A noite caiu pesada sobre Vale Sereno.
Sina caminhava sem rumo, seus pensamentos era um turbilhão depois da conversa com os pais. O ar frio da noite ajudava a acalmar… um pouco. Mas não o suficiente.
Sem perceber, seus passos a levaram até os portões antigos do cemitério da cidade.
Ela parou.
O lugar parecia… chamá-la.
As grades enferrujadas rangiam levemente com o vento, e uma névoa fina se espalhava entre as lápides. Sina franziu a testa, sentindo um arrepio profundo.
— Eu não devia estar aqui… — sussurrou.
Mas entrou mesmo assim.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior. O silêncio era estranho, quase vivo. Como se algo observasse cada movimento seu.
Então ela sentiu uma má presença.
Sina virou o rosto rapidamente, e nada.
Mas o coração começou a acelerar.
— Tem alguém aí?
Um rosnado respondeu, Baixo e Ameaçador.
Sina congelou.
Das sombras entre as lápides, dois lobos surgiram lentamente. Seus olhos brilhavam na escuridão, fixos nela.
Os mesmos.
Seu corpo inteiro gelou.
— Não… não…
Ela começou a recuar, mas tropeçou em uma pedra, caindo no chão úmido. Os lobos avançaram, circulando, prontos para atacar.
— SOCORRO! — gritou, a voz falhando.
Um deles saltou—
Mas antes de alcançá-la, uma figura surgiu na frente dela com uma velocidade impossível.
Liah.
— SINAAA! — gritou, ofegante.
Ela se colocou entre os lobos e a amiga, mesmo tremendo.
— Fica atrás de mim!
— Liah, sai daí! — Sina implorou, desesperada.
Os lobos rosnaram mais alto, irritados com a interferência.
Por um segundo… tudo ficou em suspenso.
E então—
Um vulto atravessou a escuridão.
Rápido. Preciso e Mortal.
Um dos lobos foi lançado contra uma lápide com força brutal. O outro tentou atacar, mas foi interceptado no ar.
Adrian Xavier.
Seus olhos brilhavam intensamente na escuridão, e sua expressão era fria — completamente diferente do homem irônico de antes.
Ele segurava o lobo pelo pescoço com uma força desumana.
— Vocês escolheram a presa errada — disse, a voz baixa e ameaçadora.
O animal rosnou, tentando se soltar.
Adrian apenas apertou mais.
— Sumam.
Ele lançou o lobo para longe. O outro, já recuperado, se levantou com dificuldade. Por um instante, os dois hesitaram… e então recuaram, desaparecendo na névoa como se nunca tivessem estado ali.
O silêncio voltou.
Liah ainda estava imóvel, protegendo Sina, mas seus olhos estavam fixos em Adrian, confusos… e desconfiados.
Sina, por outro lado, apenas respirava com dificuldade, tentando processar tudo.
— V-você… — ela começou, com a voz trêmula.
Adrian se virou lentamente para elas.
Por um breve instante, seus olhos encontraram os de Sina… e algo ali mudou. Um brilho curioso. Quase… fascinado.
Mas desapareceu rápido.
— Vocês duas têm um talento impressionante para se meter em perigo — disse ele, com um leve tom irônico.
Liah estreitou os olhos.
— Quem é você…?
Adrian ignorou a pergunta, ainda olhando para Sina.
— Eu avisei — murmurou, quase para si mesmo.
Sina engoliu seco.
— Aqueles… lobos…
Adrian inclinou levemente a cabeça.
— Não eram apenas lobos.
O silêncio caiu novamente, mais pesado do que antes.
Liah deu um passo à frente, ainda protetora.
— Você sabe o que está acontecendo, não sabe?
Adrian sorriu de canto.
— Sei o suficiente.
Sina sentiu um arrepio.
— Então fala!
_ então fala você, Liah… _ começou Adrian _ como sabia o que estava acontecendo?
Liah não respondeu. ficou apenas de boca aberta se perguntando como Adrian sabia o seu nome.
sina encarou os dois por um longo segundo. más não disse nada.
Antes que qualquer uma pudesse reagir, Adrian deu um passo para trás… e, no instante seguinte, desapareceu na escuridão.
