Lia
Na manhã seguinte, acordei com a sensação de que ainda estava cansada.
O despertador tocou às seis em ponto, como sempre, e por alguns segundos fiquei olhando para o teto, tentando reunir forças para sair da cama.
O quarto ainda estava meio escuro.
A luz suave do amanhecer passava pela janela, desenhando linhas pálidas na parede.
Suspirei e me sentei devagar.
Minha rotina começava cedo demais.
Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que precisava disso.
O trabalho na cafeteria ajudava nas despesas de casa e, principalmente, me permitia continuar na universidade sem depender tanto da minha mãe.
Levantei-me, troquei de roupa rapidamente e prendi o cabelo em um r**o de cavalo.
Quando saí do quarto, já senti o cheiro de café vindo da cozinha.
Era impossível começar o dia sem aquele cheiro.
Minha mãe estava perto do fogão, mexendo uma panela.
Lucas estava sentado à mesa com o uniforme da escola, olhando para o celular.
— Bom dia — disse eu.
— Bom dia — respondeu minha mãe, sorrindo.
Lucas levantou a cabeça.
— Finalmente acordaste.
— Eu sempre acordo.
— Mas sempre com cara de quem preferia continuar dormindo.
Revirei os olhos.
Sentei-me à mesa e peguei a xícara de café que minha mãe colocou na minha frente.
O líquido quente ajudou meu corpo a despertar um pouco mais.
— Tens aula hoje? — perguntou ela.
— Sim. À tarde.
— E o trabalho?
— De manhã, como sempre.
Lucas apoiou o queixo nas mãos.
— Um dia eu também vou trabalhar?
— Primeiro termina a escola — respondi.
Ele fez uma careta.
Tomamos café juntos, conversando sobre coisas simples do dia a dia.
Era uma rotina tranquila.
Simples.
Mas eu gostava disso.
Pouco tempo depois, peguei minha mochila e saí de casa.
O ar da manhã estava fresco.
Caminhei até o ponto de ônibus com passos tranquilos, tentando organizar mentalmente tudo o que ainda precisava fazer naquele dia.
O projeto da praça.
A aula da professora Helena.
E, claro, o turno na cafeteria.
O ônibus chegou alguns minutos depois.
A viagem foi silenciosa.
Encostei a cabeça no vidro e observei a cidade acordando lentamente.
Quando finalmente desci perto da cafeteria, o céu já estava completamente claro.
Abri a porta e ouvi o som familiar do sino.
— Bom dia! — disse Marta do balcão.
— Bom dia.
Coloquei minha mochila no pequeno armário dos funcionários e amarrei o avental na cintura.
A cafeteria ainda estava quase vazia.
Era cedo.
Apenas um cliente estava sentado perto da porta lendo um jornal.
Comecei a organizar algumas mesas enquanto Marta preparava o primeiro café do dia.
— Dormiste bem? — perguntou ela.
— Mais ou menos.
— Estudando de novo?
— Sempre.
Ela riu.
— Um dia ainda vais descansar.
— Talvez depois de me formar.
— Talvez.
O tempo passou lentamente enquanto preparávamos o lugar para o movimento da manhã.
Eu limpava as mesas.
Organizava as xícaras.
Colocava açúcar e guardanapos nos suportes.
A rotina já era automática.
Mas, em certo momento, percebi algo curioso.
Ainda não eram nove horas.
Ele normalmente chegava por volta desse horário.
Olhei rapidamente para a porta sem perceber.
Nada.
Balancei a cabeça.
Estava ficando ridículo.
Voltei ao balcão e comecei a preparar algumas xícaras limpas.
Alguns minutos depois, o sino da porta tocou novamente.
Levantei os olhos.
E ele entrou.
Mas algo estava diferente.
Olhei rapidamente para o relógio.
Oito e quinze.
Ele tinha chegado muito mais cedo do que o habitual.
Ele caminhou até a mesma mesa perto da janela.
A mesa três.
Como sempre.
Por algum motivo, senti uma leve curiosidade surgir dentro de mim.
Peguei o bloco de anotações e caminhei até lá.
— Bom dia — disse eu.
Ele levantou os olhos e sorriu levemente.
— Bom dia, Lia.
Inclinei a cabeça.
— Hoje chegaste cedo.
Ele olhou rapidamente para o relógio no pulso.
— Parece que sim.
