Acordei sem despertador. Pela primeira vez em semanas, não havia o som irritante do alarme me arrancando do sono. Era sábado, minha noite de folga, e por alguns segundos, deixei-me relaxar completamente, sem pensar em aulas, trabalhos ou nas luzes do clube. A sensação de liberdade foi deliciosa.
Me estiquei lentamente, sentindo o corpo reclamar um pouco das últimas noites de dança intensa. Não era fácil equilibrar estudos, vida social mínima e o trabalho no clube, mas havia algo em mim que não se permitia fraquejar. Cada dor, cada olhada, cada centavo ganho era uma peça da minha independência.
O apartamento estava silencioso. Abri a janela e senti o ar frio de Boston entrar, trazendo o cheiro distante da cidade acordando. Alguns cafés já começavam a abrir, algumas ruas ganhavam vida. Suspirei fundo, sentindo que aquela era minha chance de simplesmente existir para mim mesma, sem papéis ou expectativas.
Peguei meu roupão felpudo e fui até a cozinha preparar meu café da manhã. Decidi caprichar: ovos mexidos com tomates, torradas integrais e um smoothie de frutas que adorava fazer. Enquanto mexia os ovos, meu celular vibrava sobre a bancada. Era Cami, como esperado:
"Então, rainha do dia de folga, planos para hoje? 😏"
Sorri. A melhor amiga sempre tinha a intuição perfeita. Respondi:
"Hoje é só eu, o sofá e Netflix. Preciso descansar. Talvez até faça uma máscara facial. Quero me sentir humana de novo 😂"
"Ah, a diva finalmente se rende à preguiça 😄. Aproveita! Me liga depois, quero fofocar sobre os últimos babados da universidade."
Comi lentamente, apreciando cada mordida, algo raro nos dias corridos. Sem pressa, tomei meu café, ouvindo música suave pelo meu pequeno sistema de som. Era impressionante como algo tão simples — acordar, preparar comida, ouvir música — podia me trazer paz. A vida no clube era uma tempestade constante; esses pequenos momentos de calma eram preciosos.
Depois do café, me sentei no sofá, enrolada em uma manta macia, e comecei a ler um livro que trazia de casa no Brasil. Literatura brasileira sempre me conectava às minhas raízes, lembrando-me de quem eu era e do quanto havia deixado para trás para perseguir meus sonhos. Entre uma página e outra, minha mente vagava para a noite passada, para o brilho nos olhos de Will, para aquele jeito misterioso e intenso que ele tinha de observar cada movimento meu.
Mas aquela noite não era sobre ele. Não precisava ser. Era sobre mim. Sobre descansar, me cuidar, e lembrar que meu mundo não girava apenas em torno de olhares e atração.
Resolvi me dar ao luxo de um banho longo e relaxante. A água quente escorria pelo meu corpo, lavando não só a tensão física, mas também o peso mental acumulado. Usei um sabonete com aroma de baunilha, algo doce e reconfortante, que me fazia sorrir sozinha. Senti-me renovada, pronta para aproveitar a noite da minha própria maneira.
Quando saí do banheiro, me enrolei novamente na toalha e fui para o quarto. Escolhi uma roupa confortável para ficar em casa: uma camiseta de algodão larga, de cor vinho, e shorts curtos. Simples, mas confortável. Passei um hidratante leve, penteei o cabelo e decidi cuidar da pele com uma máscara facial hidratante. Olhei-me no espelho e sorri: mesmo sem maquiagem e sem o glamour da noite anterior, ainda me sentia confiante. Essa era a Lara verdadeira, sem artifícios, só ela.
Enquanto a máscara agia, me joguei no sofá e comecei a assistir à série que vinha adiando. Risadas, drama, pequenas distrações da rotina pesada. Senti meu celular vibrar novamente. Era uma mensagem inesperada.
"Boa noite, Lara. Espero que esteja aproveitando seu descanso. — Will"
Meu coração disparou por um instante, mas respirei fundo. Ele não estava ali; eu não precisava pensar em olhares, provocações ou flertes. Mas ainda assim, era impossível ignorar a curiosidade sobre aquele homem que mexia tanto comigo. Sorri sozinha, digitei uma resposta rápida:
"Obrigado, Will. Aproveitando sim. Espero que sua noite também esteja boa."
