Capítulo 1

1981 Words
Lorena Narrando A dança para mim, é como andar nas nuvens, sinto como se estivesse literalmente flutuando quando estou no palco, não sei explicar, mas cada passo, cada movimento, levam embora todas as minhas preocupações, não existe mais ninguém ali, somente eu e o palco. Acredito que todo mundo deveria sentir isso com alguma coisa na vida, todos deveriam ter um sonho e segui-lo, agarra-lo com unhas e dentes. Tudo começou anos atrás, após sofrer uma grande decepção amorosa, sempre sonhei em ser bailarina, porém, depois dessa decepção, decidi ser a hora, que eu precisava seguir meus sonhos e deixar tudo para trás, então assim o fiz. Atualmente estou cursando balé, na melhor academia de artes da Itália. Termina o ensaio e é hora de ir para casa. — Sua técnica está cada vez melhor, Lorena. — Amélia, minha professora como sempre, me elogiando. — Obrigada, senhorita Jones. — agradeço, enquanto organizo meus pertences na bolsa. — Já disse que não precisa de formalidades, nos conhecemos há anos. — Perdoe-me, força do hábito. — sorrio. — Tudo bem, querida. Até a próxima aula. — assinto com um menear de cabeça e ela se afasta. — Olá, bela dama. — meu amigo Andrew, fala comigo de um jeito brincalhão. — Deixa de besteira, Andy. — lhe dou um soco de leve no ombro, o mesmo ri. — Então, a senhorita Jones estava puxando seu saco outra vez? — reviro os olhos. — Ela não estava puxando meu saco, não posso fazer nada se a Amélia gosta do meu profissionalismo. — dou de ombros. — Convencida. — Sou, porque as pessoas me convencem de que sou uma ótima dançarina. — Posso te acompanhar até em casa? — Claro, Andy. Saímos da academia de artes, seguindo para casa. Andrew me deixa na entrada do prédio onde moro. Nos despedimos, então pego o elevador, indo para o quinto andar, onde fica meu apartamento. Nem bem abro a porta e meu celular já está tocando. — Como vai a melhor bailarina da Itália? — é a Laura, minha melhor amiga, desde que me entendo por gente. — Oi, amiga. Quanta animação, hein... — comento, sentando-me no sofá, exausta. — Fiquei com um carinha ontem, Lô. — se bem a conheço, deve estar até batendo palminhas. — Você não muda, Laura. — E você não vive sem mim. — reviro os olhos. — Conta logo como foi com talzinho lá, sei que não vai me deixar em paz, enquanto eu não te ouvir. — Ainda bem que sabe. Bem, ele é lindo, tem olhos castanhos, um corpo maravilhoso, que nossa! Deu até um calor, só de lembrar. — rio de minha amiga. — Não me diga que já foram para cama no primeiro encontro... — E você acha mesmo que eu iria esperar? Amiga, se você visse o corpo daquele homem, garanto que daria no restaurante mesmo. — solto uma gargalhada. — Sabe que isso não é verdade, eu nunca daria no primeiro encontro. — Ah, esqueci... Você é do tipo romântica. — tem desdém em seu tom de voz. — Vai se ferrar, Laura! — Quanto amor... — bufo. — Como estão seus pais? — mudo de assunto, porque sei que ela não vai parar de falar no tal homem com quem saiu. — Estão bem, vivem falando de você. Inclusive, o Caleb tem evitado aparecer na casa deles, justamente por esse motivo. Minha amiga e essa mania de sempre tocar no assunto Caleb. — Também morro de saudade deles, espero revê-los algum dia. — Sei o que está fazendo, Lô. — Não sei do que está falando. — me faço de desentendida. — Sabe muito bem, sua sonsa — tenho vontade de rir — Já se passaram tantos anos, porque ainda evita esse assunto? — Laura, você precisa entender de uma vez por todas, que apesar de ter sido há muito tempo, nunca o esqueci. Então falar sobre isso, ainda me machuca um pouco. — Eu não consigo entender... — O