Laura Narrando
Sim, eu poderia ter dito a minha amiga toda a verdade, mas não sei como ela iria encarar. O amor que Lorena e meu irmão viveram, foi arrebatador, jamais vi duas pessoas se olhando tão intensamente como eles dois, era incrível. Pena acabar da forma que acabou, porém, tenho esperança de que não tenha sido um ponto final, somente uma vírgula.
Termino de falar com Lorena, quando ouço a campainha soar, corro até a porta para atender, certamente é o Caleb.
— Nossa! Quanta demora. — Caleb fala assim que abro a porta.
— Bom dia para você também. Acordou com o pé esquerdo hoje? — sorrio debochada.
— Marcamos todos os dias às sete horas, sabe que não tolero atrasos, então nem um minuto a mais. Ok?
— Pode ir baixando a crista, irmãozinho... Não sou um de seus subordinados na empresa. Lembre-se, faço isso porque amo meus sobrinhos, não recebo nada. — pego o carrinho com eles, levando para dentro.
— Se o problema é esse, eu te pago, irmãzinha. — ele estava vindo atrás de mim, segurando os pertences dos filhos, o olho e crispo os olhos.
— Não é sobre isso, Caleb. Amo seus filhos, jamais pediria qualquer coisa em troca para isso, só quero respeito da sua parte, sou sua irmã.
Caleb respira fundo.
— Você está certa, me desculpe. As coisas não têm sido nada fáceis para mim. — deixa tudo em cima do sofá.
Largo o carrinho, já que meus sobrinhos estão brincando com o mordedor e me aproximo do meu irmão.
— Sabe que pode contar comigo sempre né? — aliso seu rosto e o mesmo assente com um menear de cabeça e beija a palma da minha mão.
— Obrigado, Laurinha. Tenho que ir, não posso me dar ao luxo de chegar atrasado na empresa.
Ele vai até os filhos, dá um beijo na mãozinha gorducha de cada um, fazendo-os soltar um gritinho de felicidade e sai, nos deixando sozinhos.
Espero meu irmão fechar a porta e vou até meus sobrinhos.
— O pai de vocês precisa voltar a sorrir, não acham? — falo com eles, que soltam um gritinho como se estivessem entendendo — Pois é, mas não sei o que fazer para ajudá-lo.
A Kimberly segura meu dedo indicador, quase levando a boca, mas eu puxo devagar.
— Não pode, meu amor. Toma seu mordedor. — entrego o objeto, e ela segura com as mãos gordinhas.
Tento pensar em uma forma de ajudar o Caleb, fico com a mente aérea, enquanto a Kimberly e o Ethan quase arrancam meus dedos fora. Até que me surge uma ideia magnífica, se tivesse alguém perto de mim, provavelmente veria uma lâmpada em cima de minha cabeça.
— É isso! — me levanto, pois, estava abaixada na altura do carrinho — Porque não pensei nisso antes? Agora só preciso de uma boa estratégia.
— Tá tudo bem, Laura? — o homem que passou a noite comigo, vem em minha direção com uma carinha de sono ainda, tinha até esquecido que estive acompanhada noite passada.
— Sim, agora está tudo perfeito. — sorrio na direção dele.
Finalmente o encaro de cima a baixo, admirando a belíssima imagem do homem a minha frente, ele está de calça, mostrando seus músculos perfeitamente esculpidos pelos deuses. Mordo o canto do lábio inferior.
— Bom dia. — me dá um selinho rápido, com as mãos em minha cintura.
— Bom dia, gato — envolvo seu pescoço com meus braços, retribuindo o beijo e sugando seu lábio inferior — Se eu fosse você, não faria isso... A não ser que queira voltar para a cama.
— Por mais tentada que eu esteja com essa proposta, infelizmente terei que recusar — ele arqueia as sobrancelhas — Tenho coisas para fazer.
— Melhor que sexo matinal?
— Está no mesmo patamar, porque eu os amo. — olho na direção dos meus sobrinhos, e ele segue meu olhar.
— Uou! Você tem filhos? — me larga no exato momento.
Estalo a língua na boca e reviro os olhos.
