Capítulo 1

1448 Words
O despertador tocou exatamente às sete horas da manhã, quebrando o silêncio do meu pequeno apartamento em Boston. Abri os olhos lentamente, ainda sentindo o peso da noite anterior nos meus músculos e na minha mente. A luz do sol entrava timidamente pela janela entreaberta, refletindo nas paredes claras e no chão de madeira que eu tanto havia escolhido para criar uma sensação de aconchego naquele espaço que, de algum modo, já começava a se sentir como lar. Suspirei e me espreguicei, sentindo cada músculo do meu corpo despertar lentamente. A sensação era estranha, como se meu corpo estivesse dividido entre dois mundos: um diurno, calmo e racional, onde eu era Lara Monteiro da Silva, estudante brasileira determinada; outro noturno, cheio de adrenalina e olhares, onde eu me transformava em “Lá”, a mulher que dançava sob luzes intensas, ganhando cada centavo para manter meus sonhos vivos. Levantei-me da cama, ainda enrolada no edredom macio, e olhei ao redor. O apartamento não era grande, mas era meu refúgio. Tinha comprado cada detalhe com cuidado: plantas que eu regava religiosamente, um pequeno sofá cinza, uma mesa de jantar de vidro que quase nunca usava, mas que me fazia sentir adulta; fotos da família espalhadas pela estante, lembrando-me de onde eu vinha e do quanto já havia conquistado. No banheiro, acendi a luz suave e encarei meu reflexo no espelho. Meu cabelo castanho escuro caía levemente bagunçado pelos ombros, ainda com os fios presos nos elásticos da noite anterior. Respirei fundo e comecei a rotina matinal: lavei o rosto com água fria para despertar de vez, apliquei meu hidratante leve — que não irritasse a minha pele sensível — e passei um pouco de corretivo sob os olhos para disfarçar as olheiras que sempre insistiam em aparecer depois das noites longas. O makeup era básico, mas me fazia sentir pronta para encarar o dia: máscara de cílios, um pouco de blush, batom nude discreto. Nada chamaria atenção na universidade, mas tudo me ajudava a me sentir confiante. Enquanto me maquiava, meu celular vibrou sobre a bancada. Era uma mensagem da Cami: "Bom dia, Lara! Sobreviveu à noite ou ainda está rolando na cama? 😂 Café depois da aula?" Sorri sozinha e respondi rapidamente: "Sobrevivi 😌 Vamos sim. Te encontro às 10." Cami sempre tinha uma maneira de me fazer rir, mesmo quando o cansaço ameaçava dominar meu humor. Melhor amiga desde o primeiro semestre, ela era a única que conhecia parcialmente minha vida dupla. Ainda não contava tudo, mas ela sabia que eu tinha responsabilidades extras que ninguém na universidade entendia. Depois da maquiagem, escolhi meu look para o dia: uma calça jeans escura de cintura alta, blusa branca leve e jaqueta de couro preta. Confortável, mas arrumado o suficiente para passar despercebida como mais uma estudante americana. Coloquei meu colar favorito, um pingente com meu nome em português, e suspirei, olhando-me no espelho uma última vez. Mesmo no look simples, havia algo em mim que sempre transmitia segurança — talvez fosse a mistura de esforço, ambição e orgulho em cada detalhe que eu cuidava. No café da manhã, preparei algo rápido: torradas com ovo mexido, café preto forte e uma fatia de mamão. Comer sozinha tinha seu lado silencioso, mas eu gostava daquele momento de reflexão. Pensava nos próximos dias, nas aulas, nas leituras, nos trabalhos que precisavam ser entregues. Tudo parecia pesado, mas ao mesmo tempo emocionante: eu estava vivendo sozinha, tomando minhas próprias decisões e construindo minha independência. Ao terminar, peguei a bolsa, conferi carteira, celular, cartões e laptop, e saí do apartamento. O frio de Boston ainda insistia em me lembrar de que estava longe do Brasil, mas a sensação de liberdade era maior do que qualquer saudade. Caminhando pelas ruas da universidade, senti o burburinho dos estudantes, o cheiro do café vindo das cafeterias, os passos apressados de quem tinha compromissos e sonhos tão urgentes quanto os meus. A primeira aula do dia era Marketing Internacional, uma das minhas favoritas. Entrei na sala e procurei meu lugar. Sempre que me sentava, observava as pessoas ao redor estudava rostos, gestos, expressões. Era um hábito que tinha, talvez por curiosidade natural, talvez por precaução: aprendia a ler pequenos sinais, útil tanto na vida acadêmica quanto na vida noturna. No meio da aula, Cami me enviou outra mensagem: "Sobre hoje à noite, pronta para mais um show de glamour? 