Capítulo 6

1523 Words
Lia Fiquei pensando naquela pequena conversa mais tempo do que deveria. Não era como se tivesse acontecido algo extraordinário. Ele apenas tinha feito perguntas. Eu apenas tinha respondido. Mesmo assim, enquanto continuava trabalhando atrás do balcão, minha mente voltava repetidamente àquela última frase. “Boa sorte com o projeto, Lia.” O fato de ele saber meu nome não era realmente surpreendente. Marta tinha me chamado várias vezes. Ainda assim, havia algo curioso na forma como ele disse aquilo. Como se fosse natural. Como se já me conhecesse um pouco. — Estás distraída — comentou Marta, interrompendo meus pensamentos. Olhei para ela. — Não estou. Ela apoiou os cotovelos no balcão. — Estás sim. Peguei algumas xícaras vazias e comecei a levá-las para a cozinha. — Só estou cansada. — Claro. Ignorei o tom divertido dela e continuei meu trabalho. A manhã passou rapidamente depois disso. Alguns clientes habituais apareceram. Outros ficaram apenas alguns minutos antes de sair novamente. Nada fora do normal. Por volta das onze e quarenta, Marta olhou para o relógio na parede. — Podes ir. Levantei os olhos. — Já? — Teu turno acabou. Sorri. — Obrigada. Tirei o avental e o dobrei cuidadosamente. Depois peguei minha mochila. — Até amanhã. — Até amanhã — respondeu Marta. Saí da cafeteria e senti imediatamente o ar quente da rua. O sol estava forte naquele dia. Caminhei até o ponto de ônibus enquanto ajeitava a mochila nos ombros. Enquanto esperava, observei o movimento da cidade. Carros passando. Pessoas conversando. Alguns vendedores ambulantes oferecendo frutas e água aos pedestres. Era um dia comum. Completamente comum. Mas, por algum motivo, minha mente voltou novamente para a cena da cafeteria. Para a forma como ele observava os desenhos. Para as perguntas que fazia. Balancei a cabeça levemente. Eu realmente precisava parar de pensar nisso. Quando o ônibus chegou, subi e encontrei um lugar perto da janela. Encostei a cabeça no vidro enquanto a cidade começava a passar lentamente diante de mim. Alguns minutos depois, já estava perto da universidade. Desci e caminhei pelo campus. O lugar estava movimentado como sempre. Grupos de estudantes conversavam perto das árvores. Alguns estavam sentados na grama lendo ou mexendo nos celulares. Quando cheguei ao prédio de arquitetura, encontrei Rafael sentado em uma das mesas do corredor. — Lia! — disse ele ao me ver. — Oi. Coloquei minha mochila sobre a mesa. — Já chegaste faz tempo? — Uns dez minutos. Ele olhou para meu caderno. — Trouxeste o projeto? — Sempre. Abri o caderno e comecei a observar o desenho novamente. — Ainda não terminaste? — perguntou ele. — Está quase. Peguei o lápis e comecei a fazer alguns ajustes. Rafael inclinou-se para olhar melhor. — Parece muito bom. — Ainda preciso melhorar esta parte. Apontei para uma das ruas. — Talvez mover alguns edifícios. Ele franziu a testa. — Eu não saberia nem por onde começar com isso. Sorri. — Prática. — Ou talento. Balancei a cabeça. — Muito trabalho. Ele riu. — Também. Outros alunos começaram a chegar ao corredor. O som de conversas e passos encheu o ambiente. Alguns estavam discutindo projetos. Outros simplesmente conversavam sobre qualquer assunto. Pouco depois, a porta da sala se abriu. A professora Helena apareceu. — Podem entrar. Entramos na sala e nos sentamos nas mesas grandes. Coloquei meus materiais sobre a superfície e abri o caderno novamente. A aula começou com mais revisões dos projetos. A professora caminhava lentamente entre as mesas observando os trabalhos dos alunos. Quando chegou até mim, pegou o caderno e analisou o desenho. Silêncio. Como sempre. Meu coração acelerou um pouco. Ela apontou para uma parte da praça. — Aqui. Aproximei-me um pouco. — Sim? — Talvez possas criar mais acesso para pedestres nesta área. Observei o desenho. Ela estava certa. — Vou ajustar. Ela assentiu. — No geral, está melhor. Respirei aliviada. Depois que ela se afastou, Rafael sussurrou: — “Está melhor”. — Eu ouvi. — Isso foi praticamente um elogio. Sorri levemente. A aula continuou por quase duas horas. Quando finalmente terminou, já era fim de tarde. Saímos da sala junto com os outros alunos. O corredor estava cheio novamente. — Tens planos para hoje? — perguntou Rafael. — Estudar. — Claro que tens. Ele suspirou. — Tu realmente precisas aprender a descansar. — Talvez um dia. Caminhamos até a saída do prédio. O céu já estava começando a mudar de cor com o pôr do sol. Uma luz dourada iluminava os prédios do campus. Por um momento, parei para observar. — Sempre fazes isso — comentou Rafael. — O quê? — Parar para olhar o céu. Dei de