Era domingo à tarde, e eu havia decidido aproveitar o dia de folga com Cami. Depois de uma manhã tranquila estudando e organizando meus trabalhos, nada melhor do que uma caminhada pelo shopping, uma pausa do mundo acadêmico e da correria do clube.
Cami e eu estávamos rindo de alguma piada boba sobre um professor, andando pelas lojas sem pressa. Eu usava uma blusa branca de manga comprida, calça jeans escura e tênis confortáveis, cabelo preso em um coque bagunçado e maquiagem mínima nada chamativo, apenas eu sendo eu mesma. Era o tipo de domingo que eu amava: simples, leve e sem pressa.
Enquanto parávamos em frente a uma vitrine de roupas, analisando vestidos para a próxima festa do campus, senti algo diferente. Um olhar… intenso, direto. Olhei em volta e quase engasguei com o choque.
Lá estava ele. William Carter.
Ele estava parado a alguns metros, observando a movimentação, elegante como sempre, charmoso e impecável, mas desta vez… me olhando. Meu coração disparou. Tentei não demonstrar, mas cada fibra do meu corpo percebeu sua presença.
Cami percebeu minha reação antes mesmo de eu conseguir disfarçar. Ela piscou para mim, como se soubesse exatamente quem ele era:
"Uau… quem é aquele?" — sussurrou, tentando soar casual, mas com um sorriso malicioso.
"Ninguém… só alguém que não deveria me notar," respondi, tentando controlar a voz, mas falhando miseravelmente.
William deu alguns passos na direção da loja, passando casualmente perto de nós. Ele não parecia ter intenção de abordar diretamente, mas seu olhar encontrou o meu, e o impacto foi imediato. Era impossível ignorá-lo. Cada detalhe dele — postura, sorriso ligeiramente arqueado, o jeito seguro de andar — me fazia sentir… exposta e fascinada ao mesmo tempo.
Cami percebeu meu desconforto e piscou novamente. "Nossa… parece que ele realmente te reconheceu."
"Shhh… não chama atenção," murmurei, tentando manter a compostura.
Enquanto caminhávamos por corredores cheios de pessoas, William também se movia entre elas, como se estivesse observando tudo e todos, mas, inevitavelmente, voltando os olhos para mim de tempos em tempos. Eu sentia a tensão crescer a cada segundo, e por mais que tentasse focar em conversar com Cami sobre os trabalhos e roupas, minha atenção se desviava constantemente para ele.
Em certo momento, paramos em uma loja de acessórios. Eu examinava brincos discretos quando senti alguém ao meu lado. Olhei e… era ele. William.
"Interessada em jóias?" — disse ele, a voz baixa, provocativa.
Levei um susto, tentando disfarçar a surpresa. "Ah… não exatamente. Só olhando mesmo."
Ele arqueou a sobrancelha, olhando para os brincos e depois para mim. "Sempre observando detalhes, não é? Já notei que você tem esse olhar curioso."
Sorri levemente, mantendo a postura. "Curiosa… talvez. Mas cautelosa também."
Ele se aproximou um pouco mais, sem invadir meu espaço, mas suficiente para que eu sentisse a intensidade dele. "Cautela é bom… mas às vezes, vale a pena se arriscar."
Cami, percebendo a tensão, se inclinou para mim e sussurrou: "Sei que você está sentindo isso também… olha para ele, Lara."
Senti o rosto esquentar, mas mantive a calma, mesmo que meu coração estivesse a mil. William continuava olhando para mim, estudando cada reação, cada movimento. Não havia palavras necessárias, apenas olhares carregados de significado silencioso.
Ele deu um leve sorriso, arqueando a sobrancelha como se estivesse me desafiando:
"Você está tentando se esconder… mas não consegue."
Sorri de volta, o mesmo misto de provocação e fascínio que sentia desde o primeiro olhar. "Talvez eu queira apenas observar de longe."
"Observar de longe é seguro, mas entediante," respondeu ele, com aquele tom confiante e sedutor que me deixava sem fôlego.
Cami, percebendo que a situação estava se tornando eletricamente silenciosa entre nós, tentou intervir de forma casual: "Bom, eu acho que precisamos continuar andando… as lojas não vão se explorar sozinhas 😄"
Concordei rapidamente, agradecida pelo salvamento temporário. Caminhamos, mas eu sentia William ainda próximo, às vezes à distância, às vezes desaparecendo atrás de uma coluna ou vitrine, sempre presente. Cada vez que nossos olhares se cruzavam, meu coração acelerava.
Enquanto saíamos de uma loja, acidentalmente esbarrei em ele mesmo. Olhei para cima e lá estava William, sorrindo com aquele sorriso leve, mas que carregava intensidade suficiente para me deixar tonta.
"Desculpe," murmurei, tentando controlar a respiração.
"Não precisa se desculpar," disse ele suavemente. "Foi bom encontrar você… mesmo que por acaso."
Meu estômago deu um salto. Eu não esperava palavras diretas fora do clube, e muito menos naquele tom casual, quase íntimo. Sorri, tentando manter o mistério. "O acaso às vezes é surpreendente."
Ele inclinou a cabeça, observando meu sorriso. "Sim… e algumas surpresas valem a pena."
Com isso, ele se afastou, desaparecendo entre a multidão, deixando meu coração acelerado e uma sensação estranha, deliciosa e inquietante. Cami percebeu meu estado e piscou novamente, rindo baixinho.
"Ok… você está oficialmente intrigada. Vai admitir?"