quê? — Vocês e meu irmão são duas pessoas complicadas. — Que tal mudarmos de assunto? Tem visto meu pai e a vovó? — ouço sua língua estalar na boca, insatisfeita. — Dificilmente os vejo, ando muito ocupada, amiga. — Com o quê? Um silêncio se forma. — Laura? Amiga? — Desculpa, Lô. É que meu gato subiu na cama e me assustei. — não acredito, mas deixo o assunto quieto, por enquanto. — Tudo bem, amiga. Agora preciso desligar, acabei de chegar da academia e preciso urgente de um banho. — Vai mesmo, estou sentindo o mau cheiro daqui. — Ha ha ha, muito engraçada. Encerro a ligação e fico pensativa por alguns minutos sobre nossa conversa. Por mais que eu tente evitar, vez ou outra, meus pensamentos vão até o Caleb, isso me deixa com raiva e frustrada ao mesmo tempo. Durante todos esses anos em que estou na Itália, tentei esquecê-lo, porém, nunca consegui. Deixo esses pensamentos de lado, indo até meu quarto. Coloco minha bolsa em cima da cama, tiro o collant e o restante da roupa que uso para as aulas na academia de dança e entro na suíte, para tomar um belo de um banho. Não demoro muito, quando saio com a toalha enrolada no corpo, ouço um barulho de notificação em meu celular, sigo até a cama, tirando-o da bolsa. É o Kevin, meu ficante, nós meio que temos um rolo, nada sério, apenas dormimos juntos, às vezes. “E aí, gata. Que tal um cinema hoje?” Kevin. “Sei não, Kevin. Não estou no pique para sair.” Lorena. “Já que é assim, então ficamos em seu apartamento mesmo, uma noite mais tranquila, pizza e filmes.” Kevin. Sinceramente, queria mesmo era descansar hoje, tenho que estudar, semana que vem começam as provas da faculdade, mas o Kevin é um ótimo amigo, não tenho coragem de negá-lo, apesar de saber bem onde nossa noite vai acabar. “Tudo bem, pizza e filmes.” Lorena. “Assim é que se fala, até mais tarde, gata.” Kevin. Largo o celular e vou me vestir, pego um vestidinho solto, bem confortável, já que não pretendo sair e vou para a cozinha, fazer o almoço. ** Caleb Narrando O dia hoje foi bem cansativo, aliás, os últimos dias têm sido assim, minha vida está um completo caos. Na empresa, é reunião atrás de reunião, estou sobrecarregado, para completar, ainda tem meus filhos, não é fácil ser pai solteiro, muita responsabilidade, não os culpo por nada, mas é complicado. Após a última reunião do dia, vou até minha sala, organizo minha mesa, pego minha maleta e sigo para o estacionamento. Entro no carro e retiro o terno, afrouxando a gravata, ao fim do dia o que mais anseio é chegar em casa e descansar, se bem que depois dos meus filhos, isso é quase impossível. Dou partida no carro, pegando a estrada, indo para a casa da minha irmã, ela cuida dos meus filhos durante o dia, porque não confio em outra pessoa para isso. Paro em frente ao prédio, apertando o botão para travar o carro e sigo para seu apartamento. Toco a campainha e sem demora sou atendido pela Laura. — Oi, maninho. — me cumprimenta ainda na porta. — Oi, Laura. — faz menção para que eu entre. — Que cara de bun.da é essa? — minha irmã e sua boca suja. — Estou cansado, Laura. — caminhamos até meus bebês, que estão dormindo feito anjos, no berço. Então sentamos um pouco no sofá, aproveito para relaxar. — Como estão as coisas na empresa? — Uma loucura, mas eu aguento. — permaneço sério. — Sabe... Falei com a Lorena hoje. — respiro fundo ao ouvir esse nome. — Isso não me interessa, Laura. Sabe disso. — Porque não liga para ela? — É sério que vamos entrar nesse assunto outra vez? — arqueio as sobrancelhas. — Sim, é sério e você vai me ouvir. — fala autoritária. Massageio as têmporas impaciente, porque