ombros. — É bonito. Ele sorriu. — Arquitetura também é sobre observar coisas assim, não é? Olhei novamente para a luz refletida nos prédios. — É. Depois continuamos caminhando. Quando chegamos ao portão da universidade, nos despedimos. — Até amanhã — disse ele. — Até. Segui até o ponto de ônibus novamente. O dia tinha sido longo. Mas, curiosamente, eu ainda sentia aquela mesma pequena sensação de curiosidade que tinha começado naquela manhã. Uma curiosidade simples. Sobre um cliente que parecia gostar muito de café. E de fazer perguntas. *** Subi no ônibus alguns minutos depois. O veículo estava mais cheio do que de manhã, provavelmente porque muitas pessoas estavam voltando do trabalho naquele horário. Consegui um lugar perto da janela novamente e coloquei a mochila no colo. Encostei a cabeça no vidro frio enquanto o ônibus começava a se mover lentamente pela rua. A cidade parecia diferente naquele horário. As luzes dos postes começavam a acender. Algumas lojas estavam fechando as portas. Outras estavam apenas começando a ficar movimentadas. Observei as pessoas caminhando pelas calçadas. Algumas pareciam cansadas. Outras conversavam animadamente. Cada uma seguindo seu próprio caminho. Enquanto o ônibus avançava pelas ruas, pensei rapidamente no dia que tinha acabado de passar. A cafeteria. As aulas. Os desenhos. A conversa rápida com Rafael. Era uma rotina cheia, mas de certa forma confortável. Eu já sabia exatamente o que esperar de cada parte do meu dia. Talvez por isso aquela pequena novidade — aquele cliente que aparecia quase todos os dias — tivesse chamado tanto a minha atenção. Não porque ele fosse extraordinário. Mas porque quebrava um pouco a previsibilidade da rotina. Balancei levemente a cabeça, afastando o pensamento. Logo o ônibus parou perto do meu bairro. Desci e comecei a caminhar pela rua tranquila que levava até minha casa. O ar da noite estava fresco. Algumas casas tinham luzes acesas nas janelas. De vez em quando era possível ouvir o som de televisão ou música vindo de dentro delas. Quando empurrei o portão de casa, ouvi Lucas falando alto na sala. — Lia chegou! Sorri. Entrei e encontrei meu irmão sentado no chão novamente, cercado por cadernos. Minha mãe estava na cozinha. — Como foi o dia? — perguntou ela. Coloquei a mochila em uma cadeira. — Normal. Lucas levantou um caderno. — Preciso de ajuda outra vez. Olhei para ele com um sorriso divertido. — Matemática de novo? — Infelizmente. Sentei-me ao lado dele. — Mostra. Ele apontou para um exercício cheio de números. Enquanto eu explicava passo a passo, Lucas tentava acompanhar escrevendo no caderno. — Espera — disse ele depois de alguns segundos. — Como chegaste a esse número? — Porque primeiro precisas resolver esta parte aqui. Desenhei rapidamente a explicação no papel. Lucas franziu a testa por um momento. Depois seus olhos se iluminaram. — Ah! — Vês? Ele terminou o exercício e levantou os braços como se tivesse acabado de ganhar um campeonato. — Consegui! Minha mãe riu da cozinha. — Drama. Lucas fez uma careta. — Matemática é dramática. Depois de algum tempo, fomos jantar. A mesa estava simples, como sempre. Arroz. Feijão. Um pouco de frango. Conversamos sobre coisas comuns. A escola de Lucas. O trabalho da minha mãe. Minha rotina na universidade. Nada extraordinário. Mas eram aqueles momentos simples que faziam o dia parecer completo. Depois do jantar, ajudei minha mãe a lavar os pratos. Lucas foi terminar mais alguns deveres na sala. Quando finalmente subi para o meu quarto, o silêncio da casa era reconfortante. Coloquei meus livros sobre a mesa e abri novamente o caderno do projeto. Observei o desenho por alguns segundos. A praça central parecia mais equilibrada agora. As ruas estavam bem distribuídas. Peguei o lápis e fiz mais alguns pequenos ajustes. Linhas finas. Detalhes quase invisíveis. Enquanto trabalhava, percebi algo curioso. Mesmo cansada, eu me sentia satisfeita. Talvez porque cada pequeno progresso naquele desenho significasse que eu estava mais perto do objetivo que tinha desde o primeiro dia na universidade. Terminei mais alguns detalhes e finalmente coloquei o lápis sobre a mesa. Estiquei os braços e suspirei. Quando olhei para o relógio, já era quase onze horas novamente. Fechei o caderno e apaguei a luz da mesa. Deitei-me na cama e puxei o cobertor. O cansaço veio rapidamente. Mas, pouco antes de adormecer, um pensamento rápido passou pela minha mente. Amanhã de manhã eu estaria novamente na cafeteria. E, de alguma forma, eu tinha a leve sensação de que aquele cliente provavelmente apareceria outra vez.
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