— Acho que está na hora de assinar, não acha? O velho morreu e podemos nos separar.
Ethan estende o documento para mim. Esses trinta anos juntos não significaram nada para ele, e mesmo sabendo disso desde o segundo em que nos casamos, dói aceitar.
Ele nunca parou de pensar em Rachel. Viver à sombra de uma mulher que esperou por ele a vida toda não foi fácil. Por isso, abro a pasta e peço algo para assinar.
— Nossa, que legal. Comento sarcasticamente quando ele me entrega a sua caneta mais cara.
— Pode ficar com a caneta. Sei que você gosta muito dela.
— Não, não quero mais notícias suas depois disso. Respondo, e ele me olha fixamente com aqueles olhos verde-esmeralda.
O desgraçado continua tão lindo quanto era na juventude, mesmo com alguns cabelos brancos agora. Eu também não sou feia, eu sei, pelo jeito que ele ficou olhando para o meu decote a noite toda. Mas amor é amor, e entre nós só rolou se*xo sem graça porque eu decidi puni-lo me transformando num manequim.
Estou guardando os meus movimentos sensuais para o primeiro cara com quem eu tran*sar depois de assinar os papéis do divórcio.
— Você realmente não quer nada de mim? Ele pergunta, zombeteiro.
Mesmo com o coração despedaçado, eu me contenho e assino sem hesitar. Se eu não tivesse passado semanas praticando isso, talvez não conseguisse, mas dessa vez imagino que seja só mais um dos guardanapos que uso no almoço.
Não, não é um guardanapo, é o meu m*aldito divórcio. Deixei a minha juventude escapar porque estava presa num casamento onde não conseguia me realizar como queria, onde me foi ne*gada a chance de ser mãe porque Rachel tem um filho idi*ota que será o herdeiro de Ethan.
Mesmo assim, por que ainda dói? Claro, porque o meu coração pertence somente a ele. Espero que esta noite eu finalmente tenha coragem de comer outras carnes e aproveitar o que resta da minha vida se*xual. Espero que não lhe reste muito, mas da última vez que ele fez isso comigo — dois dias atrás, para ser exata — ele me mostrou que ainda tem muita energia para Rachel.
Droga, eu deveria ter tomado a iniciativa pelo menos uma vez. Talvez ele tivesse se apaixonado por mim. Penso tristemente.
— Aqui, querido. Adeus para sempre. Digo, pegando a minha bolsa.
— Aonde você pensa que vai? Ainda não terminamos o jantar. Diz ele, tentando segurar o meu pulso, mas eu rapidamente puxo o meu braço de volta. — Além disso, pedi a sua sobremesa favorita.
— Não se preocupe, vou terminar o jantar em outro lugar. Digo, piscando para ele. — Um delicioso bolo de chocolate.
O queixo de Ethan cai quando ele me vê levantar e me virar para Santino, o moreno lindo que contratei para me ajudar a sair com dignidade esta noite. O cara poderia ser meu filho, mas eu continuo interpretando a mulher louca e ousada.
— Tchau, querido. Digo, inclinando-me para frente para que ele possa realmente apreciar o que está prestes a perder. — Dê um oi para sua namorada por mim, tá bom? E se você quiser me contratar como florista, ficarei encantada.
Santino pega o meu braço. Uma parte de mim espera que Ethan se levante, fique com ciúmes e me diga para cancelar tudo, mas...
— Boa noite. Eu também planejava me divertir esta noite.
— Que bom! Exclamo, sorrindo.
Vá para o infe*rno, seu filho da p*uta. Penso enquanto me afasto com passos sensuais.
Eu sei que ele não se importa comigo, que ele estará correndo para os braços do amor da vida dele agora mesmo. No entanto, sinto o olhar dele sobre mim como um fogo acariciando a minha nuca.
Não tem como ele não me ver. Todos no restaurante estão admirando o quão bonita eu estou hoje. E não é só bajulação — o que é bem apropriado, dada a minha profissão — mas porque é verdade. Herdei a beleza mediterrânea da minha mãe. Ela ainda se recusa a descansar em paz e já expulsou da mesa aqueles velhos que nos obrigaram a casar.
— Você está bem? Pergunta Santino enquanto entramos no carro.
— Não, de jeito nenhum. Suspiro. — Você poderia me levar para casa?
— Por que não vamos tomar um drinque em algum lugar?
— Querido, você está falando com uma mulher que poderia ser sua mãe. Rio, enxugando as lágrimas. — Uma garrafa e eu desmaio.
— E daí?
— Provavelmente vamos acabar na cama, e eu...
— Você é uma mulher linda. Sinceramente, seria uma honra acabar na sua cama.
O meu estômago se contrai enquanto o examino, mas quase imediatamente lembro-me de Ethan. Acho que não consigo, pelo menos não agora, dormir com outro homem. Não tenho vontade nenhuma.