Como se nunca tivesse estado ali.
O cemitério voltou a ficar silencioso.
Mas agora… nada era normal. Sina olhou para Liah, ainda tremendo.
— Isso… não pode ser real…
Liah respirou fundo, lembrando da visão.
A caminhada de volta foi silenciosa.
O som dos passos de Sina e Liah ecoava pela rua vazia, enquanto a névoa parecia segui-las, como se o cemitério ainda não tivesse ficado completamente para trás.
Sina abraçava os próprios braços, ainda tremendo levemente. A mente dela repetia a cena sem parar: os lobos… Adrian… e aquela sensação de que tudo aquilo não tinha sido um acaso.
Ao chegarem em casa, Sina abriu a porta rapidamente. As luzes estavam apagadas — seus pais já deviam estar dormindo.
— Entra — disse baixo.
Liah entrou, fechando a porta atrás de si. Por alguns segundos, nenhuma das duas falou nada.
Até que Sina se virou.
— A gente precisa conversar.
O tom dela era sério. Direto.
Liah já esperava por isso.
As duas foram até o quarto de Sina. Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou a pesar.
Até que Sina se virou.
— A gente precisa conversar sobre o que aconteceu.
O tom dela era sério. Direto.
Sina se virou, encarando a amiga.
— Como você sabia?
Liah piscou, tentando ganhar tempo.
— Sabia o quê?
Sina cruzou os braços.
— Não faz isso, Liah. — Sua voz estava firme, mas havia medo ali. — Como você sabia que eu estava no cemitério?
O coração de Liah acelerou.
A imagem voltou à sua mente: Sina caída, os lobos avançando…
Ela engoliu seco.
— Eu… — começou, desviando o olhar. — Eu não sabia exatamente.
Sina franziu a testa.
— Como assim “não exatamente”?
Liah passou a mão no cabelo, claramente nervosa.
— Eu só… tive um pressentimento, tá? — disse rápido demais. — Tipo… uma sensação r**m. E pensei em você.
Sina a encarou em silêncio. Aquilo não soava convincente.
— Um pressentimento? — repetiu, desconfiada.
— É! — Liah forçou um pequeno sorriso. — Acontece… às vezes.
Mas seus olhos não sustentavam o olhar de Sina.
Sina deu um passo à frente.
— Liah… — a voz dela suavizou, mas ficou mais intensa. — Isso não foi coincidência. Você chegou exatamente na hora.
Liah sentiu o peso daquilo.
Ela queria contar. Queria dizer que viu. Que sabia. Que aquilo ia acontecer.
Mas… e se Sina achasse que ela estava ficando louca?
Ou pior… E se aquilo significasse que havia algo errado com ela também?
— Eu só… fiquei preocupada — disse por fim, mais baixa. — E fui te procurar.
Sina continuou olhando para ela por alguns segundos.
Longos segundos. Então suspirou, desviando o olhar.
— Tá…
Mas não parecia convencida.
O silêncio voltou. Carregado de coisas não ditas.
Sina sentou na cama, passando a mão pelo rosto.
— Hoje foi… demais.
Liah assentiu lentamente.
— Foi.
Sina levantou o olhar.
— Aqueles lobos… não eram normais. E aquele cara… Adrian…
Liah se aproximou um pouco.
— Ele salvou a gente.
— Mas ele sabia — respondeu Sina rapidamente. — Ele sabia de tudo. Igual aquele outro… Lucien.
O nome saiu carregado de dúvida… e algo mais.
Liah percebeu.
— Você confia neles?
Sina hesitou.
— Eu… não sei.
E era a verdade.
Ela lembrava do olhar de Lucien… da forma como ele apareceu… como se sempre estivesse por perto.
E agora Adrian. Era tudo grande demais.
Rápido demais. perigoso demais.
Liah sentou ao lado dela.
— A gente vai descobrir — disse, tentando soar firme. — Juntas.
Sina olhou para ela e assentiu, ainda insegura.
Mas havia uma coisa que nenhuma das duas disse em voz alta: Elas estavam mudando.
E não havia mais volta.