Capítulo 20

1105 Words
Subir a colina naquela manhã não foi como qualquer outra subida. A névoa estava mais espessa do que antes, quase sólida, agarrando-se às pernas de Lívia e Daniel, como se a própria colina tentasse detê-los, impedindo-os de avançar. O silêncio era esmagador, interrompido apenas por estalos vindos do chão irregular e pelos sussurros distantes que pareciam ecoar de todas as direções ao mesmo tempo. Cada respiração era pesada, o ar parecia denso, carregado com décadas de memórias presas, de medo acumulado, de gritos que haviam sido silenciados, mas que agora queriam ser ouvidos. — Está ficando mais difícil — disse Daniel, a voz tensa, o corpo rígido de ansiedade e frio — cada passo parece mais pesado do que o anterior. — Eu sei — respondeu Lívia, apertando a mão dele, sentindo o mesmo peso em cada músculo de seu corpo — mas não podemos parar agora. Cada momento que hesitamos, a colina ganha força. Cada passo que não damos, a maldição se espalha ainda mais pela cidade. Quando chegaram à porta da casa, a sensação de opressão se intensificou. Não era apenas medo, era uma consciência viva que emanava das paredes, do chão, do teto. A casa respirava, observava, julgava. Os corredores pareciam se expandir, se alongar de maneira impossível, e cada porta que Lívia tentava abrir parecia levá-los para um lugar diferente do que lembravam. A boneca, sentada em sua posição habitual no canto do hall, agora parecia maior, os olhos de vidro refletindo uma luz inexistente, brilhando com inteligência própria. — Ela está esperando por nós — murmurou Daniel, a voz quase sufocada — posso sentir. Lívia respirou fundo, tentando controlar o medo. — Então vamos enfrentá-la. Chegou a hora. Ao entrarem, o ar dentro da casa parecia mais frio, mais denso. Cada passo ecoava pelos corredores como se milhares de passos estivessem seguindo-os ao mesmo tempo. As paredes rangiam, não apenas pelo tempo, mas como se estivessem vivas, expandindo e contraindo-se com intenção própria. O chão sob os pés de Daniel parecia mudar de textura, alternando entre madeira antiga e algo mais orgânico, como se estivesse pulsando, respirando. — Lívia… — disse ele, a voz trêmula — isso não é mais uma casa. É… uma criatura. — Eu sei — respondeu ela, quase sussurrando — e é hora de confrontá-la. Enquanto avançavam pelo corredor principal, os sussurros começaram a se intensificar. Não eram mais apenas sons indistintos; agora eram palavras, nomes conhecidos, memórias de pessoas desaparecidas, gritos de crianças que já não existiam. Cada som parecia agarrar a mente deles, tentando desviá-los, confundí-los, desorientá-los. De repente, uma porta à direita se abriu sozinha, rangendo de maneira quase ameaçadora. Um vento frio saiu dela, carregando consigo risadas distorcidas e um cheiro de madeira podre e terra úmida. Lívia avançou lentamente, iluminando o interior com a lanterna tremeluzente. Dentro, a cena era perturbadora: centenas de objetos, antigos e novos, todos dispostos de maneira quase ritualística, formando um padrão que se repetia pelas paredes, chão e teto. No centro, a boneca havia se movido. Não estava mais sentada; estava em pé, como se os estivesse aguardando, os olhos fixos neles, o corpo imóvel, mas emanando uma presença que enchia a sala inteira. — Ela… está viva — disse Daniel, engolindo em seco — posso sentir a intenção dela. Lívia respirou fundo, tentando reunir coragem. — Então vamos. Precisamos descobrir como destruir ou controlar isso. Ao se aproximarem, as paredes da sala começaram a se contorcer, se esticando e encolhendo, como se a própria casa estivesse tentando impedir a aproximação. O chão pulsava sob os pés, como se algo estivesse rastejando por baixo, pronto para engolir qualquer intruso. O ar estava impregnado de uma tensão quase insuportável, e os sussurros transformaram-se em um coro de vozes que pareciam vir de todos os cantos da casa. — Daniel… — disse Lívia, a voz firme, mas carregada de medo — mantenha o foco. Precisamos entender a boneca, precisamos compreender a essência da colina. Eles se aproximaram ainda mais, e a boneca virou a cabeça levemente, seguindo cada movimento deles. O corredor atrás deles começou a se distorcer, portas surgindo onde não existiam antes, quadros se movendo, sombras dançando como se estivessem vivas. Cada objeto parecia ter consciência própria, cada corredor parecia mais longo e mais profundo do que lembravam. De repente, ouviram o som de passos… mas não vinham deles. Vinham de todos os lados, parecendo ecoar pelo chão, pelas paredes, pelo teto. Daniel engoliu em seco, percebendo que não estavam mais apenas enfrentando a boneca, mas toda a consciência da casa. — Ela controla tudo aqui dentro — murmurou ele, a voz quase quebrando — cada objeto, cada corredor, cada sombra… tudo. Lívia respirou fundo, os olhos fixos na boneca. — Então precisamos confrontar isso de frente. Nada de hesitar. Se fugirmos, a cidade inteira será devorada, assim como nós. A boneca moveu a cabeça de maneira quase imperceptível, e o corredor à frente deles se abriu como um túnel impossível, levando-os para uma sala que não existia antes. O ar estava mais pesado, cada respiração parecia exigir esforço extra, e as paredes pulsavam com uma vida própria, refletindo as memórias e os medos de quem ali entrava. — Daniel… é aqui — disse Lívia — o núcleo da maldição. O coração vivo da colina. Enquanto avançavam, os sussurros aumentaram de intensidade, transformando-se em vozes quase audíveis, cada uma clamando por atenção, cada uma tentando distraí-los, cada uma tentando prender a mente deles no labirinto da casa. A boneca estava no centro da sala, agora cercada por uma aura que parecia feita de sombras vivas, pulsando, respirando, se expandindo e contraindo. Cada movimento dela era acompanhado por ondulações no ar, ondas de frio, sons distorcidos que pareciam atravessar diretamente os ossos e os nervos. — Não podemos recuar — disse Lívia, a voz firme, o coração acelerado — se falharmos, tudo estará perdido. Eles avançaram, enfrentando cada distorção da casa, cada sussurro, cada sombra. A consciência viva da colina reagia, moldando o espaço, testando cada medo, cada lembrança, cada pensamento. Mas a determinação de Lívia e Daniel era mais forte. Eles sabiam que enfrentariam o núcleo da maldição, a essência da boneca, e que o destino da cidade e de todos que haviam desaparecido dependia deles. E naquele instante, quando cruzaram a última porta e se aproximaram do núcleo, perceberam que não era apenas a casa, não era apenas a boneca. Era toda a história da colina, todas as memórias, todos os desaparecimentos, toda dor e medo acumulados, condensados em um coração vivo e pulsante, pronto para testar cada fibra de coragem e sanidade que possuíam.
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