Lia
Na manhã seguinte, acordei antes mesmo do despertador tocar.
Isso raramente acontecia.
Normalmente eu precisava de alguns minutos e de muito esforço para convencer meu corpo a sair da cama.
Mas naquele dia, abri os olhos e fiquei olhando para o teto por alguns segundos antes de perceber que ainda estava escuro.
Virei a cabeça lentamente e olhei para o relógio.
Cinco e quarenta e sete.
Suspirei.
Ainda faltavam mais de dez minutos para o despertador tocar.
Virei-me na cama, puxando o cobertor um pouco mais para cima.
Talvez eu conseguisse dormir mais um pouco.
Mas, por algum motivo, minha mente já estava desperta.
Pensamentos começaram a aparecer um atrás do outro.
O projeto de arquitetura.
A próxima aula com a professora Helena.
Os exercícios que eu ainda precisava terminar.
E, inevitavelmente, a rotina da cafeteria.
Fechei os olhos novamente.
Mas logo ouvi o despertador tocar.
Estendi o braço e desliguei o aparelho antes que Lucas pudesse reclamar do barulho do outro lado do corredor.
Levantei-me devagar e comecei a me arrumar.
A casa ainda estava silenciosa.
Minha mãe provavelmente ainda estava se preparando para sair.
Quando cheguei à cozinha, encontrei exatamente o que esperava.
Ela estava colocando café nas xícaras.
— Bom dia — disse ela ao me ver.
— Bom dia.
Sentei-me à mesa e segurei a xícara quente entre as mãos.
O cheiro de café fresco sempre parecia ajudar meu cérebro a acordar.
Lucas apareceu alguns minutos depois, ainda meio sonolento.
— Por que a escola começa tão cedo? — murmurou ele.
— Boa pergunta — respondi.
Minha mãe sorriu.
Tomamos café juntos rapidamente, como sempre.
Era um ritual simples, mas importante.
Mesmo com as rotinas corridas, aqueles minutos juntos todas as manhãs eram quase sagrados.
Pouco depois, peguei minha mochila e saí de casa.
O céu ainda tinha aquele tom azul-claro típico das primeiras horas da manhã.
O ar estava fresco.
Caminhei até o ponto de ônibus enquanto ajeitava o cabelo que o vento insistia em bagunçar.
Algumas pessoas já esperavam ali.
Trabalhadores.
Estudantes.
Pessoas que, assim como eu, estavam começando mais um dia.
O ônibus chegou poucos minutos depois.
Subi e encontrei um lugar perto da janela.
A viagem até a cafeteria era algo que eu já fazia quase automaticamente.
Conhecia cada esquina.
Cada parada.
Cada loja que aparecia pelo caminho.
Quando desci perto da cafeteria, o movimento nas ruas já estava começando.
Entrei e ouvi imediatamente o som familiar da máquina de café.
— Bom dia — disse Marta do outro lado do balcão.
— Bom dia.
Coloquei o avental e prendi o cabelo rapidamente.
— Dormiste bem? — perguntou ela.
— Mais ou menos.
— Estudando de novo?
— Sempre.
A manhã começou devagar.
Alguns clientes habituais apareceram, como de costume.
O senhor do jornal.
A mulher que sempre levava café para viagem.
Um rapaz que passava todos os dias antes de ir para o trabalho.
Era quase como um pequeno teatro diário.
As mesmas pessoas.
Os mesmos pedidos.
As mesmas conversas curtas.
Por volta das oito e quarenta e cinco, o movimento aumentou um pouco.
Eu estava anotando um pedido quando ouvi o sino da porta tocar.
Levantei os olhos automaticamente.
E, por algum motivo, não fiquei surpresa.
Ele entrou como sempre fazia.
Calmo.
Discreto.
Vestindo outro terno elegante.
O olhar dele percorreu rapidamente o interior da cafeteria antes de encontrar a mesma mesa perto da janela.
Mesa três.
Eu quase sorri.
Peguei meu bloco de anotações e caminhei até lá.
— Bom dia — disse eu.
Ele levantou os olhos.
— Bom dia, Lia.
A forma como ele disse meu nome ainda parecia um pouco estranha.
Não desagradável.
Apenas… diferente.
Inclinei a cabeça levemente.
— O de sempre?
Ele assentiu.
— Sim.
Anotei o pedido.
— Já volto com o café.
Quando retornei alguns minutos depois, coloquei a xícara diante dele.
— Aqui está.
— Obrigado.
Ele segurou a xícara por um momento antes de falar novamente.
— Como está o projeto?
Pisiquei algumas vezes.
— O projeto?
— O que estavas desenhando ontem.
Ah.
— Está melhor.
— A professora aprovou?
Sorri de leve.
— A professora Helena raramente “aprova” qualquer coisa.
Ele pareceu divertido com a resposta.
— Professores exigentes?
— Muito.
Ele tomou um pequeno gole do café.
— Provavelmente isso é bom para os alunos.
— Nem sempre parece bom na hora.
Ele riu baixinho.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Depois ele perguntou:
— Quantos anos faltam para te formares?
Pensei por um momento.
— Se tudo correr bem… dois.
— Isso é rápido.
— Nem tanto.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça, como se estivesse analisando minha resposta.
— O que pretendes fazer depois?
— Trabalhar.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Só isso?
— Já seria bastante.
Ele pareceu pensar naquilo por alguns segundos.
— Tens planos maiores.
Aquilo não era exatamente uma pergunta.
Era mais uma observação.
Fiquei um pouco surpresa.
— Talvez.
Antes que a conversa continuasse, Marta chamou novamente do balcão.
— Lia!
Suspirei.
— Trabalho.
Ele assentiu.
— Claro.
Afastei-me da mesa novamente.
Mas enquanto voltava ao balcão, percebi algo curioso.
