Capítulo 1

1295 Words
A estrada que levava até Vale das Brumas sempre parecera mais longa do que realmente era, como se o próprio caminho se estendesse quando alguém tentava alcançá-lo depois de muito tempo longe. A noite caía devagar sobre a paisagem, tingindo o céu de um azul profundo que lentamente se dissolvia em tons escuros, enquanto uma neblina rasteira começava a surgir entre as árvores que cercavam a estrada estreita. Dentro do ônibus quase vazio, Lívia Andrade apoiava a cabeça contra o vidro frio da janela, observando as sombras das montanhas e dos pinheiros que deslizavam lentamente diante de seus olhos, enquanto o som constante do motor criava um fundo monótono que parecia embalar pensamentos que ela vinha tentando evitar desde o momento em que decidira voltar. Não era apenas uma viagem de férias. Pelo menos, não era assim que ela sentia. Durante quatro anos vivendo na cidade grande, frequentando a universidade e tentando construir uma vida nova longe da pequena vila onde crescera, Lívia havia se acostumado ao ruído constante do trânsito, às ruas iluminadas durante toda a madrugada e à sensação de anonimato que as grandes cidades proporcionam. Lá ninguém conhecia sua história, ninguém fazia perguntas sobre o passado, e isso lhe dava um tipo estranho de liberdade. Vale das Brumas, por outro lado, sempre tivera memória demais para o gosto dela. Era o tipo de lugar onde as pessoas lembravam do que você fez quando tinha dez anos, onde histórias antigas passavam de geração em geração como se fossem verdades imutáveis, e onde certos acontecimentos nunca eram realmente esquecidos, apenas sussurrados em conversas baixas entre vizinhos. Ela respirou fundo e afastou o rosto do vidro, passando a mão pelos cabelos castanhos que caíam sobre os ombros de forma desordenada, enquanto seus olhos escuros percorriam o interior do ônibus quase vazio. Havia apenas três outros passageiros espalhados pelos assentos, todos parecendo absortos em seus próprios pensamentos ou cochilando com a cabeça encostada nas janelas. O motorista mantinha o olhar fixo na estrada, dirigindo com a tranquilidade de quem já percorrera aquele caminho centenas de vezes. Tudo parecia silencioso demais, como se o mundo inteiro estivesse segurando a respiração. Lívia abriu sua mochila e retirou o pequeno caderno de capa preta que sempre carregava consigo, um hábito que adquirira desde o primeiro semestre do curso de jornalismo. Ali dentro estavam anotadas ideias de reportagens, frases que ouvia por acaso nas ruas, fragmentos de histórias que talvez um dia se tornassem algo maior. Ela gostava de pensar que cada página era um pequeno registro da forma como observava o mundo, uma tentativa de capturar detalhes que normalmente passariam despercebidos pelas outras pessoas. Mas naquela noite suas mãos hesitaram antes de abrir o caderno. Porque havia uma lembrança que insistia em voltar sempre que pensava naquela cidade. Uma memória antiga, envolta em uma névoa semelhante à que agora começava a cobrir a estrada do lado de fora. Lívia fechou os olhos por um instante e tentou afastar o pensamento. Não era por isso que estava voltando. Ou pelo menos era isso que continuava repetindo para si mesma. A decisão de retornar havia sido tomada de forma simples, quase impulsiva, durante uma conversa com sua mãe algumas semanas antes. Helena Andrade havia mencionado, em tom casual, que fazia tempo que não via a filha e que Rafael vinha perguntando quando ela voltaria para casa. A saudade na voz da mãe havia sido suficiente para fazê-la considerar a ideia. Afinal, já fazia mais de um ano desde sua última visita. Ainda assim, enquanto o ônibus avançava pela estrada sinuosa, uma sensação incômoda crescia lentamente dentro dela, como se estivesse voltando não apenas para um lugar físico, mas também para algo que sempre tentara deixar para trás. O veículo reduziu a velocidade ao contornar uma curva mais fechada, e foi nesse momento que o motorista falou pela primeira vez desde o início da viagem. — Chegamos em Vale