Capítulo 3

1288 Words
A manhã em Vale das Brumas sempre chegava devagar, como se o próprio sol precisasse atravessar com cuidado a espessa camada de neblina que parecia fazer parte permanente da paisagem da cidade. Quando Lívia acordou naquela primeira manhã de volta à casa da família, a luz que entrava pela janela de seu antigo quarto era suave e difusa, espalhando-se pelo ambiente como um brilho pálido que m*l conseguia afastar completamente as sombras nos cantos do cômodo. Por alguns instantes, ela permaneceu deitada observando o teto, tentando organizar os pensamentos que ainda pareciam dispersos entre o cansaço da viagem e a estranha sensação de estar novamente naquele lugar depois de tanto tempo. O quarto continuava quase exatamente como ela o deixara anos antes: as mesmas prateleiras com livros empilhados, o velho quadro de fotografias preso à parede e a mesa de madeira onde costumava estudar durante o ensino médio. Era curioso como certos lugares pareciam congelar no tempo, esperando silenciosamente pelo retorno de quem um dia os ocupou. Lívia sentou-se lentamente na cama e passou a mão pelos cabelos ainda desalinhados pelo sono, lembrando-se da conversa da noite anterior com Rafael. As palavras dele voltaram à sua mente com uma clareza desconfortável. A casa na colina. Ela se levantou e caminhou até a janela. Do lado de fora, o jardim de Helena estava coberto por pequenas gotas de orvalho que brilhavam sobre as folhas das roseiras. O céu ainda estava parcialmente encoberto por nuvens baixas, mas a neblina começava a se dissipar lentamente, revelando aos poucos os contornos da cidade. E ali, ao longe, erguendo-se acima das últimas casas da vila, estava a colina. Lívia estreitou os olhos, tentando enxergar melhor o topo coberto por árvores escuras. Durante o dia, o lugar parecia menos ameaçador do que na noite anterior, mas ainda havia algo nele que chamava a atenção de forma estranha, como se aquele pedaço da paisagem carregasse uma presença silenciosa. Ela ficou observando por alguns segundos, até que ouviu a voz da mãe chamando da cozinha. — Lívia, o café está pronto! Pouco depois, ela já estava sentada à mesa com Helena e Rafael, compartilhando um café da manhã simples que parecia trazer de volta uma rotina antiga que ela quase havia esquecido. Rafael falava animadamente sobre a escola, sobre amigos novos e sobre algumas histórias que circulavam pela cidade, enquanto Helena ouvia com a paciência tranquila de quem estava acostumada à energia do filho. Mas em determinado momento, Rafael voltou ao assunto da noite anterior. — Hoje todo mundo vai falar disso de novo — disse ele, entre um gole de suco e outro. — Aposto que alguém viu alguma coisa lá na colina. Helena lançou um olhar firme para o garoto. — Já conversamos sobre isso, Rafael. Não é bom ficar alimentando essas histórias. — Mas não fui eu que inventei — respondeu ele, dando de ombros. — As pessoas falam disso há anos. Lívia observava os dois em silêncio, tentando entender se aquilo era apenas mais uma das lendas típicas de cidades pequenas ou se havia algo mais por trás daquelas histórias. Depois do café, ela decidiu sair para caminhar um pouco pela cidade. Vale das Brumas durante o dia parecia muito mais viva do que na noite anterior. Algumas lojas estavam abertas, moradores caminhavam pelas calçadas e o cheiro de pão fresco escapava da pequena padaria da esquina. Lívia caminhava sem pressa pela rua principal quando ouviu alguém chamando seu nome. — Lívia? Ela se virou. Por um instante, demorou para reconhecer o homem que estava parado do outro lado da rua, vestindo o uniforme azul escuro da polícia local. Mas então o sorriso familiar surgiu. — Daniel? — disse ela, surpresa. Ele atravessou a rua com passos rápidos, ainda sorrindo, como se estivesse igualmente impressionado em vê-la ali. Daniel Almeida havia sido seu melhor amigo