O verão sempre teve um gosto diferente para mim.
Enquanto outras pessoas falavam de liberdade, festas e risadas sem fim, o meu verão era silencioso… quase como um segredo guardado entre as árvores e o céu. Talvez porque, mesmo cercada por uma família que me amava, eu sempre tive a sensação de que havia algo em mim que não pertencia completamente àquele mundo.
Meu nome é Sina. E essa é a história de como tudo começou a mudar.
As férias daquele ano foram… perfeitas. Estranhamente perfeitas.
Meus pais — Laura e Henrique — decidiram alugar uma casa afastada da cidade, perto de uma floresta densa que parecia não ter fim. Eles sempre diziam que precisávamos de “tempo em família”, e, sinceramente, eu nunca reclamava. Eu os amo. Mesmo sabendo, no fundo, que não compartilho o sangue deles.
Fui adotada quando ainda era bebê. Nunca senti falta de algo específico… mas sempre senti falta de algo indefinido.
Minha irmã, Elise, é o oposto de mim. Ela é luz. Literalmente. Onde ela vai, tudo parece mais leve, mais fácil. As pessoas gostam dela instantaneamente. E eu? Bem… eu observo.
— Sina, você vem? — Elise gritou da varanda no primeiro dia, com aquele sorriso que parecia iluminar até o céu nublado.
Eu estava parada olhando para a linha da floresta. Havia algo ali. Não algo que eu pudesse ver… mas sentir.
— Já vou — respondi, desviando o olhar.
Mas a verdade é que, durante toda a viagem, aquela sensação nunca me deixou.
A casa era antiga, feita de madeira escura, com janelas grandes e um cheiro constante de terra molhada. À noite, o vento atravessava os corredores como um sussurro… e, às vezes, eu jurava ouvir algo mais.
Não contei isso a ninguém.
No segundo dia, saí sozinha para caminhar. Meus pais estavam preparando o almoço, e Elise estava ocupada tentando tirar fotos “perfeitas” para suas redes sociais.
A floresta me chamou.
Sim, chamou.
Cada passo que eu dava em direção às árvores parecia… inevitável. Como se eu já tivesse feito aquele caminho antes, mesmo sabendo que nunca estive ali.
As folhas secas estalavam sob meus pés, e o ar ficava mais frio à medida que eu avançava. Então eu parei.
Porque ouvi.
Uma voz? Não exatamente.
Era mais como um pensamento que não era meu.
“Você voltou…”
Meu coração disparou.
— Tem alguém aí? — perguntei, minha voz falhando no final.
Silêncio.
Mas não um silêncio comum. Era pesado. Vivo.
Eu devia ter voltado naquele momento.
Mas não voltei.
Dei mais alguns passos… até encontrar uma clareira.
E foi ali que senti pela primeira vez.
Algo dentro de mim respondeu àquele lugar.
Como se uma parte esquecida de quem eu sou tivesse despertado.
Senti um arrepio subir pela minha espinha, mas não era medo. Era… reconhecimento.
Então a sensação desapareceu.
Assim, de repente.
Voltei correndo para casa, tentando convencer a mim mesma de que era só imaginação.
E, durante o resto das férias, não toquei mais no assunto.
Mas as coisas começaram a mudar.
Pequenas coisas.
Sombras que pareciam se mover sozinhas.
Reflexos estranhos no espelho.
E sonhos…
Sonhos com olhos brilhando na escuridão.
—
Agora estou de volta.
De volta à minha vida “normal”.
Sentada na sala de aula, ouvindo o professor falar sobre algo que eu não consigo prestar atenção.
Porque aquela sensação… voltou.
Mais forte.
Mais próxima.
Eu olho pela janela da escola.
E vejo.
Por um segundo… apenas um segundo…
Uma sombra parada entre as árvores do outro lado da rua.
Observando.
Observando a mim.
Meu coração acelera.
E, dessa vez, eu sei.
Não é imaginação.
Algo veio comigo da floresta.
E seja lá o que for…
está me chamando novamente.
O pátio da escola de Vale Sereno sempre foi igual.
Barulhento, mas vazio.
As pessoas conversam, riem, vivem pequenas vidas dentro de círculos que nunca mudam… e, ainda assim, parece que nada de verdade acontece ali.
Eu estava encostada perto da grade, olhando para as árvores do outro lado do muro.
Não eram diferentes das outras árvores da cidade.
Mas, desde que voltei das férias… eu não consigo parar de olhar para elas.
O vento soprou leve, fazendo as folhas se moverem.
E, por um instante…
Eu tive certeza de que algo se movia junto com elas.
Algo que não era só sombra.
— Uau… — uma voz interrompeu meus pensamentos. — Tá tentando hipnotizar uma árvore ou ela te deve dinheiro?
Fechei os olhos por um segundo, já sabendo quem era.
Beyle West.
Abri devagar e virei o rosto, encontrando aquele sorriso debochado de sempre. Ela estava impecável, como sempre — cabelo perfeito, postura perfeita… filha perfeita do prefeito perfeito de uma cidade perfeitamente sem graça.
Ao lado dela, Lia Shannon segurava o riso, claramente se divertindo.
— Talvez ela esteja esperando a árvore responder — Lia completou, inclinando a cabeça, me observando com curiosidade genuína. — Vai que acontece, né?
Revirei os olhos, cruzando os braços.
— Vocês duas não têm nada melhor pra fazer?
— Não — Beyle respondeu imediatamente. — E você claramente também não, já que tá aí encarando o nada com tanta intensidade.
— Não é “nada” — deixei escapar, antes de conseguir me segurar.
As duas trocaram um olhar rápido.
Ótimo.
Agora eu parecia oficialmente estranha.
— Então o que é? — Lia perguntou, dando um passo mais perto. O tom dela não era de deboche… era diferente. Mais suave. Mais atento.
Hesitei.
Porque eu não sabia responder.
Ou pior…
Talvez soubesse, mas não queria dizer em voz alta.
— Esquece — murmurei, desviando o olhar de volta para o pátio.
Beyle soltou uma risadinha.
— Ah, claro. A Sina misteriosa ataca novamente.
— Para, Beyle — Lia cutucou ela de leve. — Você sabe que ela sempre foi assim.
“Assim.”
A palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Diferente.
Deslocada.
Errada.
Antes que eu pudesse responder, senti.
De novo.
Mais forte.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
O ar pareceu ficar mais frio, mais pesado…
E, sem pensar, meus olhos voltaram para as árvores.
Dessa vez, eu vi.
Por um segundo rápido demais para ser real…
Uma sombra mais escura que as outras.
Parada.
Me observando.
Meu coração disparou.
— Sina? — Liah chamou, preocupada. — Você ficou pálida.
pisquei, e não havia mais nada lá.
Só árvores, vento e Vale Sereno sendo… normal.
Mas eu tinha visto algo.
— Eu tô bem — respondi rápido demais, me afastando da grade. — Só… só tô cansada.