das Brumas em alguns minutos — anunciou ele, com a voz grave ecoando pelo interior quase vazio do ônibus. Lívia abriu os olhos e voltou a olhar pela janela. A neblina agora estava mais espessa, espalhando-se entre as árvores como uma camada viva que se movia lentamente sobre o chão da floresta. Pequenas luzes começaram a surgir ao longe, marcando as primeiras casas da vila. Vale das Brumas. Mesmo depois de tantos anos, o nome ainda parecia carregar algo estranho, como se descrevesse perfeitamente o lugar. A cidade sempre fora pequena, cercada por colinas cobertas de pinheiros e por uma floresta antiga que começava logo além das últimas casas. Durante o dia, o lugar parecia tranquilo e até bonito, com ruas estreitas e casas de madeira que davam à vila um ar quase acolhedor. Mas à noite, especialmente quando a neblina descia das montanhas, Vale das Brumas adquiria uma atmosfera diferente, mais silenciosa e densa, como se as sombras se tornassem mais profundas do que deveriam ser. O ônibus entrou na rua principal da cidade com um leve rangido dos freios, passando diante de estabelecimentos que Lívia reconheceu imediatamente, mesmo depois de tantos anos. A pequena mercearia de Miguel ainda estava lá, com a mesma placa antiga pendurada sobre a porta. O café da esquina continuava iluminado, e algumas pessoas estavam sentadas perto da janela conversando. Por um momento, tudo pareceu exatamente igual. Mas então algo chamou sua atenção. Enquanto o ônibus passava lentamente pela rua principal, Lívia notou duas mulheres conversando perto da calçada. As duas estavam inclinadas uma em direção à outra, falando em tom baixo, com expressões tensas que contrastavam com a tranquilidade habitual da cidade. Uma delas olhou rapidamente em direção à estrada que levava para fora da vila, como se estivesse preocupada com algo que pudesse surgir dali. Foi apenas um instante, mas a expressão no rosto dela parecia… medo. Lívia franziu levemente a testa. Talvez estivesse imaginando coisas. Ou talvez a cidade tivesse mudado mais do que ela imaginava. O ônibus finalmente parou diante da pequena rodoviária da vila, um prédio simples de madeira com um banco longo encostado na parede externa. O motorista abriu a porta, e o ar frio da noite invadiu o interior do veículo. Lívia pegou sua mochila, levantou-se e desceu os degraus lentamente. Assim que seus pés tocaram o chão, ela sentiu uma sensação estranha percorrer seu corpo. Era como se a cidade inteira estivesse observando seu retorno. Ela respirou fundo, tentando afastar a impressão, e começou a caminhar pela rua iluminada por postes antigos que espalhavam círculos amarelados de luz sobre o asfalto. Foi então que algo chamou sua atenção novamente. No topo da colina que se erguia além das últimas casas da vila, parcialmente escondida pela neblina, havia uma silhueta escura que parecia se destacar contra o céu noturno. Uma construção. Uma casa. Lívia parou por um instante, apertando os olhos para enxergar melhor através da neblina. Mas antes que pudesse distinguir qualquer detalhe, uma rajada de vento atravessou a colina, espalhando a névoa de forma irregular. E a silhueta simplesmente desapareceu. Como se nunca tivesse estado ali. Ela ficou imóvel por alguns segundos, olhando para o topo da colina agora vazio, sentindo um leve arrepio subir pela espinha. Talvez fosse apenas a neblina brincando com sua visão. Talvez fosse apenas o cansaço da viagem. Ou talvez fosse algo completamente diferente. Naquele momento, porém, Lívia ainda não tinha como saber que aquela breve visão marcaria o início de uma história que mudaria sua vida para sempre. Porque naquela cidade existiam segredos enterrados há muito tempo. Segredos que ninguém queria lembrar. E naquela noite silenciosa, enquanto a neblina continuava a se espalhar lentamente pelas ruas de Vale das Brumas, algo antigo parecia despertar nas sombras da colina. Algo que observava. Algo que esperava. E que, muito em breve, começaria a sussurrar.
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