Enviei sem pensar demais. Não queria criar expectativas nem me envolver mais do que precisava naquela noite. Era meu refúgio.
Depois, peguei meu laptop para colocar em dia algumas leituras acadêmicas. Estudar em casa tinha seu lado bom: silêncio, conforto, e a capacidade de me concentrar sem distrações externas. Mas por mais que tentasse, meus pensamentos sempre voltavam para o brilho nos olhos dele, para a presença dominante e misteriosa que sentira na noite anterior.
Decidi então fazer algo produtivo, mas leve: escrevi algumas ideias para um projeto da faculdade, organizei meu quarto, arrumei roupas e guardei detalhes que estavam espalhados. Pequenas tarefas domésticas que me davam sensação de controle e organização. Era incrível como simples gestos podiam trazer tanto conforto.
À medida que a noite avançava, senti a saudade do Brasil apertar. Liguei para meus pais rapidamente, conversando com eles por vídeo chamada. Ouvir suas vozes e ver seus rostos trouxe uma sensação de pertencimento que, de outra forma, faltava em Boston. Contar pequenas vitórias e ouvir histórias do dia a dia deles me fez sorrir e lembrar que todo esforço valia a pena.
Quando desliguei, a noite já estava mais avançada. A cidade iluminada pela luz dos postes parecia convidar a uma caminhada. Coloquei meu casaco, tênis confortáveis, e saí para respirar o ar frio, deixando o vento bater no rosto. Caminhei por algumas ruas próximas, observando as vitrines, a vida acontecendo, pessoas indo e vindo. Era estranho: em outras noites, aquelas ruas me pareciam comuns, quase monótonas; naquela noite, sentia cada detalhe, cada movimento, como se a cidade respirasse junto comigo.
Voltei para casa, tomei chá e me joguei no sofá novamente, enrolada na manta, assistindo a filmes que me faziam rir e me emocionavam. Cada risada e cada lágrima era um lembrete de que, embora o clube fosse minha segunda vida, ainda havia espaço para alegria simples, para minha própria identidade sem máscaras ou expectativas.
Enquanto os créditos do filme rolavam, não pude deixar de pensar em Will novamente. Não sobre o que poderia acontecer, mas sobre a intensidade que ele carregava apenas por existir. Era estranho como alguém podia impactar tanto uma pessoa apenas com presença e olhares. Mas aquela noite era minha, e não de ninguém mais. Eu não precisava correr, não precisava me impressionar. Apenas precisava ser Lara.
Perto da meia-noite, desliguei as luzes do apartamento, mantendo apenas a iluminação suave da luminária ao lado do sofá. Sentei-me na poltrona com meu cobertor e fechei os olhos, pensando nos próximos dias. Planejava descansar, estudar, talvez encontrar Cami para um café no domingo, e me preparar para a próxima semana. No clube, Will não estaria presente naquela noite; a ideia de que ele estava em outro lugar, vivendo seu próprio mundo, me trouxe uma paz inesperada.
Antes de finalmente me deitar, peguei meu diário. Comecei a escrever sobre o dia, sobre os pensamentos que me atravessavam, sobre o desejo de manter minha vida equilibrada, mesmo diante de tentações e desafios. Escrevi sobre minha determinação, minhas inseguranças, e sobre a sensação estranha, porém excitante, que Will provocava sem sequer tocar em mim.
Fechei o diário e apaguei a luz, sentindo-me plena e viva. Era uma noite de folga, sim, mas também uma noite de reflexão, de cuidado próprio e de preparação para o que estava por vir. A vida de Lara Monteiro da Silva nunca seria simples, mas era minha — cheia de escolhas, desafios e momentos de liberdade que eu aprendera a valorizar profundamente.
Enquanto dormia, imaginei a próxima semana: aulas, noites de dança, encontros inesperados e talvez, apenas talvez, a aproximação de William. Mas naquele momento, tudo que importava era a sensação de paz que vinha da decisão de, ao menos por uma noite, ser apenas eu mesma.
E assim, enquanto a cidade brilhava lá fora, Lara Monteiro da Silva fechou os olhos, respirando fundo e se permitindo descansar, sabendo que o amanhã traria novamente os dois mundos mas naquela noite, apenas um existia: o dela.