😏" Sorri, lembrando-me de que cada noite no clube era um desafio e uma performance. Apesar de cansativo, havia algo libertador naquele mundo. Não era só sobre dinheiro: era sobre controlar como me apresentava, como me movia, como usava meu corpo para transmitir confiança e poder. Após as aulas, fui para o pequeno apartamento que dividíamos com meus livros e pensamentos. Comecei a me preparar para a noite. Primeiro, o banho: quente, relaxante, deixando a água escorrer e lavar a tensão acumulada. Escolhi o vestido vermelho, aquele que sempre atraía olhares e fazia com que me sentisse poderosa. Era justo, elegante, mas com um decote discreto, equilibrando sensualidade e classe. No quarto, comecei a maquiagem noturna: pele perfeita com base leve, olhos esfumados em tons de marrom e dourado, batom vermelho intenso que combinava com o vestido. Coloquei brincos pequenos, mas brilhantes, e finalizei o cabelo, deixando-o solto, com ondas naturais que balançavam suavemente quando me movia. Olhei-me no espelho e sorri. A Lara da universidade tinha agora desaparecido, dando lugar à Lá, confiante, segura e incontrolável, pronta para dominar cada olhar naquela noite. Antes de sair, uma rápida conferida na bolsa: batom, dinheiro, celular, chave do apartamento. A segurança de ter tudo sob controle me acalmava. Peguei o casaco, ajustei o salto alto e respirei fundo. Cada passo no caminho para o clube era uma mistura de ansiedade e excitação — não só pelo trabalho, mas pela transformação que eu sentia. Ao chegar, o clube estava começando a encher. A música alta reverberava pelas paredes e o cheiro levemente adocicado da atmosfera misturava-se com perfume e adrenalina. Dani me esperava nos bastidores, já maquiada, já pronta para brilhar. Ela piscou para mim, um sinal de cumplicidade: "Pronta, novata?" "Sempre pronta, veterana." — respondi com um sorriso. Ela me guiou até o camarim, onde troquei a roupa do dia pelo vestido vermelho, ajustando cada detalhe. Olhei para o espelho e vi não apenas a jovem que lutava por seus sonhos, mas a mulher que tinha o poder de comandar a atenção de todos. A Lara do dia e a Lá da noite eram a mesma pessoa em essência, mas expressavam facetas diferentes: força, sensualidade, inteligência. O clube começou a encher. Homens e algumas mulheres chegavam, rindo, falando alto, alguns já olhando em minha direção sem que eu precisasse chamá-los. Era um jogo de olhares, movimentos e controle. Eu conhecia as regras, conhecia o papel que precisava desempenhar. Foi então que eu o vi pela primeira vez. William Carter — Will, como todos o chamavam. Jovem, alto, impecavelmente vestido, um ar de arrogância natural no olhar. Não era apenas sua aparência: era a presença que ele carregava. Todos no clube pareciam pequenos diante dele. Mas ele não estava lá por curiosidade ou por status. Seus olhos me procuraram, focaram, e senti um arrepio percorrer minha espinha. Ele se aproximou lentamente, sem pressa, estudando cada detalhe como se estivesse absorvendo tudo ao redor. Eu mantive meu ritmo, minha postura, mas cada passo dele era um lembrete de que aquela noite não seria como as outras. O olhar dele me desafiava e me atraía ao mesmo tempo. Dani, percebendo minha tensão, sussurrou: "Cuidado, garota. Ele é do tipo que não se impressiona fácil." Sorri com confiança, mas internamente meu coração acelerou. Havia algo em William Carter que despertava curiosidade, desejo e até uma ponta de medo — medo de me deixar levar completamente, de perder o controle. A noite seguiu com música, luzes, dança e olhares. Mas eu sabia que aquela primeira interação com Will marcaria tudo. Ele era diferente. Ele não ria como os outros, não flertava apenas por diversão. Ele observava, analisava e isso me instigava de uma forma que eu não sabia lidar completamente. Quando finalmente terminei meu set e fui para o camarim, respirei fundo, ainda sentindo os efeitos da presença dele. Olhei no espelho, ajustei o cabelo e a maquiagem, e me permiti sorrir. Estava vivendo dois mundos, e a tensão entre eles nunca havia sido tão intensa. Mas algo me dizia que aquela noite era apenas o começo de uma história que mudaria tudo. E eu, Lara Monteiro da Silva, estava pronta para enfrentar cada desafio que viesse — fosse nas luzes da universidade, no glamour do clube ou nos olhos de William Carter.
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