Eu não conseguia parar de olhá-lo, e sem tirar os meus olhos dos dele, peguei em sua mão e o garoto me ajudou a levantar e a sair da fonte. Ficamos um de frente para o outro. Os seus olhos pareciam me hipnotizar, e diante dele, eu, que sempre tenho uma palavra na ponta da língua, fiquei completamente muda, sem saber o que dizer.
- Você está bem? - Ele perguntou.
- Hã… Estou. - Respondi ainda olhando para o garoto.
- Aqui não é lugar de tomar banho, sabia? - Deu um sorriso travesso.
- i****a!
Me afastei do garoto e entrei na minha mais nova casa, enquanto batia os pés de raiva, que garoto o****o, pelo jeito era só um rostinho bonito, mas de que adianta isso? Passei por Júlia, que estava séria, e ela perguntou o que havia acontecido comigo, porém, eu ignorei e segui em direção ao banheiro para tomar banho e colocar uma roupa seca.
Ao sair do banheiro, eu desci para ir até a cozinha para beber um pouco de água, e ao chegar na cozinha vi o garoto, cujo nome eu ainda não sabia, conversando com Bernardo e Júlia, e os três estavam rindo, pareciam felizes, e eu fiquei sem entender o que estava havendo.
- Olá, querubim querido. - Disse Bernardo.
- Quem é, pai? - Perguntou o garoto.
Pai? Então, o garoto era filho de Bernardo? Ah claro, ele só podia ser o tal garoto que Eugênia mencionou que estava nos Estados Unidos, bem que ele poderia ter ficado por lá, não precisava ter voltado, bom, eu m*l o conhecia, mas já não fui muito com a cara dele, parecia metido, arrogante e filhinho de papai, e eu odeio gente assim.
- Querido, essa é a Marina. - Disse Bernardo.
- Mariana. - Corrigi.
- Isso mesmo, e esse aqui é o meu filhote, Juan. - Deu um beijo no rosto do garoto.
- Mariana, então? Prazer. - Falou com um largo sorriso.
Ignorei a fala do garoto e me dirigi até a geladeira, me servi um pouco de água, bebi e depois me retirei, indo em direção ao meu quarto. Ah, era tão chato não ter nada para fazer, e o abrigo estava tão silencioso. Fiquei olhando cada detalhe do quarto, tinha dois roupeiros, várias camas, uma prateleiras com livros, e também tinha uma mesinha com cadeira, frente a um espelho, onde havia algumas maquiagens, certamente eram de Eugênia, sinceramente, eu não sei o que as mulheres veem nessas pinturas.
Abri o roupeiro de Eugênia e dei uma olhada nas roupas dela, eram tão… curtas, mini saias, blusinhas que provavelmente deviam deixar a barriga à mostra, vestidos curtos e justos…
‘’Que péssimo gosto.'' - Pensei.
- O que está fazendo? - Uma voz atrás de mim perguntou.
Fechei o roupeiro no susto e me virei, vendo-o com um sorriso sarcástico.
- Acho que a Euge não ia gostar de saber que você está mexendo nas coisas dela.
- Eu não estou mexendo em nada, tapado. Eu só… Estava dando uma olhada por curiosidade. - Me sentei na minha cama.
- Sei… - Sentou ao meu lado.
- Então, você é o filho do Bernardo…
- Sou, sim.
- E você tem pai, mas mora aqui…
- Sim. Que nem o Tomás e a Flor. - Falou se referindo aos filhos do Nico e da Júlia, respectivamente.
- Hum… Legal! - Falei com indiferença.
- Hey, quer fazer alguma coisa? Deve ser chato ficar aqui sozinha.
- Não, obrigada. - Respondi. - Estou muito bem aqui.
- Tem certeza? - Me lançou um olhar quase intimidador.
- Aham.
O garoto deu de ombros e saiu do meu quarto. Deitei na cama e respirei aliviada. não posso negar o fato de Juan ser lindo, mas… ele parecia ser aquele tipo de garoto que todas as garotas são a fim, e por isso se acham a última bolacha do pacote, e para mim, esse tipo são os piores, busco manter distância deles. Sempre que possível.
Pouco depois, o pessoal voltou da escola. Eu estava no quarto, mas percebi quando chegaram, pois escutei algumas vozes. Desci as escadas, indo até a sala, onde eles se encontravam. Logo, notei quando Bernardo reclamou do barulho que eles (as crianças, principalmente) estavam fazendo, me surpreendi ao vê-lo falar de tal maneira, ele parecia tão amigável antes. Queria estar certa. E quando ele notou a minha presença, mudou completamente o tom de voz, falando de forma mais mansa, o que chamou a minha atenção.
Almoçamos todos juntos na cozinha, exceto Nico que não estava, e o almoço parecia mais um enterro, ninguém dizia uma palavra sequer e todos comiam de cabeça baixa. As vezes notava Bernardo olhar discretamente para todos. E eu fiquei sem entender nada.
- Que silêncio! - Juan disse.
E ninguém disse uma palavra sequer, Eugênia e Tato apenas olharam rapidamente para o garoto, mas logo voltaram a baixar as suas cabeças, e seguiram almoçando.
- Terminei. - Disse Lupita, uma das pequenas. - Permissão para me retirar?
- Claro, querida. - Bernardo respondeu.
A criança pegou o seu prato e o seu copo e os levou até a pia, se retirando, em seguida. E então, um a um foi fazendo o mesmo. Eu fui uma das últimas a terminar, ficou apenas eu, Gastón e Bernardo à mesa. Quando eu terminei, pedi licença e me levantei, fazendo menção em me retirar.
- Volte imediatamente. - Disse Bernardo de forma curta e grossa, fazendo eu me virar para ele. - Você não pediu permissão para sair.
- Eu pedi licença. - Argumentei.
- Não é o mesmo. Tem que pedir para sair.
- Permissão para me retirar, senhor? - Cruzei os braços e revirei os olhos.
- Claro, mas antes leve a sua louça até a pia.
O encarei, sentindo-o me fuzilar com o olhar, mas obedeci, e então, me retirei da cozinha, e Gastón veio atrás de mim.
- Qual é o problema dele? - Perguntei.
- Ah, essa é a melhor versão dele, você não viu nada ainda.
O garoto subiu as escadas enquanto eu tentava assimilar as palavras dele. O que será que ele quis dizer com isso?
(...)
Eu estava no pátio do abrigo quando avisei Gastón do outro lado da rua. Nem tinha visto o garoto sair de casa. Ele parecia estar esperando alguém, e olhava para todos os lados como se não quisesse ser visto. Sai do abrigo, pois não éramos proibidos de sair, Nico nos dava essa liberdade, pois confiava na gente. E sem que Gastón me visse, cheguei mais perto e fiquei espiando-o. Eis que vi um homem pra lá de estranho indo falar com o garoto, que lhe deu um embrulho muito suspeito. O homem abriu o embrulho, consentiu com a cabeça, e logo deu uma quantia em dinheiro para Gastón. Mas pera, o que o garoto estava fazendo?