Lia
Sábado de manhã sempre parecia um pouco mais silencioso que os outros dias.
Talvez porque menos pessoas estivessem indo trabalhar, ou porque a cidade simplesmente acordasse mais devagar.
Quando cheguei à cafeteria naquela manhã, o ar ainda estava fresco e a rua não tinha o mesmo movimento de sempre.
Empurrei a porta e o pequeno sino acima dela tocou suavemente.
— Bom dia — disse Marta do balcão.
— Bom dia.
Coloquei minha mochila no armário e amarrei o avental na cintura.
A cafeteria estava quase vazia.
Apenas um casal sentado perto da porta e um homem sozinho lendo algo no celular.
Era o tipo de manhã tranquila que eu gostava.
Sem pressa.
Sem filas.
— Dormiste bem? — perguntou Marta enquanto organizava algumas xícaras.
Pensei por um segundo.
— Até que sim.
Ela estreitou os olhos.
— Sério?
— Sim.
— Então a saída ontem funcionou.
Sorri.
— Funcionou.
Ela apontou para mim com o pano de limpeza.
— Eu disse que sair de vez em quando faz bem.
Comecei a organizar algumas mesas.
— Talvez.
Enquanto alinhava as cadeiras, lembrei-me das risadas no cinema, das conversas no shopping e do vestido azul que as meninas quase me obrigaram a comprar.
Um pequeno sorriso escapou antes que eu percebesse.
— Estás sorrindo sozinha — comentou Marta.
— Não estou.
— Está sim.
Revirei os olhos.
— Apenas lembrando de algo.
Ela abriu um sorriso divertido.
— Claro.
Voltei ao balcão e comecei a preparar algumas xícaras limpas.
O relógio marcava oito e quarenta.
Normalmente, aquele era o horário em que a cafeteria começava a ganhar mais movimento.
Mas naquele sábado parecia tudo mais lento.
Alguns minutos depois, o sino da porta tocou.
Levantei os olhos automaticamente.
Era ele.
Eduardo entrou com a mesma postura calma de sempre.
Usava uma camisa escura e um casaco leve.
Seu olhar percorreu rapidamente o ambiente antes de parar em mim.
— Bom dia, Lia.
— Bom dia.
Peguei o bloco de anotações, mas já sabia o que ele pediria.
— O de sempre?
Ele sorriu.
— Parece que já sabes.
— Faz parte do trabalho.
Ele caminhou até a mesa perto da janela e sentou-se.
Preparei o café rapidamente.
Quando levei a xícara até ele, percebi que ele parecia um pouco mais pensativo do que o normal.
Coloquei a xícara sobre a mesa.
— Aqui está.
— Obrigado.
Ele segurou a xícara por alguns segundos antes de tomar um gole.
Eu me virei para voltar ao balcão, mas ele falou:
— Lia.
Olhei para trás.
— Sim?
— Tens um momento?
Olhei ao redor.
A cafeteria ainda estava tranquila.
— Tenho.
Sentei-me na cadeira à frente dele.
Por um instante, ele apenas observou a rua pela janela.
Depois voltou o olhar para mim.
— Pareces cansada hoje.
Inclinei a cabeça.
— Estou bem.
— Trabalhas muito.
Sorri de leve.
— Já falamos disso.
Ele girou lentamente a xícara entre os dedos.
— Ontem fizeste algo diferente?
Aquilo me surpreendeu.
— Como sabes?
Ele deu de ombros.
— Hoje pareces mais relaxada.
Pensei por um momento.
— Saí com algumas amigas.
— Ah.
Ele pareceu genuinamente interessado.
— E o que fizeram?
— Shopping. Cinema.
— Parece agradável.
— Foi.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio.
Depois ele respirou fundo, como se estivesse decidindo algo.
— Posso te fazer uma proposta?
Franzi a testa.
— Uma proposta?
— Sim.
Cruzei os braços sobre a mesa.
— Isso parece misterioso.
Ele riu baixo.
— Talvez seja.
Inclinei-me um pouco para frente.
— Depende do que seja.
Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Lembras quando me mostraste aquele desenho do projeto da praça?
— Lembro.
— Aquilo me fez pensar.
Esperei que ele continuasse.
— Eu trabalho com alguns projetos urbanos.
Pisiquei algumas vezes.
— Trabalhas?
— Sim.
— Em que exatamente?
Ele hesitou por um instante antes de responder.
— Construção.
Aquilo fez sentido.
Talvez por isso ele tivesse tanto interesse nos meus desenhos.
— E?
Ele apoiou as mãos sobre a mesa.
— Estamos desenvolvendo um projeto novo na cidade.
Meu interesse aumentou imediatamente.
— Um projeto urbano?
— Algo assim.
Ele observou minha reação com atenção.
— Pensei que talvez tu gostasses de ver.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
— Ver?
— O local.
— O local da construção?
— Sim.
Minha mente começou a girar rapidamente.
Eu era estudante de arquitetura.
Ver um projeto real em desenvolvimento seria… incrível.
Mas ainda assim, havia algo estranho.
— Por que eu?
Ele respondeu de forma simples.
— Porque tu gostas disso.
A resposta me pegou desprevenida.
Olhei para a mesa por um momento.
— Eu ainda sou estudante.
— Justamente por isso.
Ele tomou mais um gole de café.
— Às vezes ver um projeto real ajuda mais do que muitos livros.
Aquilo era verdade.
Muito verdade.
Mas ainda assim…
— Não sei.
Ele pareceu entender minha hesitação.
— Não estou te pedindo uma resposta agora.
— Não?
— Não.
Ele sorriu levemente.
— Apenas pensa na ideia.
Olhei novamente para ele.
Havia algo curioso naquela proposta.
Algo inesperado.
— Onde seria?
— Em um terreno grande perto da zona central.
— Um complexo?
Ele inclinou a cabeça.
— Algo assim.
Meu cérebro já estava imaginando plantas, edifícios, estruturas.
Percebi que estava ficando animada.
E tentei disfarçar.
Ele percebeu.
— Vês?
— O quê?
— Já estás curiosa.
Suspirei.
— Um pouco.
Ele sorriu.
— Era o que eu esperava.
Nesse momento, Marta chamou do balcão.
— Lia!
Levantei-me.
— Preciso trabalhar.
Ele assentiu.
— Claro.
Voltei para o balcão, mas minha mente já não estava totalmente ali.
Enquanto preparava um cappuccino para outro cliente, fiquei pensando na proposta de Eduardo.
Ver um projeto real, um terreno de construção.
Algo que poderia se transformar em um grande edifício ou complexo urbano.
Para uma estudante de arquitetura… aquilo era quase irresistível.
Olhei rapidamente para a mesa perto da janela.
Eduardo estava olhando para fora novamente, aparentemente tranquilo.
Como se aquela proposta fosse apenas uma ideia casual.
Mas algo dentro de mim dizia que aquilo poderia ser mais do que isso.
Talvez fosse apenas curiosidade.
Ou talvez fosse o começo de algo que eu ainda não conseguia enxergar completamente.