— Não, idio.ta. Eles são filhos do meu irmão — o vejo suspirar em alívio — Mas não precisaria se preocupar se fossem meus, já que foi só uma noite e nada mais. — falo com desdém e pisco para ele.
— Nos demos tão bem ontem...
— Gato, comigo é assim, uma única noite de sexo e tchau. Pensei ter deixado isso bem claro ontem.
— Ok, tudo bem. Posso ao menos tomar café da manhã?
— Tudo bem, jamais negaria um prato de comida alguém. — minha voz soa debochada, juro que tentei evitar.
Percebo que o deixei sem graça.
— Vem, vou preparar algo para comermos. — sigo para a cozinha, fazendo menção para me seguir.
Não sou muito boa na cozinha, porque passo a maior parte do tempo na casa dos meus pais, e por esse mesmo motivo não tenho empregada, a não ser uma mulher que vem aqui duas ou três vezes por semana fazer a limpeza.
Pego uma frigideira, faço panquecas, enquanto o tal homem, que não lembro o nome, está sentado atrás do balcão me observando e esperando. Termino o que estava fazendo, coloco dois pratos em cima do balcão e nos sirvo, colocando calda de chocolate por cima, e sirvo um pouco de suco para cada. Antes de sentar, vou até à sala pegar meus bebês para perto, caso eles precisem de mim, então me sento ao lado dele e comemos.
— Bem, sem querer te expulsar, mas já te expulsando — ele me olha atentamente — Tenho que sair, vou levá-los para passear. — levanto e deixo os pratos sujos na pia.
— Ah, tudo bem. Eu também tenho umas coisas para fazer. — pelo jeito sem graça com que me respondeu, certamente mentiu para não ficar por baixo.
Geralmente, os homens não gostam de ter seus egos feridos.
— Obrigada pela compreensão. — sorrio.
Enquanto lavo a louça, o rapaz vai terminar de se vestir, depois retorna para a sala.
— É... Obrigado pela noite maravilhosa, espero te encontrar mais vezes. — me dá um beijo rápido.
— Talvez nos esbarremos por aí, nunca se sabe. Até mais.
O levo até a porta, vou para o quarto me arrumar, pego a bolsa de viagem deles, colocando tudo que eles possam precisar, como fralda, leite, essas coisas, meu celular no bolso e saímos.
Nunca aprovei a relação do meu irmão com a cobra da Mia, porém, amo os gêmeos. A Kimberly e o Ethan não tem nada a ver com isso, especialmente, as bobagens que a mãe fez.
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Lorena Narrando
Cheguei da faculdade completamente exausta, me sentindo um caco.
— Boa noite, minha menina. — Elena me cumprimenta assim que me vê entrando em casa. Ela sempre alegra meus dias.
— Não deveria estar dormindo, Leninha? — ando até a cozinha e repouso meus livros sobre o balcão.
— Já estou indo, só estava preparando seu jantar, imagino que deve estar faminta. — sorrio somente em ouvir a palavra comida.
— Ah, como eu te amo, Leninha — saio de detrás do balcão, me aproximando dela e tascando um beijo no rosto — Não sei o que faria sem você.
Elena dá uma gargalhada gostosa de se ouvir.
— Vai tomar um banho para relaxar, depois volta, que a comida já está quase pronta.
— Tudo bem, Leninha — pego meus livros no balcão — Já volto.
Sigo para meu quarto, coloco meus pertences em cima da mesinha de estudo, já vou logo tirando a roupa e entro no box do banheiro, me permitindo relaxar debaixo da água morna do chuveiro. Aproveito para lavar os cabelos que estão oleosos de tanto suor, devido ao esforço diário, principalmente na academia.
Após uns bons minutos debaixo da água, espremo o cabelo, retirando o excesso de água, enrolo uma tolha no corpo e outra nos cabelos e saio, indo para o closet. Visto uma roupa bem quentinha, porque ultimamente o tempo aqui não está colaborando. Opto por uma calça e casaco de moletom, penteio os cabelos e volto para a cozinha. Da sala já consigo sentir o delicioso aroma de comida boa.
