Eva
A aula terminou mais tarde do que o normal.
O professor insistiu em revisar o conteúdo da prova, e quando saí da universidade o campus já estava quase vazio.
Abracei os livros contra o peito e caminhei até o ponto de ônibus.
Meu celular marcava quase onze horas.
O vento da noite fazia as árvores balançarem, espalhando folhas pela calçada. Tentei me concentrar na playlist que tocava baixinho nos fones, mas acabei desligando a música.
Desde o baile, eu não conseguia mais andar distraída.
Toda sombra parecia esconder alguém.
Todo carro desacelerando fazia meu coração acelerar.
Quando o ônibus chegou ao Morro da Esperança, desci duas ruas antes de casa, como fazia desde que Conrado me pedira para variar o caminho.
Eu nunca admitiria para ele.
Mas tinha seguido o conselho.
As ruas estavam silenciosas.
Algumas janelas ainda estavam iluminadas.
Um grupo de adolescentes ria na esquina.
Dois cachorros reviravam sacos de lixo perto de um poste.
Suspirei.
Faltavam poucos metros.
Só queria chegar em casa.
Foi quando ouvi o ronco de um motor.
Olhei para trás.
Um sedã preto dobrou a esquina lentamente.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
Era impossível não lembrar do carro que Conrado havia visto dias antes.
O veículo reduziu ainda mais a velocidade.
Parou exatamente em frente ao meu portão.
Meu coração começou a bater tão forte que m*l conseguia respirar.
A porta traseira se abriu.
Por um segundo, achei que alguém fosse descer.
Mas não.
Um corpo foi empurrado para fora.
A pessoa caiu violentamente na calçada.
O carro arrancou antes mesmo que eu pudesse reagir.
Os pneus cantaram no asfalto.
Em segundos, só restaram as lanternas vermelhas desaparecendo na curva.
Larguei a mochila no chão.
Corri.
— Caio!
O nome escapou antes mesmo que eu percebesse.
Meu irmão.
Só podia ser ele.
Caí de joelhos ao lado do homem.
Minhas mãos tremiam quando virei seu rosto.
O ar fugiu dos meus pulmões.
Não era Caio.
Era Luan.
Seu rosto estava irreconhecível.
Um dos olhos completamente inchado.
O supercílio aberto.
Sangue seco escorria pelo pescoço.
Os lábios rachados.
A camisa estava rasgada e coberta de manchas escuras.
— Meu Deus...
Ele soltou um gemido baixo.
Os olhos se abriram apenas o suficiente para me reconhecer.
— Eva...
Minha garganta apertou.
— Calma... calma... eu vou chamar uma ambulância.
Peguei o celular na bolsa.
Antes que conseguisse desbloquear a tela, ele segurou meu pulso.
Mesmo machucado, seus dedos apertaram com força.
— Não.
Olhei para ele, sem entender.
— Você precisa de um hospital.
Ele respirava com dificuldade.
— Não... chama...
Uma crise de tosse o interrompeu.
Pequenas gotas de sangue mancharam sua mão.
Meu desespero aumentou.
— Você está ferido!
— Não... hospital.
— Luan!
Ele fechou os olhos por um instante.
Quando voltou a abri-los, sua voz saiu quase inaudível.
— Eles... estão esperando.
Senti um arrepio percorrer minha coluna.
— Quem?
Ele balançou a cabeça.
— Me coloca... dentro.
Olhei para a rua.
Estava vazia.
Ou parecia.
Engoli em seco.
Passei um dos braços dele sobre meus ombros.
— Vamos.
Luan soltou um gemido de dor ao tentar ficar em pé.
Era pesado demais.
Mesmo assim, consegui fazê-lo caminhar alguns passos.
Empurrei o portão com o pé.
— Vó!
Minha voz ecoou pela casa.
— Vó!
A luz da sala acendeu quase imediatamente.
Minha avó apareceu usando um roupão florido.
Assim que viu o estado de Luan, levou a mão à boca.
— Meu Deus do céu!
— Me ajuda!
Ela não fez perguntas.
Correu até nós.
Entre as duas, conseguimos levá-lo até o sofá.
Ele m*l conseguia permanecer consciente.
Minha avó trouxe toalhas limpas enquanto eu corria até a cozinha buscar água.
Quando voltei, ela limpava cuidadosamente o sangue do rosto dele.
— Precisamos levar esse rapaz ao hospital.
Luan abriu os olhos lentamente.
— Não...
Minha avó olhou para mim.
— Ele bateu a cabeça.
Está confuso.
Ajoelhei ao lado dele.
— Luan...
Ele respirou fundo, fazendo uma careta de dor.
— Eles... queriam...
A frase morreu antes de terminar.
Segurei sua mão.
— Quem fez isso?
Silêncio.
Depois de alguns segundos, ele respondeu.
— Me pegaram...
...na saída do serviço.
Fechei os olhos por um instante.
— Por quê?
Ele riu.
Foi uma risada fraca.
Dolorosa.
— Porque... sabiam que eu conhecia...
...você.
Meu sangue gelou.
— O que eles queriam?
Luan demorou a responder.
Parecia reunir forças para continuar.
— Um recado.
Meu coração acelerou.
— Que recado?
Ele virou lentamente o rosto na minha direção.
Os olhos estavam cheios de dor.
E de medo.
— Disseram...
...que o Caio tem quarenta e oito horas.
Meu estômago afundou.
— Quarenta e oito horas para quê?
A voz dele falhou.
— Para aparecer.
A sala mergulhou em um silêncio pesado.
Minha avó parou de limpar os ferimentos.
Eu m*l conseguia respirar.
— E... se ele não aparecer?
Luan fechou os olhos.
Uma lágrima escorreu pelo canto do rosto machucado.
Quando falou, sua voz saiu tão baixa que quase não ouvi.
— Eles disseram...
...que a próxima...
...é você.
Senti o mundo desaparecer sob meus pés.
Não era mais uma ameaça distante.
Não era mais alguém me seguindo pelas ruas.
Agora havia um prazo.
E, pela primeira vez desde que tudo começou...
Eu entendi que não estavam tentando me assustar.
Estavam contando os dias para me transformar em uma mensagem destinada ao meu irmão.