Adrian
Minha vida estava mudando, e eu não estava pronta para isso. Claro, desde criança sabia que esse momento chegaria, mas não imaginava que seria tão rápido. Nascer nesta família, com o DNA do meu pai, tornava tudo mais difícil ultimamente.
Desde sempre me incomodava a ideia de ser diferente. Não era só pela riqueza ou pelo poder que meu pai exercia na cidade, especialmente neste colégio. Nossa linhagem vinha de tempos antigos, e éramos forçados a ser o que não queríamos.
Pelo menos eu me sentia assim. Todos os outros – meus amigos de fora do colégio, tios, tias, primos – estavam há séculos amaldiçoados a se transformar em algo que a humanidade desconhecia. E, nos piores momentos, essa criatura perdia a noção de si mesma, conectando-se a um instinto primitivo e atacando tudo ao redor.
Sempre tive problemas com a raiva, mas, aos 17 anos, a situação piorou. Eu não queria dores de cabeça ou pesadelos com meu futuro, mas meu pai dizia que era um medo inútil, que eu precisava aceitar. Não havia como escapar. Há muito tempo, nossos ancestrais tomaram decisões desprezíveis, e isso nos condenou a uma maldição.
Uma bruxa poderosa selou nosso destino, transformando cada um de nós em algo que eu desprezava. Na noite anterior, vivi algo novo. Meu pai sempre avisou que esse momento chegaria, mas quando perdi a noção de mim mesmo, foi como se eu não fosse mais humano, e sim outra coisa.
Quando despertei na floresta, completamente confuso, senti o pânico tomar conta. Felizmente, sempre havia alguém me vigiando. As transformações estavam se tornando frequentes, e meu corpo doía. Mesmo curando-se rápido, a sensação dos ossos se quebrando e moldando àquela fera era terrível. Tomei um remédio para dor de cabeça, esperando que pudesse voltar à escola e à rotina. Mas, desde os 17 anos, eu não era mais normal.
Eu ouvia o que não deveria ouvir, sentia emoções indesejadas e conseguia farejar aromas a quilômetros de distância. Hoje, após me transformar e acordar longe de casa, algo na escola estava diferente. Quando vi aquela garota, senti que já a conhecia, como se algo nos ligasse. Seus olhos não saíam de mim, e era como se ela tentasse invadir minha mente. Mas eu não podia permitir que ninguém descobrisse o quão r**m eu era por dentro.
- Adrian, você está me ouvindo? - A voz do meu melhor amigo, Jacob, me trouxe de volta. Ele me olhava com preocupação. - Ultimamente, você está no mundo da lua. - Resmungou.
Lua. m*l sabia ele o quanto isso me afetava. A lua cheia despertava em mim um descontrole cada vez maior, e com a aproximação dos meus 18 anos, tudo piorava. A puberdade para os lobos era diferente: primeiro, vinha a fase de semi-transformação. O tato e o olfato ficavam apurados, a força descontrolada e a raiva crescente. Pouco a pouco, você se transformava.
Meus ossos se quebravam e remontavam toda vez que a fúria me dominava, transformando-me em um lobo jovem. Os pêlos surgiam, os olhos mudavam, e a lua me afastava cada vez mais de casa. Quando isso acontecia, eu esquecia tudo. Não sabia onde estava, o que fizera, nem como chegara lá.
Meu pai dizia que era comum entre os membros da alcateia, mas enquanto eles aguardavam ansiosos, eu odiava e rezava para que nunca acontecesse.
- O que você quer, Jacob? - Perguntei, desmotivado.
Estávamos na cantina, um lugar que antes eu gostava, mas que agora me deixava irritado. Os cheiros misturados e os gritos dos colegas pareciam berrar nos meus ouvidos.
- O jogo de sexta é importante. - Disse ele, apoiando-se na mesa. Ao levantar o olhar, vi a novata. Ela era estranha, familiar de algum jeito, como se houvesse uma conexão inexplicável. Mas toda vez que ela me encarava, eu me sentia vulnerável, como se quisesse invadir minha mente. - O treinador quer mais treinos. Como capitão, você tem responsabilidade.
- O time está focado. Conhecemos nossos adversários. Será fácil vencer. - Respondi, desviando o olhar da garota.
- Gosto da sua confiança, mas acho que devemos nos esforçar mais.
Ela continuava me encarando. Mesmo sem olhar de volta, eu sabia, e isso me deixava furioso.
- Que tal reunirmos o grupo? - Levantei-me, sem fome. - Vamos treinar mais.
- Estou surpreso! - Jacob ficou espantado.
- Nos encontramos em 10 minutos, no campo. - Falei, irritado, encarando a garota. Mas ela não se intimidou. Saí dali sem olhar para trás. Quem ela pensa que é para me encarar assim?