— Nossa! Que cheiro maravilhoso — sento na banqueta atrás do balcão da cozinha — Não me diga que fez o que eu acho que fez. — olho para Elena com expectativa.
— Se pensou em macarronada, acertou em cheio. — ela vira em minha direção, segurando a panela e me servindo — Buon appetito (Bom apetite.) — fala a última parte em italiano.
— Hum! Que delícia. Isso está maravilhoso, Leninha. — fechos os olhos saboreando.
— Que bom que gostou, meu amor. Agora vou dormir, sua velha está cansada. Pode deixar os pratos na pia, que amanhã eu lavo. — deposita um beijo em minha testa e sai.
Estava com tanta fome, que não demoro a terminar de comer. Levo os pratos para a pia, mas obviamente que eu jamais deixaria para Elena lavar amanhã. Lavo a louça rapidamente, enxugando a pia em seguida.
Apago a luz da cozinha e estalo o pescoço a medida que vou para o quarto. Preciso de uma boa noite de sono com urgência.
Já em meu quarto, sento na cama e antes de dormir, pego o porta-retrato em cima da minha mesinha, onde tem uma foto minha com a Laura, quer dizer, o Caleb também estava nela, antes de eu rasgar o pedaço em que ele estava, por pura raiva. Suspiro lembrando desse dia, foi maravilhoso, sinto muita falta da minha melhor amiga, aliás, sinto falta de todos, especialmente do papai e da vovó.
Bocejo, não aguentando mais resistir ao cansaço, então deixo o porta-retrato em seu devido lugar e deito na cama, me deixando ser vencida pelo cansaço.
**
Desperto desnorteada com o celular tocando, passo a mão nos olhos, esperando a alma voltar para o corpo. Estico a mão até a mesinha e pego meu celular.
— Quê? O que foi? É terremoto? Fogo? — atendi sem ver quem era.
— Calma, amiga. Sou eu, a Laura. — respiro fundo.
— Isso lá é hora de ligar para alguém, filha da pu.ta? — estou irritada.
— Quanto amor… Pelo visto alguém acordou do lado errado da cama… — Laura fala com deboche.
— O que quer, Laura? Ainda nem amanheceu, são duas horas da madrugada, estou morta de cansaço. — desperto mais.
— Desculpa, amiga. Preciso de sua ajuda, já não sei mais o que fazer.
— O que houve, amiga? Você está bem? — sento na cama subitamente.
— Estou passando por uns problemas, então só me resta pedir ajuda a você.
— Pode falar. — ouço atenta
— Você poderia vir passar um mês aqui comigo? — engulo em seco sem saber o que dizer.
Fico calada alguns segundos, tentando assimilar sua proposta.
— Lô? Tá aí? — desperto do meu transe com a voz da Laura me chamando.
— Oi, desculpa…
— Então? Você vem?
— Qual é o problema, amiga? Se me falar, talvez eu consiga te ajudar daqui mesmo. Você sabe, tem a academia, a faculdade, tenho uma vida aqui, não posso largar tudo assim do nada e viajar.
— É sobre minha família, Lô. Não dá para explicar por telefone, preciso muito de você aqui. — a voz dela soa bem triste — Por favor, amiga…
Minha amiga costuma ser tão dramática, não sei o que pensar, jamais negaria um pedido dela, porque ela esteve comigo, me ajudando em todos os momentos ruins que passei.
— Me dá um tempo para pensar, pode ser? Eu teria que reorganizar toda minha vida para ficar um mês fora.
— Nem vem, Lô. Sei que terá férias da faculdade mês que vem, então seria menos responsabilidade. — é, dessa vez ela me pegou.
— Como eu disse, me dá um tempo para pensar, em breve te dou uma resposta. Ok?
— Tudo bem, amiga. Já fico feliz só em saber que irá pensar no assunto.
— Agora preciso descansar, Laura. Beijo.
— Te amo, amiga.
Encerro a ligação e fico ainda um tempo tentando processar tudo que ouvi.
— Voltar para Londres? Após tanto tempo? E pior ainda, arriscar rever o Caleb, voltar ao passado? — essas são todas as perguntas que rodeiam a minha mente nesse instante.