estou cansado demais para ouvi-la, mas também não quero ser grosso com ela. — O que há com vocês dois? Nunca sequer conversaram sobre o que aconteceu. — O que queria que eu conversasse com ela, Laura? Me diz. A Lorena foi embora sem mais, nem menos, fiquei aqui como um pateta, não sei onde está, nem tenho notícias dela, faz anos. — Se o problema é esse, ela está na Itália. — Não, não me importa onde a Lorena está, menos ainda o que tem feito. Tenho vivido muito bem sem ela e assim, irei permanecer. — acabo soando mais irritado do que pretendia. — Deixa de ser cabeça dura uma vez na vida, Caleb! — Laura também levanta a voz. — Já chega, Laura! — ao falar isso, ouvimos o choro dos meus filhos, certamente se assustaram com nossa discussão. Rapidamente, vamos até o quarto, onde eles ficam quando estão na casa da tia. — Calma, meus amores. — Laura tenta acalmá-los e eles param de chorar somente em ouvir o som de sua voz. Acho incrível essa conexão que eles tem, é inexplicável. Já eu, desde que minha esposa faleceu, não consigo me conectar com meus próprios filhos, é como se eles me lembrassem o tempo todo da mãe deles. Sinto como se fosse tudo culpa minha. Colocamos eles no carrinho, e vamos até à porta do apartamento. — Tchau, meus amores. A titia ama vocês. — dá um beijo na bochecha de cada um deles, que sorriem. — Até amanhã, Laura. — me despeço dela. — Até, maninho. E por favor, pensa sobre o que falei... — alisa meu rosto — Só quero que seja feliz, quero ver novamente um sorriso nesse rosto, que desde a morte da Mia, não o vejo. — sorrio sem mostrar os dentes. Sempre fomos assim, podemos brigar, mas jamais deixamos de ser um pelo outro, nos amamos demais. — Eu sei, maninha. Não se preocupa, estou bem assim. Laura fecha a porta e vou até o elevador, para sair do prédio. Coloco meus filhos na cadeirinha, dentro do carro, verifico se o cinto está bem seguro, guardo o carrinho no porta-malas e entro no carro, indo para casa. No caminho, confesso que pensei bastante sobre o que conversamos, mesmo tentando não pensar na Lorena. Graças a Deus, o trânsito estava tranquilo, dessa forma, não demoramos a chegar em casa. Saio do carro, tiro o carrinho do porta-malas, pego meus bebês que voltaram a dormir durante a viagem, colocando-os no carrinho e entro no luxuoso prédio em minha frente, indo para minha cobertura. Benefícios de ser dono de uma grande empresa de administração. Já em meu apartamento, vou direto para o quarto dos meus filhos, coloco-os no berço, faço um breve carinho na cabeça dos dois, ligo o abajur e saio. Direciono-me ao meu quarto, indo para o banheiro, permito que a água morna relaxe meu corpo, levando todos os pensamentos negativos embora. É assim desde que minha esposa se foi. Não tenho mais vida, não sorrio mais, nem forças para cuidar dos nossos filhos, eu tenho tido. Saio do banheiro com a toalha enrolada na cintura, indo até o closet, visto-me somente com uma cueca e calça moletom. Sento na cama e abro a pequena gaveta da mesinha ao lado, pegando um porta-retrato, onde tinha uma foto, nela estávamos eu, a Lorena e a Laura, tempo muito bom. Isso me faz recordar de cada momento que passei ao lado da Lorena, meu primeiro amor, fomos tão felizes, mas acabou repentinamente, sem ao menos nos dar tempo para despedidas ou explicações, o que restou foi apenas o ressentimento e o rancor. Atualmente me pergunto se realmente foi amor ou apenas uma paixão explosiva, porque é bem difícil acreditar que tenha acabado dessa forma. Respiro fundo e guardo o porta-retrato na gaveta, fechando-a em seguida.
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