Lia
Sexta-feira sempre tinha um gosto diferente.
Mesmo quando eu ainda tinha aulas ou trabalhos acumulados, havia algo no ar que parecia mais leve. Talvez fosse a sensação coletiva de que o fim de semana estava próximo.
Naquela tarde, depois da aula de arquitetura, eu estava caminhando pelo campus quando ouvi alguém chamar meu nome.
— Lia!
Virei-me.
Era Sofia, vindo apressada pelo corredor com a mochila pendurada em um dos ombros.
Sofia era uma das poucas amigas que eu realmente tinha na universidade. Ela era o tipo de pessoa que parecia sempre cheia de energia, mesmo depois de horas de aula.
— Finalmente te encontrei — disse ela.
— Eu estava na aula da professora Helena.
Sofia fez uma expressão dramática.
— Aquela mulher me dá medo.
Sorri.
— Ela só é exigente.
— Só?
Ela cruzou os braços.
— A palavra certa é assustadora.
Começamos a caminhar juntas pelo corredor enquanto os outros alunos iam embora.
O sol da tarde entrava pelas grandes janelas do prédio, iluminando o chão de forma suave.
— Então — disse Sofia de repente —, hoje é sexta.
— Eu sei.
— E tu não vais para casa direto hoje.
Franzi a testa.
— Como assim?
Ela abriu um sorriso largo.
— Vamos sair.
— Sair?
— Sim.
Parei de andar.
— Sofia…
— Não aceito desculpas.
— Eu tenho coisas para fazer.
Ela aproximou o rosto do meu.
— Tu sempre tens coisas para fazer.
Suspirei.
— Eu trabalho, estudo e ainda ajudo em casa.
— Exatamente por isso.
Ela deu um pequeno empurrão no meu ombro.
— Tu mereces respirar um pouco.
Pensei por alguns segundos.
A ideia de simplesmente ir para casa e continuar desenhando projetos parecia cansativa naquele momento.
— O que exatamente tu estás planejando?
O sorriso de Sofia aumentou.
— Shopping.
— Shopping?
— E cinema.
Pisiquei algumas vezes.
— Cinema?
— Sim.
Ela abriu os braços.
— Pessoas normais fazem isso, Lia.
Não consegui evitar rir.
— E quem mais vai?
— Eu, tu, Carla e Juliana.
Carla e Juliana eram colegas do nosso curso.
Não éramos extremamente próximas, mas conversávamos bastante durante as aulas.
— Vai ser rápido — continuou Sofia. — Só para relaxar.
Olhei para o céu pela janela.
O fim de semana realmente parecia pedir algo diferente.
Suspirei.
— Está bem.
Sofia soltou um pequeno grito de vitória.
— Eu sabia!
— Mas eu preciso avisar minha mãe.
— Claro.
Peguei o celular e mandei uma mensagem rápida explicando que sairia com algumas amigas depois da aula.
A resposta dela veio poucos minutos depois.
"Divirta-se."
Guardei o celular.
— Vamos — disse Sofia. — As outras já estão indo.
Saímos da universidade e caminhamos até a parada de transporte.
O trajeto até o shopping levou cerca de vinte minutos.
Quando chegamos, o lugar estava cheio.
As luzes, as vitrines e o movimento constante de pessoas criavam uma energia completamente diferente da tranquilidade da universidade.
— Aqui! — chamou Carla, acenando perto da entrada.
Ela estava com Juliana, que segurava duas sacolas de alguma loja.
— Finalmente chegaram — disse Juliana.
— A culpa foi da Lia — respondeu Sofia. — Convencer ela a sair de casa é uma missão.
— Ei! — protestei.
Carla riu.
— Não acredito que finalmente conseguimos tirar a Lia da prancheta de arquitetura.
Revirei os olhos.
— Vocês exageram.
— Nem um pouco — disse Sofia.
Começamos a caminhar pelo shopping.
As meninas entraram em algumas lojas de roupas, experimentaram sapatos e comentaram sobre tendências que eu m*l acompanhava.
Eu observava mais do que participava.
Mas, curiosamente, estava me divertindo.
— Experimenta esse vestido — disse Carla, segurando uma peça azul.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu não uso esse tipo de coisa.
— Justamente por isso.
Antes que eu pudesse protestar, Sofia me empurrou para o provador.
— Cinco minutos.
Suspirei.
Experimentei o vestido rapidamente.
Quando saí, as três me olharam com atenção.
— Uau — disse Juliana.
— Ficou lindo — completou Carla.
Olhei para o espelho.
Realmente não era r**m.
Mas ainda assim balancei a cabeça.
— Eu não preciso de vestido.
— Precisa sim — disse Sofia. — Nem que seja para sair mais vezes.
Depois de algum tempo andando pelas lojas, fomos para a praça de alimentação.
Pedimos hambúrgueres e refrigerantes.
Sentamos em uma mesa perto da janela.
— Então — disse Juliana —, Lia.
— O quê?
— Algum romance secreto na tua vida?
Engasguei com o refrigerante.
— O quê?
As três começaram a rir.
— Era brincadeira — disse Carla.
Sofia, porém, me observava com um olhar curioso.
— Espera.
Ela estreitou os olhos.
— Tem alguém?
— Não.
— Tens certeza?
— Absoluta.
Ela apoiou o queixo na mão.
— Nem um cliente bonito na cafeteria?
— Sofia.
— O quê? Estou apenas perguntando.
Balancei a cabeça.
— Eu trabalho lá, não estou num programa de namoro.
As meninas riram novamente.
Depois de comer, fomos para o cinema.
Escolhemos um filme de comédia romântica que estava em cartaz.
Compramos pipoca e entramos na sala.
As luzes se apagaram alguns minutos depois.
Durante o filme, as meninas riam alto em algumas cenas.
Eu também me deixei levar pela história.
Era estranho como uma simples saída podia mudar completamente o humor de um dia inteiro.
Quando o filme terminou, já era noite.
Saímos do cinema ainda comentando algumas cenas.
— Eu amei aquele final — disse Juliana.
— Era previsível — comentou Carla.
Sofia olhou para mim.
— E tu, Lia?
Pensei por um momento.
— Foi bom.
— Só isso?
— Sim.
Ela suspirou.
— Tu és impossível.
Saímos do shopping pouco depois.
Cada uma seguiu seu caminho para casa.
Quando finalmente cheguei, Lucas estava jogando videogame na sala.
— Voltaste tarde — disse ele.
— Só um pouco.
Minha mãe apareceu na cozinha.
— Foi divertido?
— Foi.
Subi para o meu quarto alguns minutos depois.
Troquei de roupa e sentei na cama.
O dia tinha sido diferente da minha rotina habitual.
E, curiosamente, aquilo tinha feito bem.
Antes de dormir, peguei o celular e vi que já passava das onze.
Amanhã eu trabalharia novamente na cafeteria.
E, por algum motivo que eu ainda não entendia muito bem, uma pequena parte da minha mente se perguntava se Eduardo apareceria novamente.
Apaguei a luz.
E poucos minutos depois, adormeci.