Pelo menos não até eu me virar para a porta do restaurante e ver meu marido abraçando e beijando Rachel. O jeito como ele a olha e a segura mostra o quanto ele a ama, que nunca houve espaço para mim no seu coração.
— Sabe de uma coisa? Sim, vamos tomar um drinque e ir para a cama. Digo, me virando para ele.
O garoto arfa antes de se inclinar para me beijar. Ele faz isso tão bem que até me aquece um pouco, mas não apaga a ardência do ciúme e da decepção.
Quando o beijo termina, viro-me para colocar o cinto de segurança e então encontro o olhar de Ethan. Não sei se é raiva reprimida ou serenidade, mas ele definitivamente me viu.
Esboço um sorriso e mando um beijo para ele antes de colocar o cinto. Santino não espera o meu ex-marido se aproximar: liga o carro.
O que acontece a seguir é um borrão, mas acabamos na fonte central bebendo como dois adolescentes.
— Na minha época, este lugar era a principal atração turística da cidade. Conto a ele. — Um dia, boba que eu era, desejei poder me casar com o homem que amava. O meu desejo se realizou, mas como…
— Você jogou uma moeda para ele?
— Você teve que jogar uma? Pergunto, atônita, olhando fixamente para a fonte. — É que…
— Sim, mas antigamente diziam que não era necessário. Ele explica, rindo. — Bem, foi o que a minha mãe me disse. Eles faziam isso para que não enchesse de moedas.
— Bem, vou jogar uma moeda. Murmuro, arrastando um pouco as palavras.
Acho que a cerveja está começando a fazer efeito.
— Sério? Eu também.
— Não, é melhor você ficar de olho na polícia. Dou uma risadinha. — Imagina? Sair da prisão do meu casamento só para entrar em outra.
— Bem, pelo menos você sairia da prisão sob fiança e sem sofrer.
— Ah, você é tão fofo, pelo amor de Deus. Exclamo antes de dar outro gole. — Vai, vai ver se ninguém está nos observando.
— Tá bom.
Coloco a garrafa na torneira e, cambaleando um pouco, abro a minha bolsa. Mesmo que Ethan sempre me desse cartões, eu nunca perdi o hábito de usar dinheiro vivo, até mesmo moedas.
— Eu queria... O que eu poderia querer? Não posso mais ser mãe, não posso me casar com ninguém. Ainda sou atraente, mas minha chance passou. Droga!
Faço um pequeno escândalo, com a moeda na mão. Penso em muitas coisas absurdas, mas uma em particular — a mais extravagante — é o que acabo dizendo.
— Eu queria poder voltar no tempo, para aquele dia em que o nosso casamento foi arranjado. Murmuro, com o coração partido. — Eu queria poder voltar e fazer o que deveríamos ter feito.
— O que você pediu? Pergunta Santino, curioso.
— Nunca ter me casado. Respondo, finalmente jogando a moeda.
Embora nada aconteça, jogar a moeda finalmente me relaxa, e deixo aquele garoto me beijar e me tocar.
Mas nada mais acontece. A segunda cerveja subiu tanto à minha cabeça que tive que expulsar o coitado do meu novo apartamento, mas combinamos de nos encontrar outro dia, dessa vez para um encontro de verdade.
— Ethan, meu amor. Solucei enquanto me jogava na cama. — Por que você nunca me amou? Eu teria te feito feliz com os meus movimentos sensuais.
Pela primeira vez na vida, consegui dormir sem tirar a maquiagem. Mesmo assim, o sono foi profundo, delicioso e revigorante, porque acordei me sentindo uma jovem mulher.
Depois de me espreguiçar, abri os olhos e…
— Onde estou?! Gritei, atônita.
Girei várias vezes, sem reconhecer o quarto em que estava. Quer dizer, eu sei onde estou, mas não deveria estar aqui. Este é o meu quarto na casa da minha mãe, e tudo está arrumado como se eu nunca o tivesse esvaziado.
— Mãe, o que você fez?! O que eu fiz? Oh, pelo amor de Deus…
—O quê?! O que foi, querida?
— MEU DEUS DO CÉU! Quem é você e o que fez com a minha querida mãe?!
Minha mãe está com a minha idade, cinquenta e cinco anos, ou talvez menos, só que ela viveu a vida dela melhor que a minha porque largou meu pai. Como isso é possível?
— Querida, eu sou sua mãe, o que foi? Ela pergunta, assustada. — Meu amor…
— Que ano é este? Quantos anos você tem? E eu?
Olho para as minhas mãos. Embora ainda não estejam enrugadas, a minha pele está mais grossa, mais jovem. O que é isso?
— Dois mil e vinte e cinco, por quê? O que aconteceu com você? Bateu a cabeça?
— Não, não, não, não pode ser…
Minha mãe me mostra o celular com as mãos trêmulas, mas em vez de olhar a data, abro a câmera frontal.
Definitivamente me pareço com vinte e cinco anos de novo.