"Sim… mas isso não significa nada ainda," respondi, tentando racionalizar, mesmo que cada fibra do meu corpo estivesse ainda sentindo os efeitos daquele encontro inesperado.
Enquanto caminhávamos para a saída do shopping, tentei me concentrar em Cami, nas conversas leves, nas risadas, mas a lembrança de William, aquele olhar intenso e o jeito provocador com que me estudava, persistia. Era impossível ignorar.
Chegando em casa, sentei-me no sofá e respirei fundo. Não havia sido planejado, não havia convite, apenas o acaso. E mesmo assim, aquele encontro tinha mudado algo. William Carter não era mais apenas o homem do clube. Ele era o homem que conseguia me encontrar mesmo nos momentos em que eu achava que estava segura, distraída e distante.
***
Cheguei em casa exausta, mas com aquela sensação boa de domingo: leve, tranquila, com risadas e conversas divertidas com Cami ainda ecoando na minha mente. Fechei a porta do apartamento atrás de mim e deixei a bolsa cair no sofá, suspirando profundamente. A tarde tinha sido agradável, mas, por algum motivo, meu coração ainda batia um pouco mais rápido quando lembrava do homem que eu tinha cruzado no shopping — William Carter.
Decidi que precisava de um banho para relaxar. Ligar a água quente, sentir o vapor envolvendo meu corpo e o cheiro do meu sabonete favorito sempre tinha um efeito quase mágico sobre mim. Entrei no boxe, deixei a água escorrer pelos cabelos, massageei o couro cabeludo, e por alguns minutos, fechei os olhos e me permiti simplesmente… esquecer do mundo lá fora.
Depois do banho, enrolei-me na toalha e fui para a cozinha preparar algo rápido para beliscar. Peguei frutas, iogurte e um pouco de granola, coloquei tudo em uma tigela e sentei-me na pequena mesa do apartamento. Enquanto comia, olhei para os livros espalhados pela sala e decidi pegar um deles. Era um romance brasileiro que eu tinha trazido de casa, um dos poucos que me lembrava da vida no Brasil.
Abri o livro, me encostei no sofá e mergulhei na leitura, tentando focar nas palavras e nas histórias, mas minha mente insistia em voltar ao shopping, ao modo como ele tinha aparecido de repente, à forma como me olhou sem dizer nada. Suspirei, virando a página, lembrando-me de que ainda não havia interação direta, e que, talvez, isso fosse melhor por enquanto. A curiosidade ainda era grande, mas a tensão precisava ser digerida em silêncio.
Enquanto lia, o celular vibrou. Era uma chamada de vídeo de minha mãe. Sorri e aceitei imediatamente.
"Oi, minha filha! Como está o fim de semana?" — perguntou ela, com aquela voz calorosa que sempre me acalmava.
"Oi, mãe! Tudo bem. Foi um dia tranquilo… só passei a tarde com a Cami no shopping, andando pelas lojas e rindo muito," respondi, mostrando a tela com algumas fotos das compras que havíamos feito.
"Ah, que bom, minha filha! Estou feliz que esteja aproveitando. E os estudos, como estão?"
"Também vão bem, mãe. Estou me organizando para a semana, planejando trabalhos e apresentações." — falei, tentando passar confiança, mas sentindo que precisava contar apenas a parte tranquila do meu dia. William ainda não tinha lugar na minha história que eu podia compartilhar com alguém da família.
A conversa continuou, leve e divertida, com minha mãe fazendo perguntas sobre minhas amigas, sobre o apartamento e sobre a vida em Boston. Ela sempre conseguia me fazer sorrir, mesmo nos dias em que eu me sentia cansada ou distraída. Depois de alguns minutos, nos despedimos, prometendo nos falar novamente durante a semana.
Deixando o celular de lado, decidi que era hora de me recompensar com algo ainda mais relaxante. Liguei a TV e escolhi um filme leve, uma comédia romântica que eu sabia que me faria rir e esquecer um pouco da tensão do dia. Peguei outra tigela de frutas e chocolate amargo, me joguei no sofá enrolada na manta e me permiti simplesmente observar a tela, rir nas partes engraçadas e suspirar nos momentos mais fofos.
Enquanto assistia, minha mente vagava entre o filme, a tarde no shopping e, inevitavelmente, os olhares de William. Era curioso como ele conseguia aparecer na minha memória mesmo sem interação direta. Não havia palavras trocadas, não havia flerte, não havia convite… apenas um encontro casual que havia deixado uma impressão profunda. Suspirei novamente, sabendo que aquele homem misterioso tinha um efeito estranho sobre mim, algo que ainda não podia nomear.
Ao final do filme, deixei o sofá de lado e fui organizar algumas coisas na cozinha, preparando lanche para a semana e separando algumas anotações para os trabalhos que precisaria entregar nos próximos dias. O dia terminava tranquilo, mas com aquela sensação de inquietação deliciosa, uma mistura de curiosidade, tensão e fascínio silencioso.
Enrolei-me na manta novamente, fechei os olhos por alguns minutos e respirei fundo. Domingo tinha sido perfeito: risadas com Cami, compras, descanso e pequenas pausas para mim mesma. Mas, no fundo, algo no encontro inesperado no shopping permanecia ali, silencioso, aguardando o momento certo para se revelar.
E assim terminei o domingo, Lara Monteiro da Silva, entre livros, filmes e lembranças de olhares intensos, consciente de que o acaso havia plantado uma semente de curiosidade que, mais cedo ou mais tarde, floresceria.