assim... Eu vou levar umas porcarias pra vocês comerem junto com os outros, mas precisa ser segredo. Prometem? - Prometemos! - Falamos Flor e eu ao mesmo tempo. Emilia pegou outro carrinho e nos permitiu colocar o que a gente quisesse, tudo o que tivéssemos vontade de comer, ela ainda disse que não poderia fazer isso sempre, mas que de vez em quando nos compraria algumas coisas boas, que a gente gostasse. Ah, eu havia adorado essa parte, ok, Emilia tinha ganhado uns belos pontos comigo, acho que ela era legal mesmo. A mulher pagou as compras do abrigo e pagou com o dinheiro que Bernardo havia lhe dado, e depois pagou as coisas que Flor e eu havíamos escolhido com o seu próprio dinheiro, e havia dado mais de 300,00 só nas nossas coisas, eu não entendia muito essa coisa de dinheiro, mas acho que era bastante. - Emilia, se quiser podemos tirar algumas coisas. - Falei quando ela foi pegar o dinheiro para pagar. - Não precisa, Mar. - Sorriu, e pagou as nossas compras, me deixando um pouco (tipo, muito) surpresa. A mulher pagou tudo e depois voltamos para o abrigo. Ah, ela parecia ser legal de verdade, acho que estava começando a gostar do fato dela trabalhar no abrigo, acho que ela e Nico eram as únicas pessoas legais de verdade naquele lugar (me refiro aos adultos). Assim que chegamos, Flor pegou as suas sacolas e foi até o quarto das crianças, já eu peguei as minhas sacolas e fui para meu quarto, onde Euge estava se maquiando frente a um espelho, eu contei para ela sobre as guloseimas que Emilia havia nos comprado e ela adorou. A garota chamou por Gastón, Nano e Tato e ficamos comendo algumas bobagens escondido no nosso quarto. - Sabe, eu gostei dessa Emilia. - Disse Gastón, fazendo a gente rir.
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