Anotei no bloco.
— O de sempre?
Ele pensou por um segundo.
— Sim.
Afastei-me e fui preparar o café.
Quando voltei com a xícara, coloquei-a diante dele.
O vapor subia lentamente.
— Aqui está.
— Obrigado.
Ele segurou a xícara com as duas mãos por alguns segundos antes de tomar o primeiro gole.
A cafeteria ainda estava quase vazia.
O cliente do jornal continuava concentrado na leitura.
Marta estava na cozinha preparando algumas coisas.
Era um daqueles momentos raros em que o lugar ficava silencioso.
Ele olhou para mim novamente.
— Hoje não estás desenhando.
Pisiquei algumas vezes.
— Ainda é cedo.
— Normalmente tu aproveitas qualquer momento.
Sorri de leve.
— Estás observador.
Ele deu de ombros.
— Eu apenas reparo nas coisas.
Cruzei os braços de forma relaxada.
— E o que mais já reparaste?
Ele parecia pensar cuidadosamente antes de responder.
— Que tu trabalhas muito.
Não era exatamente a resposta que eu esperava.
— Isso não é difícil de perceber.
— Talvez não.
Ele tomou mais um gole de café.
Depois apoiou o cotovelo na mesa.
— Posso fazer uma pergunta?
Suspirei.
— Mais uma?
Ele sorriu.
— Talvez duas.
— Depende da pergunta.
Ele pensou por um momento.
— Quanto tempo trabalhas aqui?
— Quase um ano.
Ele assentiu lentamente.
— E estudas arquitetura ao mesmo tempo.
— Sim.
— Deve ser difícil.
Dei de ombros.
— Às vezes.
Ele parecia genuinamente interessado.
— Mesmo assim, pareces gostar do que fazes.
Pensei um pouco antes de responder.
— Eu gosto de desenhar.
Ele inclinou a cabeça.
— Isso explica muita coisa.
Nesse momento, a porta da cafeteria se abriu novamente.
Duas pessoas entraram conversando.
Olhei para o balcão.
Marta já estava atendendo.
Voltei minha atenção para ele.
— Preciso trabalhar.
Ele assentiu.
— Claro.
Afastei-me da mesa para ajudar no atendimento.
Preparei mais cafés.
Levei pedidos às mesas.
Anotei algumas coisas no bloco.
Mas percebi que ele ainda permanecia ali, sentado calmamente perto da janela.
Sem pressa.
Depois de algum tempo, o movimento diminuiu novamente.
Passei perto da mesa dele para recolher algumas xícaras vazias.
Ele levantou os olhos.
— Lia.
— Sim?
Ele fez um pequeno gesto para a cadeira à frente dele.
— Tens um minuto?
Hesitei por um instante.
Mas a cafeteria estava tranquila naquele momento.
Sentei-me.
— Um minuto.
Ele parecia pensativo.
Por alguns segundos, ficou olhando para a rua pela janela.
Depois voltou o olhar para mim.
— Percebi que conversamos bastante…
— Bastante?
Ele sorriu.
— Para padrões de cliente e atendente.
— Talvez.
Ele apoiou os braços na mesa.
— E ainda assim, não nos apresentamos formalmente.
Aquilo me pegou um pouco de surpresa.
— Tens razão.
Ele estendeu levemente a mão.
— Eduardo.
Olhei para a mão dele por um segundo antes de apertá-la.
— Lia.
Ele riu baixo.
— Isso eu já sabia.
— Então não foi exatamente uma apresentação justa.
— Talvez não.
Soltei a mão dele e apoiei as minhas sobre a mesa.
— Eduardo…?
Ele pareceu entender a pergunta.
— Albuquerque.
Assenti lentamente.
— Prazer em conhecê-lo oficialmente, senhor Albuquerque.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Por favor, apenas Eduardo.
— Certo.
Por um momento, ficamos apenas olhando um para o outro.
Não de forma estranha.
Apenas… curiosa.
Então Marta chamou do balcão.
— Lia!
Levantei-me imediatamente.
— Trabalho.
Eduardo assentiu.
— Claro.
Voltei ao balcão.
Mas, enquanto preparava outro café, percebi algo.
Agora eu finalmente sabia o nome dele.
Eduardo Albuquerque.
E, curiosamente, isso parecia tornar aquela presença constante na cafeteria um pouco mais real.