Lia
O restante da manhã passou mais rápido do que eu esperava, talvez seja porque a cafeteria estivesse mais movimentada.
Ou talvez porque minha mente estivesse mais ocupada do que o normal.
Depois que ele saiu, voltei para o trabalho como sempre fazia.
Servi cafés, anotei pedidos, limpei mesas, era a a rotina de sempre.
Mas, curiosamente, percebi que em alguns momentos meus olhos voltavam para a porta da cafeteria quase automaticamente.
Como se parte de mim estivesse esperando que ela se abrisse novamente, devo estar acostumada com a sua presença.
Balancei a cabeça levemente para mim mesma enquanto organizava algumas xícaras no balcão.
Aquilo era ridículo.
Ele era apenas um cliente.
Um cliente educado, curioso e aparentemente muito interessado em café.
Nada mais.
— Estás pensando de novo — disse Marta atrás de mim.
Virei-me.
— Eu não estou pensando.
Ela cruzou os braços.
— Estás sim.
Peguei um pano e comecei a limpar o balcão.
— Estou trabalhando.
— Claro.
Ignorei o comentário.
Alguns minutos depois, um grupo de estudantes entrou na cafeteria, falando alto e rindo de alguma coisa.
O lugar ficou mais barulhento imediatamente.
Preparei três cafés, duas torradas e um suco enquanto Marta anotava os pedidos.
Aquela parte da manhã sempre era um pouco mais movimentada.
Mas, antes que eu percebesse, o relógio na parede já marcava quase meio-dia.
Marta olhou para mim.
— Podes ir.
Levantei os olhos.
— Já?
— Teu turno acabou.
Soltei um pequeno suspiro de alívio.
— Obrigada.
Tirei o avental e dobrei cuidadosamente antes de guardá-lo no armário.
Peguei minha mochila e caminhei até a porta.
— Até amanhã — disse Marta.
— Até amanhã.
Quando saí para a rua, o sol estava forte.
O ar estava quente e havia mais movimento do que de manhã.
Pessoas caminhavam pelas calçadas apressadas, algumas segurando celulares, outras carregando sacolas.
Caminhei até o ponto de ônibus enquanto ajeitava a mochila nos ombros.
O veículo chegou alguns minutos depois.
Subi e encontrei um lugar perto da janela.
Encostei a cabeça no vidro enquanto a cidade passava lentamente diante de mim.
Era estranho como alguns dias pareciam mais longos que outros.
Mas aquele estava passando rapidamente.
Talvez porque minha mente estivesse ocupada demais.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Quando os abri novamente, o ônibus já estava perto da universidade.
Desci e caminhei pelo campus.
Como sempre, o lugar estava cheio de estudantes.
Alguns estavam sentados na grama conversando.
Outros caminhavam rapidamente entre os prédios.
Quando cheguei ao prédio de arquitetura, encontrei Rafael sentado em uma das mesas do corredor, rodeado por papéis.
— Lia! — disse ele ao me ver.
— Oi.
Coloquei minha mochila sobre a mesa.
— Ainda lutando com o projeto do professor Duarte?
Ele soltou um suspiro dramático.
— Estou começando a achar que ele nos odeia.
Sorri.
— Talvez ele apenas queira que vocês aprendam.
— Isso parece c***l.
Sentei-me ao lado dele e abri meu caderno novamente.
O desenho do bairro planejado ainda precisava de alguns ajustes antes da próxima apresentação.
Peguei o lápis e comecei a trabalhar.
Rafael observava em silêncio por alguns segundos.
— Estás sempre desenhando.
— Faz parte.
— Eu realmente admiro isso.
Olhei para ele.
— O quê?
— A forma como levas o curso a sério.
Sorri levemente.
— Eu preciso levar.
Ele assentiu.
— Faz sentido.
Outros alunos começaram a chegar ao corredor.
O som de conversas e passos encheu o ambiente.
Alguns estavam discutindo projetos.
Outros apenas conversavam sobre qualquer assunto.
Pouco depois, a porta da sala se abriu.
A professora Helena apareceu.
— Podem entrar.
Entramos na sala e nos sentamos nas mesas grandes.
A aula começou com mais análises dos projetos.
A professora caminhava lentamente entre as mesas, observando cada trabalho com atenção.
Quando chegou até mim, pegou meu caderno novamente.
Meu coração acelerou um pouco.
Ela observou o desenho por alguns segundos.
Depois apontou para uma das ruas.
— Este acesso está melhor.
Respirei aliviada.
— Obrigada.
Ela analisou mais alguns detalhes antes de devolver o caderno.
— Continue assim.
Era praticamente um elogio vindo dela.
Depois que ela se afastou, Rafael sussurrou:
— Isso foi incrível.
— Foi só um comentário.
— Não.
Ele balançou a cabeça.
— Isso foi aprovação.
Sorri discretamente e continuei trabalhando.
A aula terminou quase duas horas depois.
Quando saímos da sala, o céu já estava começando a mudar de cor com o pôr do sol.
Caminhamos pelo campus enquanto conversávamos sobre os projetos.
— Café? — perguntou Rafael.
Pensei por um momento.
— Hoje não.
— Tens muito trabalho?
— Sempre.
Ele riu.
— Um dia ainda vais descobrir que descansar também é importante.
— Talvez.
Nos despedimos perto do portão da universidade.
Caminhei até o ponto de ônibus novamente.
O dia tinha sido longo.
Mas, curiosamente, não parecia tão pesado quanto outros.
Talvez porque algumas pequenas coisas tivessem quebrado a rotina.
Quando finalmente cheguei em casa, Lucas já estava espalhado no chão com os cadernos novamente.
— Lia chegou! — anunciou ele.
Minha mãe apareceu da cozinha.
— Como foi o dia?
Coloquei a mochila em uma cadeira.
— Cansativo, mas bom.
Ajudei Lucas com os exercícios.
Jantamos.
Conversei um pouco com minha mãe.
Depois subi para o quarto.
Sentei-me na mesa e abri novamente o caderno do projeto.
Observei o desenho por alguns segundos.
Estava quase pronto.
Peguei o lápis e fiz mais alguns pequenos ajustes.
Linhas suaves.
Detalhes simples.
Quando finalmente parei, percebi que estava sorrindo.
Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que as coisas estavam começando a se encaixar.
O curso.
O trabalho.
Os pequenos avanços diários.
Fechei o caderno e olhei pela janela.
A rua estava silenciosa.
As luzes dos postes iluminavam o asfalto molhado da noite.
Deitei-me na cama alguns minutos depois.
O cansaço chegou rapidamente.
Mas, pouco antes de adormecer, um pensamento passou pela minha mente.
Amanhã de manhã eu estaria novamente na cafeteria.
E, de alguma forma, eu já estava curiosa para saber se aquele cliente apareceria outra vez.