A conversa com ele já não parecia estranha.
Na verdade, estava começando a parecer… natural.
Como se fosse apenas mais uma parte da rotina da cafeteria.
Marta me observou quando me aproximei.
— Vocês dois conversam bastante.
— Ele só faz perguntas.
— E tu respondes todas.
Peguei duas xícaras vazias e levei para a cozinha.
— Faz parte do atendimento.
— Claro.
Ignorei o tom divertido dela.
Mas, enquanto lavava as xícaras, percebi algo que me fez sorrir levemente.
Talvez Marta não estivesse completamente errada.
Talvez aquelas pequenas conversas realmente estivessem começando a se tornar uma parte inesperadamente agradável da minha manhã.
***
Talvez aquelas pequenas conversas realmente estivessem começando a se tornar uma parte inesperadamente agradável da minha manhã.
Voltei para o balcão depois de terminar de lavar as xícaras.
A cafeteria estava moderadamente cheia naquele momento.
Duas mesas estavam ocupadas por clientes que conversavam em voz baixa, e um homem perto da porta digitava rapidamente no laptop enquanto tomava café.
Peguei um pano e comecei a limpar o balcão.
Por hábito, olhei rapidamente para a mesa perto da janela.
Ele ainda estava lá.
Segurava a xícara com uma das mãos enquanto observava a rua, como se estivesse pensando em alguma coisa distante.
Havia algo curioso na forma tranquila como ele permanecia ali.
A maioria das pessoas parecia sempre com pressa.
Tomavam o café rapidamente e saíam quase imediatamente.
Ele não.
Ele parecia sempre ter tempo.
— Lia — chamou Marta.
— Sim?
— Mesa quatro quer mais açúcar.
Peguei alguns pacotes e caminhei até a mesa indicada.
Uma mulher de meia-idade agradeceu com um sorriso educado.
— Obrigada.
— De nada.
Voltei ao balcão novamente.
O movimento diminuiu um pouco nos minutos seguintes.
Aproveitei para pegar meu caderno rapidamente.
Abri na página do projeto.
Observei o desenho por alguns segundos.
A praça central parecia melhor depois das alterações da noite anterior.
Mas ainda havia algo que eu queria ajustar.
Peguei o lápis e comecei a fazer algumas linhas leves.
Pequenos detalhes.
Uma nova passagem para pedestres.
Algumas árvores adicionais.
Enquanto desenhava, senti uma sombra cair sobre o balcão.
Levantei os olhos.
Era ele.
Ele estava parado do outro lado do balcão.
Fechei o caderno quase automaticamente.
— Já vais embora? — perguntei.
Ele sorriu levemente.
— Ainda não.
Apontou para o caderno.
— Posso ver mais um pouco?
Hesitei por um segundo.
Mas depois girei o caderno na direção dele.
— Ainda não está terminado.
Ele observou o desenho com atenção.
Seus olhos percorreram as ruas, os prédios desenhados e a praça central.
— Parece um lugar agradável.
— Era a ideia.
Ele apontou para uma das áreas verdes.
— Gostas de incluir espaços abertos.
— Acho importante.
Ele assentiu lentamente.
— Concordo.
Fechei o caderno novamente.
— Preciso terminar isso antes da próxima apresentação.
Ele apoiou levemente uma das mãos no balcão.
— Tens muita disciplina.
Dei de ombros.
— Ou muito trabalho acumulado.
Ele pareceu divertido com a resposta.
— Talvez os dois.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Depois ele falou novamente.
— Posso fazer mais uma pergunta?
Suspirei, mas sorri um pouco.
— Estás determinado hoje.
— Apenas curioso.
Cruzei os braços de forma relaxada.
— Qual é a pergunta?
Ele pensou por um instante.
— O que te fez escolher arquitetura?
Olhei rapidamente para o caderno fechado.
Era uma pergunta simples.
Mas a resposta não era tão curta.
— Quando eu era criança — comecei —, eu gostava de desenhar casas.
Ele ouviu com atenção.
— Casas?
— Sim.
Passei o dedo pela borda do caderno.
— Eu imaginava como seriam os lugares onde as pessoas viveriam.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Isso parece o começo de um arquiteto.
Sorri discretamente.
— Talvez.
Nesse momento, a porta da cafeteria se abriu novamente.
Três novos clientes entraram conversando animadamente.
Marta imediatamente começou a anotar os pedidos.
Olhei para ele.
— Preciso trabalhar.
Ele assentiu.
— Claro.
Voltou para a mesa perto da janela enquanto eu atendia os novos clientes.
A cafeteria ficou mais movimentada novamente.
Preparei cafés.
Levei bandejas às mesas.
Anotei mais alguns pedidos.
A rotina voltou a ocupar completamente minha atenção.
Alguns minutos depois, quando finalmente tive um momento para respirar, olhei novamente para a mesa perto da janela.
Ele estava terminando o café.
Pouco depois, levantou-se e caminhou até o balcão.
Colocou o dinheiro sobre ele.
— Acho que hoje realmente preciso ir.
Preparei o troco.
— Tenha um bom dia.
Ele pegou as moedas e guardou no bolso.
Antes de sair, olhou diretamente para mim.
— Boa sorte com o projeto, Lia.
Sorri levemente.
— Obrigada.
Ele fez aquele pequeno aceno de cabeça que já estava se tornando familiar.
Depois saiu.
O sino da porta tocou suavemente atrás dele.
Fiquei olhando para a porta por um instante.
Depois voltei ao trabalho.
Mas, enquanto organizava algumas xícaras no balcão, percebi algo curioso.
Sem perceber exatamente quando isso tinha acontecido, eu já estava começando a esperar aquele momento do dia em que o sino da porta tocaria… e ele entraria novamente na cafeteria.