durante grande parte da infância. Os dois haviam crescido praticamente juntos, explorando as trilhas da floresta ao redor da cidade e inventando aventuras que pareciam imensas para duas crianças curiosas. Agora, porém, ele parecia diferente. Mais alto, com os ombros mais largos e uma postura que refletia a responsabilidade de alguém que carregava um distintivo no peito. — Você voltou mesmo — disse ele, observando-a com uma mistura de surpresa e alegria. — Voltei por uns dias — respondeu Lívia. Eles começaram a caminhar juntos pela rua, conversando sobre coisas simples no início, relembrando momentos da infância e trocando pequenas atualizações sobre suas vidas. Mas não demorou muito para que a conversa tomasse um rumo diferente. — Rafael comentou algo estranho ontem à noite — disse Lívia em determinado momento. — Sobre uma casa na colina. Daniel soltou um pequeno suspiro. — Eu devia imaginar que ele falaria disso. Lívia olhou para ele com curiosidade. — Então não é só história? Daniel hesitou por um momento antes de responder. — Vale das Brumas sempre teve muitas lendas — disse ele finalmente. — Mas a casa da colina é a mais antiga de todas. Eles pararam perto da praça central, onde uma grande árvore espalhava sombra sobre alguns bancos de madeira. Daniel encostou-se em um deles antes de continuar. — Há muito tempo existia uma casa enorme no topo daquela colina — começou ele, com um tom mais sério. — Pertencia a uma família chamada Montenegro. Lívia franziu levemente a testa. — Nunca ouvi esse nome. — Não me surpreende — respondeu Daniel. — As pessoas daqui não gostam muito de falar sobre eles. Segundo as histórias que circulavam pela cidade, os Montenegro haviam sido uma das famílias mais ricas da região décadas atrás. A casa que construíram no topo da colina era enorme, cercada por jardins e cercas altas que mantinham os moradores da vila afastados. Mas havia algo estranho naquela família. — Dizem que eles faziam coisas… diferentes lá dentro — continuou Daniel. — Rituais estranhos. Reuniões que aconteciam durante a noite. Lívia sentiu um leve arrepio. — E o que aconteceu com eles? Daniel olhou em direção à colina distante antes de responder. — Ninguém sabe exatamente. Mas uma noite houve um incêndio enorme. Quando os moradores da cidade chegaram lá, a casa estava praticamente destruída. Ele fez uma pausa breve. — E toda a família tinha desaparecido. O silêncio entre os dois pareceu crescer por alguns segundos. — Então a casa foi destruída — disse Lívia. Daniel assentiu. — Foi o que todos pensaram. Ele olhou novamente para a colina. — Só que alguns anos depois começaram a surgir relatos. — Relatos? — Pessoas dizendo que viram a casa novamente. Às vezes durante a noite. Às vezes na neblina. Lívia lembrou imediatamente da silhueta que havia visto na noite anterior. — E ela simplesmente aparece? — perguntou. Daniel deu de ombros. — É o que dizem. Ele fez uma pequena pausa antes de acrescentar: — Mas há uma parte da história que as pessoas contam com mais cuidado. Lívia sentiu a curiosidade crescer. — Qual? Daniel olhou diretamente para ela antes de responder. — Dizem que quem entra naquela casa… nunca sai do mesmo jeito. Um vento frio passou pela praça naquele momento, fazendo as folhas da árvore acima deles sussurrarem suavemente umas contra as outras. Lívia voltou a olhar para a colina ao longe. Durante o dia, ela parecia apenas uma parte comum da paisagem. Mas agora que conhecia a história, havia algo diferente naquele lugar. Algo que fazia o topo da colina parecer mais silencioso do que o resto da cidade. E enquanto ela observava as árvores escuras balançando levemente ao vento, uma pergunta começou a se formar lentamente em sua mente. Se a casa realmente havia sido destruída tantos anos atrás… Então o que exatamente ela havia visto na noite anterior?
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